Partida, largada, fugida!: a longa corrida à vacina do Covid-19

Atualmente, pelo menos 8 vacinas já se encontram em fase de teste em humanos mas isso só significa o avanço no processo, não a sua efectividade ou todos os outros pressupostos que nos transmitam a certeza de que uma cura está para breve.

Ilustração de João Ribeiro/Shifter
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Covid-19. Um minúsculo vírus definiu o futuro e a vida de milhões de pessoas por anos por vir. Testou o músculo de vários governos, organizações e indústrias. Levou à reclusão de cidadãos em circunstâncias laborais incertas. A cura desta doença é simplesmente desconhecida. Mas depois do susto e surpresa, vem a corrida à cura. E esta será fulminante e verdadeiramente contra o tempo.

Nesta corrida sem corredores fixos ou marcas de partida definidas, deseja-se globalmente uma meta em que exista uma solução de vacinação para humanos medicamente testada e em condições de comercialização a larga escala. A alternativa seria, sabe-se, a vida da imunidade de grupo que manteria o vírus presente entre nós, num cenário mais difícil de prever, até porque pouco se sabe sobre a imunidade dos corpos após a primeira infeção.

Atualmente, existem pelo menos cem produtos em desenvolvimento pelo Mundo por empresas de biotecnologia, laboratórios académicos e governos. Contudo, naturalmente, a corrida não correrá tão bem para cerca de 90 por cento deles, que, em tal feroz competição, não passarāo todos os testes de ensaios clínicos ou receberāo aprovação dos reguladores de saúde e medicamentos. Atualmente, pelo menos 8 vacinas já se encontram em fase de teste em humanos mas isso só significa o avanço no processo, não a sua efectividade ou todos os outros pressupostos que nos transmitam a certeza de que a cura está para breve. 

É preciso considerar que desenvolver uma vacina é um processo longo e iterativo, que vai muito além do desenvolvimento de uma fórmula capaz de mitigar o vírus no corpo. É preciso garantir que esta fórmula não acarreta efeitos secundários imediatos, nem no longo prazo, e, para além disso, que a sua produção é viável em termos sanitários e até mesmo económicos. Numa altura em que todo o mundo clama pela vacina como resolução para este complexo problema, todos os parâmetros se tornam ainda mais sensíveis. Para que uma vacina não seja a resolução de um problema e o princípio de outros, por exemplo de política internacional, é preciso que a sua produção seja escalável, para que a oferta possa de algum modo ir de encontro à procura. De resto, depois do desenvolvimento propriamente dito da vacina, segue-se a fase de preparação para produção e o licenciamento da fórmula, as duas últimas voltas da corrida onde tudo pode mudar.

As mais promissoras

Massachusetts Moderna

A vacina experimental mRNA-1273 criada pela empresa de biotech Moderna, sediada no estado norte-americano de Massachusetts, encontra-se em boa posição, depois de oito voluntários saudáveis terem criado anticorpos em quantidades comparáveis a pessoas que recuperaram da doença, sem aparentes efeitos secundários. Esta vacina baseia-se na alteração de RNA mensageiro para que o sistema imunológico responda. A próxima fase, esperada brevemente, envolverá 600 pessoas. Dependendo de resultados favoráveis, a última fase ocorrerá no início de Julho.

Vacina de Oxford

A vacina ChAdOX1 nCoV-19, desenvolvida pelo Jenner Institute, parte do Oxford Vaccine Group e com alta participação da Universidade de Oxford foi desenvolvida num tempo recorde de 3 meses. Baseia-se numa alteração genética que resulta na adição de glicoproteínas do SARS-Cov-2. A primeira fase de testes começou a 23 de Abril, dados os resultados animadores obtidos em macacos Rhesus em Março. John Bell, professor emérito de Medicina na Universidade, afirmou recentemente que se está em condições de avançar para testes clínicos em meados de Junho, em 1100 cobaias.  Com a hipotética aprovação da vacina, a gigante farmacêutica AstraZeneca estará no loop para produzir o produto em grande escala.

Pequim SINOVAC

Do epicentro do disseminação do vírus, na China, pelo menos três vacinas estão em estado promissor. Delas, a PiCoVacc, desenvolvida pela empresa de biotech sinovac reportou resultados positivos em macacos Rhesus em Abril. No ensaio, foram administradas duas doses diferentes da vacina a 8 macacos. 3 semanas depois, o SARS-CoV-2 vírus foi introduzido nos seus pulmões. Nenhum desenvolveu infecções graves.  Mesmo que esta vacina se baseie em princípios um tanto obsoletos de administração de vírus quimicamente inativo, esta vacina parece certamente promissora.

Pfizer & biontech

A gigante americana Pfizer aliou-se à empresa de biotech BIoNTech e produziu a vacina BNT162, baseada em princípios de alteração de RNA mensageiro, em pelo menos quatro variantes. Existem planos para testá-la em 360 voluntários saudáveis e a expectativa de Mikael Dolsten, o mais alto responsável científico da Pfizer, é que a vacina possa ser usada para emergências já este Outono.

O Capitalismo e o Elixir

A criação da vacina não podia estar mais relacionado com os princípios funcionais do capitalismo e muitas empresas tentam jogar nesta roleta russa. Um dos corredores mais velozes nos primeiros momentos da pandemia foi a Inovio, empresa de biotech do estado da Pensilvânia nos EUA. A Inovio anunciou a criação de vacinas experimentais logo em Fevereiro o que fez com que as suas ações naturalmente valorizassem rapidamente, também pela atribuição de cinco milhões de dólares de fundos públicos. Contudo, a metodologia e resultados científicos da empresa continuam sem confirmação e levaram os próprios investidores a processá-la, na base de que as declarações da empresa foram altamente enganadoras.

Nesta corrida os vencedores surgirāo naturalmente, animando todas as frentes. As notícias de sucesso precoce têm animado Wall Street e outras grandes bolsas geralmente. O Dow Jones subiu 800 pontos, numa onda de crescente otimismo por parte de empresas e da Reserva Federal. A Moderna viu um avanço de 16% do valor das suas ações e neste ano, o seu valor já mais que triplicou. A roleta continua a rodar.

Independentemente da velocidade a que estes agentes se movem, a logística de certificação e produção de qualquer potencial produto dificilmente permitirá uma comercialização de qualquer vacina ainda este ano. Numa altura em que a primeira onda do surto abranda um pouco por todo o mundo, a corrida à vacina está longe de terminar e, por enquanto, apenas oferece um fraco conforto face às parcas soluções existentes, e muita matéria para especular em todas as dimensões. Para o ano saber-se-á quem subirá ao pódio, até resta-nos cumprir as regras propostas pelas entidades competentes e não abarcar em sensacionalismos e falsas promessas, sob pena de recuarmos perante más notícias.

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