Com medo de virar “uma Venezuela”, Brasil aproxima-se da Somália

Falta de divulgação de dados sobre a Covid-19, apoio às milícias armadas e “estado mínimo” aproximam políticas de ambos os países.

O Presidente Bolsonaro, durante uma inauguração de um hospital de campanha, Junho 2020 (foto de Alan Santos/Palácio do Planalto via Flickr)
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Em boa parte dos mapas de comparativos entre países, o leste africano conta com uma porção colorida, geralmente de cinza, que a legenda justifica: “não há dados”. Descrito como um país falido há algumas décadas, a Somália notabiliza-se no cenário internacional pela ausência da divulgação de estatísticas. Em plena pandemia da Covid-19, a estratégia foi empregue pelo governo de Jair Bolsonaro para atrapalhar a publicação dos números, pouco favoráveis à sua gestão.

Antes divulgados antes da exibição do Jornal Nacional, o de maior audiência no Brasil, os números passaram a ser publicados após a exibição do mesmo, no que foi explicitamente dito como uma forma de não ter os dados no noticiário. Depois, os números sobre a Covid-19 chegaram mesmo a ser retirados da plataforma oficial. Em outro tema de comoção internacional, o desmatamento na Amazônia, a estratégia já havia sido empregue. Bolsonaro demitiu o diretor do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) por não concordar com a divulgação dos dados pouco lisonjeiros à sua gestão.

Os media também são duramente atacados por propagarem as informações. O governo critica a imprensa pelo exercício de informar, e, o mais grave, as recentes agressões por parte de apoiantes do Presidente a jornalistas tornou a atividade no país um risco aos profissionais. A violência contra a imprensa e a incapacidade de exercer a liberdade de expressão são características também da Somália. Somado à censura sofrida por profissionais locais, o risco que repórteres estrangeiros sofrem para actuar no país justifica parte da péssima imagem no cenário internacional da nação africana.

Parte do risco é a existência de diversas milícias fortemente armadas em constante confronto. Ao sugerir que a população com armas poderia resistir ao Estado, Bolsonaro propôs um cenário que existe atualmente em outro país. Na Somália, as ordens vindas de Mogadíscio pouco valem, e o poder local amparado por armas é a prática corrente na maior parte do território. Desde que se tornou conhecida por ser um estado falido, áreas como a Somalilândia declararam independência junto do poder central e autogovernam-se, enquanto outras ficam a cargo de milícias armadas, como o Al-Shabab.

“Deus acima de todos” e “as minorias tem de se curvar à vontade das maiorias” são duas frases que seguramente o grupo extremista religioso aprovaria. Mas, como se sabe, uma é o slogan do Presidente de um país de princípio laico, e a outra é uma frase que ficou famosa sobre as suas intenções no governo. A preferência por um filho morto a um filho homossexual expressa por Bolsonaro também teria, certamente, boa aceitação do grupo.

A Somália é uma grande aplicação do estado mínimo defendido por muitos na área económica do governo. Não há grandes empresas estatais, a carga tributária é bem abaixo da média internacional, o governo não tem programas relevantes de transmissão de renda, baixíssimos níveis de investimento público. A falta de aplicação de recursos tem reflexos na Saúde, com o país realizando bem menos testes do que os vizinhos. A Foreign Policy relata que, após um número alto de infectados ter sido descoberto numa rara onda de testes, o governo decidiu parar de compartilhar os dados com o público.

O orçamento de 2020 reservou U$S 9,4 milhões para a Saúde (cerca de 8,3 milhões de euros), 2% do PIB, enquanto U$S 146,8 (cerca de 130 milhões de euros) foram reservados para gastos militares. Nem com tamanha discrepância é imaginável que militares somalis sejam tão beneficiados pelo erário quanto os brasileiros com as reformas da pensões do governo Bolsonaro, amplamente favoráveis aos membros das forças armadas. Mas é um ponto de convergência.

Um dos motivos que levaram a Somália ao noticiário internacional nos últimos anos foi a pirataria no golfo de Aden. Menos conhecida, a prática também é relevante no Brasil, como mostra reportagem do New York Times. Nos rios da Amazônia, a ausência do Estado e a violência de milícias armadas já é sentida há mais tempo. Desesperados pelo pavor de virar “uma Venezuela”, os brasileiros acabaram elegendo o plano de governo da Somália. Em pouco tempo, é possível que, ao olhar um mapa, alguém pergunte qual a razão da grande mancha cinza na América do Sul.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!