Com trabalho precário e de risco, estafetas de aplicações movimentam-se no Brasil

Apenas em maio, 40 pessoas morreram em acidentes de mota em São Paulo; sem vínculos contratuais, o maior medo é não trabalhar.

Foto de Robert Anasch via Unsplash
 
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Conduzir numa cidade na qual, apenas em maio de 2020, 40 pessoas já morreram em acidentes de mota — os acidentes que representam 80% dos internamentos por ocorrências no trânsito — não é simples. Na caótica São Paulo, motociclistas envolvidos em acidentes são rotina. Mas tomada atualmente por entregadores de aplicações, os acidentes pode ser apenas o começo do problema. Sem legislação específica, ficar sem trabalhar significa não ter renda, o que, em alguns casos, é o único sustento da família. E ainda há o risco de contaminação pela Covid-19. Agora, há mobilização para mudar isto.

Em abril de 2019, quase 4 milhões de brasileiros tinham o trabalho nas aplicações como a sua principal fonte de rendimento. Um ano depois, com a queda no mercado formal, é esperado que o número tenha subido ainda mais. Em cidades como São Paulo, as caixas estampadas com as marcas Uber Eats, a brasileira Ifood ou a colombiana Rappi, transformaram a paisagem urbana.

Com a oferta alta, veio uma queda no pagamento pelos serviços. Por quilómetro, é comum que o trajeto renda cerca de R$ 1,50 (0,25 euros). Muitos realizam o percurso em bicicletas, e a aquisição de uma motocicleta é o sonho de vários para seguirem com o trabalho. Para atingir o salário mínimo, hoje em R$ 1039 (173 euros), a jornada costuma ser exaustiva num sistema que beneficia a falta de descanso, uma das principais reclamações.

O vídeo de estafetas a questionarem as suas condições de trabalho na Avenida Paulista, principal ponto de São Paulo, tornou-se viral e um dos grandes alvos foi o sistema de bonificação de algumas aplicações. Com ele, trabalhadores precisam de trabalhar horas seguidas, e mesmo nos finais de semana, para conseguirem melhor pontuação, que rende trajetos mais oportunos. Outro ponto de discordância são os cancelamentos, que muitos alegam serem feitos de formas arbitrária, a deixar alguns trabalhadores sem trabalhar vários dias ou mesmo excluídos da aplicação.

A condição agravou-se com a pandemia. No começo, os trabalhadores não tiveram auxílio como materiais de proteção, ou garantias de renda em caso de adoecimento. Houve uma certa mobilização e as empresas passaram a fornecer elementos como álcool em gel, e a Ifood anunciou um fundo de R$ 1 milhão (cerca de 177 mil euros) para trabalhadores incapacitados pela Covid-19. Mas o movimento não parou. Em reportagem da BBC Brasil, um dos líderes chegou a citar um caso emblemático que gerou indignação: “O menino precisava percorrer 9 km de bicicleta para ganhar R$ 16 (2,66 euros). A gente falou: ‘assim não dá, está cada vez pior'”, relatou Mineiro, um dos líderes das mobilizações, que teme retaliação caso seu nome seja divulgado.

As más condições em São Paulo para os chamados “motoboys” não são novas. Uma lei precisou ser criada para proibir uma prática que incentivava comportamentos perigosos. Apps de entrega de comida faziam promoções que diziam que, em caso da entrega não chegar no prazo estipulado, normalmente 30 minutos, o cliente não precisaria de pagar o pedido, o que com frequência gerava prejuízo aos trabalhadores. Em São Paulo, o problema é mais emblemático, já que em determinados momentos é impossível percorrer mais de 1 km na cidade em 30 minutos de forma segura. Os acidentes entre estafetas de mota e motoristas viraram regulares, com brigas no trânsito e mesmo mortes a tornarem-se frequentes.

Com o poder de mobilização das redes sociais, a situação ganha uma nova perspectiva. Na sua coluna de opinião, no The Intercept, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado descreveu a situação como “a primeira insurgência do precariado dos aplicativos”. Um dos grupos que lideram a mobilização chama-se “entregadores antifascistas”, uma alusão à oposição ao governo de Jair Bolsonaro. No entanto, o movimento é mais amplo, e deve contar com diferentes correntes políticas.

Uma greve prevista para 1 de julho promete ser o grande momento da mobilização. No caso da Uber, manifestações semelhantes de motoristas levaram a uma disparada no preço dos serviços, o que pode ocorrer também no dia do protesto. A Ifood indica que permite a liberdade de expressão, posição compartilhada pela Rappi. As três empresas defendem os seus modelos, e reafirmam que as condições são as expressas nos termos de uso, em resposta à BBC Brasil.

Apesar de emblemática em São Paulo, a precariedade afeta todo o Brasil e a América Latina. Estimativas apontam que a região será uma das que terá a recuperação económica mais lenta após a pandemia, e em países como a Argentina e o Brasil, que já estavam em crise, a situação arrasta-se. Em Buenos Aires, as aplicações tomaram a cidade, com a Pedidos Yá, ramo local da Ifood, e a espanhola Glovo a tomarem grande parte do mercado. Na capital argentina, o ramo é especialmente importante para imigrantes de países sul-americanos, como a Bolívia, o Paraguai, o Peru e a Venezuela, a última com um dos maiores fluxos globais de refugiados.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!