Facebook terá ignorado as suas próprias ideias para tornar rede social menos polarizada

“Os nossos algoritmos exploram a atracção do cérebro humano por polarização”, lia-se num documento interno do Facebook de 2018.

Foto de Anthony Quintano via Flickr, CC BY 2.0
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O Facebook diz, em resposta a uma peça publicada pelo Wall Street Journal (WSJ) na semana passada, que “aprendeu bastante desde 2016 e que já não são a mesma empresa hoje”, mas há erros ou falhas que podem ter consequências pao longo do tempo. O WSJ reporta que o Facebook terá ignorado um estudo sobre os seus algoritmos criarem divisões sociais e que nada fez para colmatar o problema.

Numa altura em que reacendem acusações sobre Trump de dividir e polarizar a América, a peça do WSJ ganha um significado e importante maiores. O jornal conta que um relatório interno do Facebook, apresentado a executivos da empresa em 2018, referia que a rede social, em particular o seu sistema de recomendações, criava divisões e polarizações sociais. “Os nossos algoritmos exploram a atracção do cérebro humano por polarização”, lê-se num slide da apresentação de 2018 à qual o WSJ teve acesso. “Se [o algoritmo] não foi ajustado”, alertava-se no documento, quem navega no Facebook iria receber “conteúdos cada vez mais divisivos, num esforço para ganhar a atenção dos utilizadores e aumentar o tempo na plataforma”.

Um outro relatório interno, de 2016, indicava que 64% das pessoas que se tinham juntado a um grupo extremista no Facebook só o fizeram porque o algoritmo da empresa o tinha recomendado, aponta o WSJ. Em reacção a estas evidências, o Facebook nada fez. As equipas de liderança da empresa ignoraram as conclusões e não assumiram qualquer responsabilidade por acreditarem que alterações ao algoritmo de recomendação pudessem afectar desproporcionalmente páginas e grupos de discurso político dos Conservadores.

O WSJ estabelece a figura de Joel Kaplan como central nos esforços do Facebook de ignorar as conclusões de estudos e relatórios internos. Kaplan é actual vice-presidente do Facebook para assuntos de diplomacia e antes deste cargo trabalhou na equipa do Presidente George W. Bush. Figura controversa pela suas associações políticas à direita conservadora, Kaplan assumiu um papel maior no Facebook desde as eleições de 2016. Terá uma capacidade de influenciar Mark Zuckerberg e críticos apontam que o seu trabalho passa por apaziguar os conservadores, evitando acusações direccionadas Facebook de potencial viés político.

De acordo com o Wall Street Journal, Joel Kaplan terá pressionado para que propostas para melhorar a qualidade das discussões na plataforma e reduzir e influência dos chamados “super-partilhadores” – utilizadores hiperactivos que tendem a ser agressivamente partidários e, em alguns casos, pagos para interagirem no Facebook — nao avançassem. Entre essas propostas, destacam-se duas: uma delas passava por isolar conversas acesas dentro de um grupo de Facebook em subgrupos temporários, com os administradores desse grupo a poderem ainda limitar a frequência das publicações de utilizadores problemáticos; a outra tinha que ver com o aperfeiçoamento do algoritmo de recomendação para recomendar mais grupos e mais grupos diferentes aos utilizadores, prioritizando também a promoção de grupos associados a conteúdos neutros.

A resposta do Facebook, enviada ao The Verge, indica que a empresa aprendeu e mudou muito. “Criamos uma equipa de integridade robusta, fortalecemos as nossas políticas e práticas para limitar conteúdo nocivo e recorremos à investigação científica para entender o impacto de nossa plataforma na sociedade, para que continuemos a melhorar. Em Fevereiro passado, anunciámos um financiamento de 2 milhões de dólares para apoiar propostas de pesquisa independentes sobre polarização.”

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