O que é ser anti-racista?

O termo não é novo, mas veio à tona porque foi preciso. Ser anti-racista é acreditar que o racismo é um problema de todos, e todos temos um papel a desempenhar para detê-lo.

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“Numa sociedade racista, não basta não ser racista, temos de ser anti-racista.” A frase é da filósofa e activista norte-americana Angela Davis, figura símbolo da causa negra na década de 1960 nos Estados Unidos, e tem sido amplamente divulgada por ocasião do movimento global que se gerou em torno do assassinato de George Floyd.

O termo não é novo, mas veio à tona porque foi preciso. Porque os eventos dos últimos dias vieram sublinhar a ideia de que é preciso fazer mais para ajudar a combater o racismo. Mesmo quem se identifica como progressista, liberal e não-racista, tem falhado sistematicamente com a comunidade negra por não contribuir para o desmantelamento activo dos sistemas que resultaram na lista cada vez maior de mortes às mãos da brutalidade policial, encarceramento em massa e pobreza. A morte de George Floyd desencadeou um movimento no qual pessoas brancas e não-negras estão a ser confrontadas com a sua inação.

A noção de várias raças dentro da raça humana não existe na biologia, mas a forma como nos identificamos racialmente é tão poderosa que influenciou historicamente as nossas experiências e moldou as nossas vidas. O privilégio de uns está tão enraizado socialmente como o sofrimento de outros – as ideias racistas são consideradas normais, inquestionáveis nos media, na cultura, nos sistemas sociais e instituições. Ao longo dos tempos, as visões racistas justificaram o tratamento injusto e a opressão das pessoas negras. A história acumula relatos de escravidão, segregação, internamento.

Podemos ser levados a acreditar que o racismo está apenas contido em atitudes e ações individuais, mas as políticas racistas sistematizadas são o que mais contribui para a polarização neste tema. As escolhas individuais são prejudiciais, mas são as ideias racistas na política com a amplitude do seu impacto, que ameaçam a equidade dos nossos sistemas e a justiça das nossas instituições. Para criar uma sociedade igualitária, devemos comprometer-nos a fazer escolhas imparciais e a sermos anti-racistas em todos os aspectos da nossa vida.

O que é ser anti-racista?

Ser anti-racista é lutar contra o racismo. Um relatório do National Equity Project dos EUA ajuda-nos a navegar a definição. Mas para lá chegarmos, é importante discernirmos que tipos de racismo existem. Historicamente, o racismo assume várias formas e surge mais frequentemente acorrentado a pelo menos uma outra forma de reforçar ideias, comportamentos e políticas racistas.

Existe o racismo individual, que diz respeito às crenças, atitudes e ações de indivíduos que apoiam ou perpetuam o racismo de forma consciente e inconsciente. A narrativa cultural dos EUA sobre racismo concentra-se precisamente no racismo individual e falha em reconhecer o racismo sistémico. Acreditar na superioridade do branco, não contratar um negro pela cor da sua pele, ou contar uma piada racista são exemplos de racismo individual.

O racismo interpessoal ocorre, como o nome indica, entre indivíduos. Engloba expressões públicas de racismo, insultos, preconceitos ou palavras e ações de ódio.

O racismo institucional é aquele vivido dentro de uma organização – tratamentos discriminatórios, políticas injustas ou práticas tendenciosas, que gerem resultados desiguais, baseados na cor da pele, e que vão muito além do preconceito. Na maioria das vezes, essas políticas institucionais não mencionam nenhum grupo racial, mas têm a intenção implícita de criar vantagens. Por exemplo, um sistema escolar no qual os alunos negros são distribuídos pelas salas de aula mais movimentadas e pelas escolas com menos recursos.

O racismo estrutural é um sistema abrangente de preconceito racial entre instituições e sociedade. Esses sistemas concedem privilégios às pessoas brancas, que resultam em desvantagens para pessoas negras. O estereótipo do negro como criminoso nos filmes e séries é um exemplo paradigmático.

Ninguém nasce racista ou anti-racista; um e outro resultam das escolhas que fazemos. Ser anti-racista resulta de uma decisão consciente de fazer escolhas frequentes, consistentes e equitativas diariamente. Essas escolhas exigem autoconsciência e auto-reflexão contínuas ao longo da vida. Na ausência de fazermos escolhas anti-racistas, (in)conscientemente defendemos aspectos da supremacia branca, de uma cultura dominante branca e de instituições e sociedades desiguais. Ser racista ou anti-racista não é sobre quem somos; é sobre o que fazemos.

“Ser anti-racista é uma escolha radical face à história, exigindo uma reorientação radical da nossa consciência.” Ibram Kendi em How to be an Antiracist 

Quando escolhemos ser anti-racistas, tornamo-nos activamente conscientes sobre termos e noções como raça e racismo e tomamos ações para acabar com as desigualdades raciais nas nossas vidas diárias. Ser anti-racista é acreditar que o racismo é um problema de todos, e todos temos um papel a desempenhar para detê-lo.

