K-Pop Stans e Alt TikTok: os exércitos online que derrubaram Trump no seu próprio campo de batalha

Depois de uma campanha de registos online, a equipa de Trump esperava um comício cheio em Tulsa, Ohio. Mas num pavilhão com capacidade para 19 mil pessoas foram cerca de 6 mil aquelas que compareceram. O excedente de inscritos, sabe-se agora, deveu-se a uma campanha orgânica concertada entre os fãs de Pop Coreano e o movimento Alt TikTok.

Ilustração via Shifter
 
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No dia 11 de Junho, a conta de Twitter da equipa de Donald Trump, @TeamTrump, publicava no Twitter um convite para quem quisesse estar presente no comício de Tulsa, Ohio, semanas depois, se registar online. Para conseguir ingresso para o evento tudo o que cada internauta tinha de fazer era enviar uma sms para com o texto “APP” para um número determinado, descarregar a aplicação Trump 2020 e registar-se como participante do Make America Great Again Rally. A estratégia era simples e os números crescentes iam enchendo de esperança os responsáveis pela campanha de Trump.

Brad Parscale, o homem que já passou pelo palco do Web Summit para explicar a estratégia digital do Presidente dos Estados Unidos da América, era o rosto deste contentamento. Dia 15 celebrava na sua conta de Twitter mais de 1 milhão de registos em apenas 4 dias e deixava os conselhos para que a multidão pudesse comparecer no rally.

O que a equipa de Trump não esperava é que as expectativas criadas para o regresso aos rallies não se iria materializar, com as imagens vindas de Tulsa a mostrar um dos comícios menos participados de que há memória — algo previsível num contexto marcado pela pandemia da Covid-19 e pelos protestos que ainda ecoam relativos ao movimento #BLM mas escondido pela corrida digital aos bilhetes. Num pavilhão com capacidade para 19 mil pessoas foram cerca de 6 mil aquelas que compareceram, deixando as bancadas completamente despidas e obrigando ao cancelamento do programa que se delineara para o exterior; o excedente de inscritos, sabe-se agora, deveu-se a uma campanha orgânica concertada entre os fãs de Pop Coreano e o movimento Alt TikTok, dois verdadeiros exércitos online que desde cedo foram mostrando o seu interesse em corromper estas estratégias de utilização do digital.

Como conta Elijah Daniel, Youtuber e participante desde movimento de hacking comunitário, a mensagem corrente estabelecendo o plano para estragar o plano da equipa de Trump começou a correr entre as contas de TikTok do chamado Alt TikTok, pelos canais habituais onde se espalham os planos activistas que pontualmente unem esta multidões. A este grupo juntaram-se os fãs de K-Pop, também conhecidos como K-Pop Stans, que nesta aventura acabaram por dar continuidade ao que têm feito nos últimos tempos — desde o começo das manifestações pelo Black Lives Matter, os fãs de KPOP têm sido uma espécie de comunidade moderadora das hashtags de Twitter, invadindo com fotografias de cantores coreanos todas as tentativas de fazer crescer tendências contra o protesto.

Em conjunto, o movimento Alt TikTok, que contempla, por exemplo, contas com altos números de seguidores e que se apresentam como sendo paródias de marcas multinacionais, acumulando milhares de seguidores, e a gigante base de fãs dos vários grupos coreanos, conhecidos na internet pela sua actividade constante, terão conseguido registar milhões de participações no evento de Trump — como iam abertamente expondo online — em jeito de partida. Como acima referido, esta não é a primeira acção ‘activista’ destes grupos conhecidos pela sua capacidade de mobilização online. Os fãs de KPop são de resto um dos grupos mais conhecidos na internet pela forma peculiar e demarcada como agem: quando chamados a publicar inundam qualquer tendência com fotografias, vídeos, gifs, letras e mensagem de amor para os ícones vindos da Coreia do Sul e praticamente desconhecidos deste lado do mundo.

Contudo, Trump e a sua equipa já vieram saber que discordam absolutamente da ideia que tem sido noticiada pelos media. Para o POTUS e a sua equipa, a vitória que os “esquerdistas” e os “trolls da internet” estão a celebrar revela a sua ignorância sobre a forma de funcionamento dos rallies do partido Republicano e esquecem as verdadeiras razões que levaram à falta de pessoas. No comunicado a equipa de Trump diz que o registo por telefone é recomendado mas não obrigatório e que a entrada no rallie se dá por ordem de chegada.

“Esquerdistas e trolls da internet estão por aí a vangloriar-se, a achar que tiveram impacto na afluência do comício, não fazem ideia do que estão a falar ou como estes comícios funcionam. (…) Nunca tivemos em conta estes pedidos falsos de bilhetes. O que faz com que esta tentativa de hackear os nossos eventos ainda mais ridícula é que os comícios são de admissão geral – a entrada é feita por ordem de chegada e não é necessário registo prévio.”

Trump aproveitou o comunicado para desviar as atenções da internet — e provavelmente da capacidade de multidões quebrarem algoritmos e criarem cenários virtuais — e voltou a centrá-las no seu alvo preferido, os media. Para Trump, têm sido sempre fake news as que retratam o perigo da Covid-19, uma América em revolta, e algumas cidades “em chamas” que afastaram as pessoas do seu comício. Elementos da sua equipa vão mais longe e culpam os manifestantes do movimento Black Lives Matter por terem impedido alguns apoiantes de Trump de entrar no pavilhão, bloqueando as passagens para os detectores de detectar.

Zeynep Tufekci, escritora habitualmente publicada em revistas de referência nos Estados Unidos da América e autora do livro From Twitter to Tear Gas, lembra que esta história pode soar como vitória aos opositores de Trump mas que essa percepção não é mais do que uma reação a curto-prazo. Para a escritora que tão bem reflecte no seu livro sobre a influência do mundo digital nas lutas do mundo real — usando exemplos concretos de protestos iniciados na Internet — este caso marcará mais um nível na corrida às armas digitais, revelando o potencial de manipulação de grande parte dos sistemas digitais. Em resposta aos tweets em que Tufecki o refere, apontando para uma referencia no seu livro, surgem mesmo testemunhas na primeira pessoa que recordam histórias do passado e a forma como depois de uma vitória digital, a “instrumentalização” dos algoritmos se virou contra o grupo originalmente vencedor.

Tufekci aproveita assim o caso para lançar uma reflexão sobre a possível utilização dos algoritmos pelo outro lado. A autora reitera que mais importante do que celebrar uma vitória no curto-prazo, acontecimentos como este devem fazer-nos questionar sobre como poderão estes mesmo algoritmos e lógicas ser exploradas no sentido inverso. A escritora turca recorda a sua crítica à campanha de Obama em 2012, quando de modo inédito criticava o seu abuso das funcionalidades do Facebook que, mais tarde se viera a saber, fora uma das componentes mais importantes da eleição de Trump e até do próprio Brexit. Para a investigadora, é claro que o pensamento devia estar focado em desenhar sistemas impermeáveis a aproveitamentos populistas e a instrumentalizações, independentemente do actor. Neste ponto importa acrescentar que numa corrida pelo domínio dos algoritmos, a componente financeira pode desempenhar um papel importante — através da compra de anúncios, redes de bots, etc — o que pode fazer com que estas estratégias aparentemente funcionais se tornem inúteis.

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