Sr. Presidente, ficamos à espera do convite

Segunda-feira passada foi o dia em que Marcelo Rebelo de Sousa se reuniu com os órgãos de comunicação social e o dia em que percebemos que os media independentes ficaram de fora. 

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A pandemia apanhou-nos a todos de surpresa; ainda os seus efeitos estavam totalmente por prever e já o nosso trabalho enquanto órgão de comunicação social sofria uma reviravolta. Perante um momento inédito nesta geração, fomos convidados a repensar a nossa posição na sociedade – um exercício que nos deixou especialmente atentos ao papel de cada um nesta fase decisiva. 

Num órgão de comunicação social independente, com uma estrutura pequena e uma equipa que se habituou a fazer muito com pouco, percebemos que tínhamos de minimizar as informações que pudessem ser indutoras de erros, falsos alarmes ou esperanças e oferecer novas perspectivas para que os nossos leitores, confinados às suas casas, se libertarem das amarras do medo – que tínhamos de depurar o nosso trabalho.

Tínhamos a obrigação moral de manter o nosso ritmo de publicação e de redobrar a qualidade do nosso conteúdo – o estado de emergência serviu de catalisador para uma mudança qualitativa que há muito desejávamos; sentimos que o momento não nos permitia falhar. De resto, apesar das perdas nas receitas publicitárias que sofremos, vivíamos tempos em que podíamos realmente ser úteis e essa sensação de valor preenchia-nos, como quase sempre. Víamos apoios do estado aos mais necessitados e para além do escrutínio óbvio não nos movia qualquer espécie de intriga por acharmos que nos devia tocar algo. 

Como um meio de comunicação engajado com a causa social, mais do que com o sistema do capital, não tivemos apoios de empresas nem instituições de solidariedade que oferecessem assinaturas, como a Santa Casa de Lisboa ou a Fidelidade fizeram com outros; vimos metade do nosso valor em publicidade ruir mas consolámo-nos com a ideia perversa de que, pelo menos em casa, não teríamos de gastar dinheiro, por exemplo, nos transportes ou comida. 

A par do nosso esforço acompanhámos a cobertura da pandemia que foi feita nos media tradicionais e, perante as demonstrações que iam dando, reforçava-se a nossa ideia de que estávamos a fazer a coisa certa. Podemos não ter milhões de leitores – ainda que tenhamos centenas de milhares, diga-se – mas naqueles que nos lêem tentamos plantar a semente da compreensão, para que se entendesse o vírus como algo natural e não como uma guerra a uma nova arma de distância – seja ela a hidroxicloroquina, a vitamina D ou uma nova aplicação móvel. 

A meio da semana passada vimos nas notícias que o sector da comunicação social, afinal, também ia ser apoiado. O pacote de medidas, 15 milhões de adiantamento do orçamento de publicidade institucional, soou generoso. Apressámo-nos a fazer um registo que só então percebemos ser mandatório para receber este tipo de publicidade, embora no despacho não fossem mencionados os meios online. (Apesar de registados na Entidade Reguladora da Comunicação Social, nunca nos fora transmitida esta informação crucial e até à data ainda não nos responderam ao registo.)

Se a ideia de receber apoios financeiros não era convicta, continuámos a acreditar que podemos ser ouvidos por alguém com responsabilidades, até pelo convite aos media (todos) que a meio da semana foi noticiado. Falámos com outros jornalistas, de media independentes, e resolvemos aguardar. Segunda-feira passada foi o dia em que Marcelo Rebelo de Sousa se reuniu com os órgãos de comunicação social e o dia em que percebemos que os media independentes ficaram de fora. 

Percebemos que devemos contar sobretudo com os nossos leitores, com os nossos parceiros, e, claro, com os nossos colaboradores, para que nos ajudem a manter financeiramente viáveis, e para que o valor do projecto seja reconhecido e continue o seu crescendo. E que não podemos esperar que este sistema nos reconheça, porque os critérios em que ele se baseia são diferentes daqueles por que nos regemos. Apesar de querermos mais visitas não usamos estratégias de clickbait, não lançamos artigos em actualização, nem fazemos peças sobre curas para o Covid-19 baseados em estudos sem qualquer robustez científica. Não convidamos pessoas para fazer projecções assustadoras e pessimistas, não publicamos opiniões que tenham como único objectivo incendiar o espaço público, nem fizemos do nosso trabalho durante a pandemia um campeonato do sacrifício, do sofrimento e do moralismo: mantivemos a serenidade e a racionalidade que fundam o nosso contrato com os leitores. 

Neste momento solidificou-se a ideia de que vivemos no país dos ‘3 grandes’, em todos os campeonatos, e que é contra esse imobilismo individual e institucional que Portugal precisa de todos — e que os nossos leitores precisam de nós. Desengane-se portanto quem acha que fundamos este texto numa motivação negativa, numa frustração, num lamento, numa lamúria. Antes pelo contrário, fundamo-lo na certeza de que temos uma palavra a dizer sobre esta desigualdade, que tal como em outros sectores, a pandemia só o veio sublinhar. 

O mundo pós-Covid será diferente, pela força da reflexão a que fomos sujeitos e pela crise económica que se avizinha, mas enquanto sobrevivermos continuaremos, mesmo sem convites, a partilhar o que observamos, aprendemos e defendemos num país livre, seguro, mas pouco – e cada vez menos – plural. Onde a diferenciação da informação se faz, cada vez mais, pela via do sensacionalismo e da emoção gratuita e a multiplicidade de vozes se traduz num confronto espectacularmente falacioso entre extremos incomparáveis do espectro social, num processo de promoção da incompreensão, da ignorância e da dicotomia social. Onde o sector dos media é, na sua grossa maioria, dominado por empresas e grupos económicos com fins lucrativos e agendas próprias. Onde mais do que apoios precisamos de novas políticas; porque enquanto sector, mais do que resgates, precisamos de uma reinvenção. 

Uma reinvenção que ponha o leitor e o jornalista no centro da equação e os trate com dignidade; uma reinvenção que distinga os erros dos louros e as práticas tóxicas dos lapsos burocráticos, uma reinvenção que não convide um site de notícias falsas a registar-se para se legitimar, ou não estipule uma multa para um órgão de comunicação social que decidiu parar para pensar a sua operação no mesmo valor em que multou uma televisão que noticiou fora do tempo o fecho de um banco. 

Se o adiantamento na compra de publicidade é um apoio e só a sua existência deve ser, sinceramente, louvada, é preciso perceber que essa compra surge numa altura em que o valor da publicidade está historicamente baixo. Importa recordar que nem todos os órgãos dispõem de formatos publicitários nos seus suportes, que no decreto não surge qualquer menção a meios online, e que os leitores parecem cada vez menos dispostos a pagar por informação; sinais de um sector pouco dinâmico e inovador. Assim, é urgente que se pensem políticas que fomentem a cultura e literacia mediática, o espírito crítico e a valorização da informação, em vez de mais um apoio de emergência que permita manter as coisas tal como elas estão, como se estivesse tudo bem. É urgente lembrarmo-nos que para além das empresas, existem jornalistas que merecem ser apoiados pelo seu trabalho, até para que não vejam a sua actividade condicionada pela precariedade do seu vínculo e continuem a defender o que escrevem. 

Agora, mais do que nunca, é preciso o contributo de todos. Nós pedimo-lo aos nossos leitores. Da nossa parte, se alguma vez quiserem o nosso, cá estaremos à espera de um convite. Até lá continuaremos a fazer o nosso melhor trabalho, cada vez mais seguros e comprometidos.

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