No Líbano, os protestos voltaram à rua para pedir que o Governo coloque o país “em primeiro lugar” 

As manifestações iniciaram-se em outubro de 2019 e os libaneses exigem eleições antecipadas e mudanças no setor judicial. Beirute e Trípoli são as cidades com maior mobilização.

Foto de Nicolas Garon/CC BY-SA 4.0
 
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As manifestações antirracismo têm concentrado milhares de pessoas pelas ruas de todo o mundo através do movimento #BlackLivesMatter. Já no Médio Oriente, os protestos acontecem, mas noutros moldes e com outros objetivos: os libaneses reclamam melhores condições de vida numa luta que começou em outubro do ano passado e que agora foi intensificada com a recorrente desvalorização da libra libanesa. Só a Covid-19 os parou, em janeiro, mas a luta regressou à rua no final da semana passada.

A queda da moeda local em relação ao dólar norte-americano foi um dos motivos que espoletou os protestos, que duram já há quatro dias. As manifestações servem para reclamar “muitas coisas, mas as mais importantes são os direitos humanos básicos, melhores condições de vida e eleições antecipadas”, conta Tarek (nome fictício), libanês de 24 anos, ao Shifter. Desde o dia 17 de outubro até janeiro, altura em que entrou em confinamento devido ao novo coronavírus, o manifestante saiu à rua todos os dias para protestar. Pediu para esconder a verdadeira identidade devido aos grupos anti-protestos.

Em 2019, a revolta dos libaneses procurava soluções para a falta de eletricidade, falta de água, salários baixos, entre outras reivindicações. Os protestos culminaram com a demissão do então primeiro-ministro Saad Hariri. Em janeiro, formava-se o atual Governo, encabeçado por Hassan Diab. Por essa altura, “muitas pessoas deixaram de ir para as ruas para dar uma oportunidade” ao novo Executivo, que Tarek acusa de não ser tecnocrático e independente. Agora, estamos em junho e nada mudou, na verdade ficou pior”, continua. “Estamos à procura de um Governo independente que coloque o Líbano em primeiro lugar diante dos seus partidos políticos”.

Líbano: uma revolta sem espectros religiosos que quer mudar um país

Neste regresso aos confrontos, a violência escalou entre as forças de segurança e a população. Os manifestantes chegaram a atirar pedras e cocktails molotov contra a polícia, enquanto gritavam “revolução, revolução”. Os soldados tentaram dispersar a multidão com gás lacrimogéneo. Os protestos assumiram também uma forma metafórica, com um grupo de pessoas vestidas de preto a carregar um caixão com a bandeira libanesa.

Organizar novas eleições é uma das medidas reivindicadas pelos libaneses, mas o sufrágio pode levar a resultados pouco satisfatórios para a população. “Muitas pessoas querem eleições antecipadas, mas essa também é uma convocação apresentada pelos partidos da oposição”, começa por explicar ao Shifter Emily Lewis, jornalista freelancer sediada no Líbano. “Muitas pessoas também acreditam que, sem a reforma eleitoral e uma revisão do sistema sectário que governa a política aqui, as eleições antecipadas acabarão por colocar os mesmos partidos de volta no poder”. Tarek vai ao encontro da jornalista, afirmando que “algumas pessoas ainda podem votar nos mesmos políticos e partidos, como Hezbollah, Movimento Amal, FPM, Forças Libanesas e Movimento Futuro”, o que fará com que existam poucos ou nenhuns progressos no futuro.

As mudanças, no entanto, são exigidas em vários setores da governação. “Eles precisam de começar com a reforma económica e mudar o sistema judicial, que também não é independente”, diz o manifestante. Para Emily, “a corrupção e o nepotismo são endémicos do sistema político, portanto, sem uma série de reformas e esforços para removê-los, será muito difícil restaurar a economia e a fé do povo”.

A moeda local já perdeu quase 70% de valor desde outubro e a taxa de desemprego situa-se agora nos 35%. O país exporta poucos produtos, por isso, a maior parte dos dólares que entram no território são depositados por investidores ricos no Banco Central. No entanto, “para manter esses investimentos, o Banco Central ofereceu taxas de juros cada vez mais altas para grandes depósitos, cujos rendimentos só poderiam ser cobertos por depósitos mais novos a taxas ainda mais altas”, como explica o The New York Times. A estratégia dificultou novos investimentos, afetando a entrada de dólares no Líbano.

Depois do início dos novos protestos na semana passada, com estradas fechadas pelos manifestantes, o primeiro-ministro Hassan Diab realizou uma reunião de emergência. O Presidente Michel Aoun confirmou que o Banco Central irá injetar, nesta segunda-feira, dólares norte-americanos na tentativa de travar a queda livre da moeda nacional. O edifício foi atacado e incendiado durante o fim de semana.

“O que aconteceu como resultado do alto preço do dólar, sem qualquer justificação, faz-nos pensar se o número dado ao preço do dólar é um boato que circulou para levar as pessoas às ruas e para os confrontos. É um jogo político, bancário ou algo mais?”, perguntou o Presidente Aoun, citado pela imprensa. Já o primeiro-ministro acusa os opositores de aproveitamento político: “Alguns tentaram explorar a situação novamente. Lançaram mentiras e rumores, contribuíram para aprofundar a crise da libra libanesa, causaram uma grande crise e empurraram as pessoas para as ruas”.

O Líbano está a sofrer uma das maiores crises económicas da sua história desde a guerra civil do século XX e a pandemia veio intensificar a conjuntura. “O confinamento tornou uma situação económica já terrível noutra ainda pior, juntamente com um Governo que não ofereceu apoio adequado a milhares de famílias que perderam a sua renda”, conta a jornalista. “Muitos libaneses dizem que se não morrerem de coronavírus, vão morrer de fome ou falta de assistência médica e apoio social”. A crise também está a afetar a política e, segundo o The National, várias “figuras de alto nível pedem a demissão de Michel Aoun” através de uma petição.

“Porque é que não posso viver como um ser humano no meu próprio país?”, pergunta Tarek. O libanês vai abandonar o Líbano no final do ano para se mudar para os EUA: “Se pudermos espalhar a consciência e acordar as pessoas a tempo, poderemos ver mudanças. Eu queria lutar para mudar e, mesmo que não funcione, sei que pelo menos não desisti”.

O Banco Mundial, instituição financeira internacional que efetua empréstimos a países em desenvolvimento, acredita que a taxa de pobreza do país vai chegar quase aos 50% ainda este ano. Com quase sete milhões de habitantes e numerosos grupos de refugiados sírios e palestinianos, o Líbano é um dos países com maior dívida soberana do mundo. As conversações com o FMI continuam na esperança de melhorar a situação económica.

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