Algumas referências

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In an essay for the New York Times, acclaimed professor, award-winning author, and director of the Antiracist Research & Policy Center, @ibramxk dove into the topic of how to combat racism: ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ “No one becomes “not racist,” despite a tendency by Americans to identify themselves that way. We can only strive to be “anti-racist” on a daily basis, to continually rededicate ourselves to the lifelong task of overcoming our country’s racist heritage. We learn early the racist notion that white people have more because they are more; that people of color have less because they are less. I had internalized this worldview by my high school graduation, seeing myself and my race as less than other people and blaming other blacks for racial inequities. To build a nation of equal opportunity for everyone, we need to dismantle this spurious legacy of our common upbringing.” ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ In order to do this, we have to educate ourselves. We can learn about covert white supremacy, follow organizations leading the way for racial equity and justice, watch films, listen to podcasts, and read books. This doesn’t need to be seen as a chore, but can instead be seen as an opportunity — an opportunity to better understand ourselves, love our neighbors, and become the change we wish to see. #AntiRacism #BecomeGoodNews @goodgoodgoodco ⠀⠀ — Link to resources in @goodgoodgoodco bio

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Mas o que acontecerá quando este ciclo de notícias terminar, quando os memes sobre justiça social deixarem de ser publicados e as declarações de inclusão e diversidade desaparecerem? O que vai acontecer depois deste momento de despertar do sono confortável do nosso privilégio por um protesto impossível de ignorar? Como é que podemos realmente criar um mundo anti-racista e nos livramos desta pandemia (a do racismo) e do sistema de supremacia branca?

Várixs escritorxs e activistxs estão a fazer chegar as suas importantes reflexões às redes sociais, para onde o protesto naturalmente se espalhou, tomando as proporções que hoje lhe conhecemos. O post acima linkado, da página de boas notícias GoodGoodGoodCo deixa uma reflexão interessante, baseada numa lista extensa de referências. Em baixo, Jen Winston, norte-americana e criativa do Instagram publicou outra, da perspectiva de uma mulher branca. O entendimento de quem vive nos Estados Unidos, e assiste, convive ou lida directamente com situações de racismo dá-nos uma visão mais ampla da questão, e permite-nos perceber mais concretamente o que por lá se passa agora. Mas não há um guia para resolver o racismo em 2020.

Apesar de tudo, a luta é antiga e até por isso devemos honrar a história e os recursos perspicazes, publicados ao longo do século passado por quem a viveu na pele. Pode parecer intimidante saber por onde começar, mas há várias formas de ajudar: através de doações, protesto, e, mais importante, de educação sobre como ser um melhor aliado nesta causa. As obras de ficção e não-ficção de autores negros foram costurando uma malha de dor, injustiça e ação que tanto entristece quanto inspira os leitores em direção ao progresso. Têm surgido várias listas de leitura um pouco por todo o mundo online e, felizmente, as pessoas parecem estar a levar a sério as recomendações e a missão de se educarem, porque os livros sobre a temática anti-racista subiram – e, em muitos casos, esgotaram temporariamente – em sites como a Amazon e outros revendedores online.

Além das leituras supra sugeridas, autores mencionados e posts linkados, também o Shifter escolheu a sua selecção de livros essenciais sobre o tema. Em When They Call You a Terrorist, as co-fundadoras do movimento Black Lives Matter, Patrisse Cullors e Asha Bandele, partilham um conjunto de memórias emocionantes e poderosas sobre o preconceito e a perseguição que muitos americanos negros vivem às mãos da lei. So You Want to Talk About Race de Ijeoma Oluo é para pessoas brancas e não-negras que sentem que não sabem como começar conversas sobre raça e racismo – um recurso generoso e valioso sobre como ser honesto e atencioso ao examinar não só o racismo no mundo, mas o papel do próprio branco nisso. Na sua coleção de ensaios e discursos Sister Outsider, a poeta e activista Audre Lorde iconicamente escreveu “A revolução não é um evento único.” Para entendermos aquilo a que estamos a assistir nas notícias, é importante entender como a história moldou este momento. Mencionando outros livros publicados por pensadoras e feministas negras há décadas, Audre mostra-nos como o mundo de 2020 em pouco mudou no que ao racismo diz respeito, mas dá-nos linguagem e contexto para que o possamos enfrentar com esperança. Terminamos com Be An Antiracist de Ibram X. Kendi, o autor mencionado no início do artigo, que, em vez de teorizar sobre como consertar o mundo com os nossos sistemas pré-existentes, usa o poder das memórias para reimaginar uma sociedade que, não estando livre do racismo, trabalha activamente para o erradicar. Kendi é, aliás, o autor da lista de leitura viral publicada no New York Times, que também é, obviamente, recomendada. Porque é um privilégio podermos educar-nos sobre racismo, em vez de o experienciarmos.

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