Microsoft trocou jornalistas por inteligência artificial

A Microsoft está a dispensar jornalistas e editores que seleccionavam as notícias que apareciam no Microsoft News, no portal MSN e no browser Edge.

Foto de Thomas Hawk via Flickr
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A Microsoft anunciou, na sexta-feira, que vai dispensar dezenas de jornalistas e editores que seleccionavam os conteúdos em destaque no agregador de notícias Microsoft News, no portal MSN e na página inicial do Microsoft Edge, no Reino Unido e nos Estados Unidos, para serem substituídos por inteligência artificial.

Segundo o The Guardian, no Reino Unido, vão ser demitidos cerca de 27 funcionários que trabalhavam através da PA Media com a Microsoft. “Passei o tempo todo a ler sobre como a automação e a IA vão tomar conta de todos os nossos trabalhos, e aqui estou eu – a IA tirou-me o trabalho”, declarou uma das pessoas agora dispensada, citada pelo jornal britânico. O mesmo indivíduo acrescentou que a decisão da Microsoft de substituir humanos por software é arriscada pois a actual equipa tem de seguir “normas editoriais muito estritas” para que não sejam apresentados conteúdos violentos ou inapropriados aos utilizadores quando abrem os seus browsers, o que é de particular importância para os utilizadores mais novos.

A equipa de 27 pessoas que trabalhava com a Microsoft não produzia conteúdo original, apenas seleccionava artigos dos órgãos de comunicação social para destacar nas apps do Microsoft News, na homepage do MSN e no Edge. É um trabalho semelhante ao que em Portugal é feito, por exemplo, no SAPO, onde uma equipa humana de editores recebe os conteúdos das várias publicações parceiras – incluindo o Shifter – e destaca os melhores nas diferentes secções temáticas da homepage.

Se, por um lado, podemos argumentar que ser jornalista ou editor significa mais do que somente seleccionar artigos de outros para destaque, e que essa tarefa pode ser facilmente automatizada, por outro, podemos reconhecer valor numa curadoria por pessoas reais, capazes de interpretar as nuances da linguagem humana como ninguém e, por isso, de garantir que os títulos são claros e correctos, que as histórias são verídicas e que não há opiniões políticas à mistura. A IA poderá chegar a esse ponto um dia, mas poderá ainda ser cedo.

No espectro oposto, por exemplo, o Facebook percebeu, em 2019, que os algoritmos não chegam para fazer curadoria de notícias e decidiu contratar humanos. A empresa também conta com pessoas a fazer moderação dos conteúdos publicados pelos utilizadores na rede social porque a tecnologia não é ainda capaz de o fazer. A Apple também conta com editores humanos na sua plataforma Apple News; já o Google News é assente somente em algoritmos, o que tem implicações na qualidade do serviço – que raramente apresenta uma boa selecção de artigos.

A substituição de curadores humanos por robôs é algo que parece iminente, mas as tecnológicas ainda estão à procura de aperfeiçoar a tecnologia – é o caso da Google, por exemplo. Contudo, há uma pergunta importante que tem de ser feita: sem a Microsoft, o que acontece aos jornalistas e editores da PA Media que colaboravam com a gigante norte-americana? O The Guardian reporta que, como outras empresas de media, a PA Media enfrenta desafios financeiros difíceis, apesar de ter expandido a sua área de negócio. Um porta-voz da Microsoft diz que “estamos a fazer tudo o que conseguimos para apoiar os indivíduos afectados”. “Como todas as empresas, avaliamos o nosso negócio numa base regular. Isso pode resultar em aumento do investimento em algumas partes e, de tempos em tempos, em reajustes noutros. Essas decisões não são o resultado da actual pandemia.”

A dispensa de jornalistas e editores das equipas da Microsoft News e MSN deu-se tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos. De acordo com o Business Insider, cerca de 50 funcionários que trabalhavam através das agências Aquent e MAQ Consulting foram dispensados. O Microsoft News foi lançado há cerca de dois anos com a Microsoft a anunciar “mais de 800 editores a trabalhar a partir de 50 localizações à volta do mundo”; já o MSN existe desde 1995. Não se sabe se as decisões da Microsoft no Reino Unido e Estados Unidos poderão afectar as equipas noutros países.

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