Steve Saylor, o ‘gamer cego’ que quer mostrar às pessoas como vê os videojogos

Steve Saylor tem 33 anos, é designer gráfico, web designer e editor de vídeo, vive em Toronto e, como várias pessoas, gosta de partilhar vídeos e transmissões ao vivo do próprio a jogar; no seu canal do YouTube conta com quase quatro mil subscritores.

Screenshot via YouTube/Steve Saylor
 
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O mundo dos videojogos requer um nível de atenção, concentração e paciência que só aqueles que têm verdadeiro gosto acabam por lhe dedicar parte da sua vida. Mas esse mesmo mundo também requer capacidades motoras e cognitivas, indispensáveis à maior parte das funcionalidades que um simples jogo, que acabam por deixar de parte pessoas com deficiências de qualquer tipo mas vontade de jogar. Contudo, imaginar um futuro onde pessoas incapacitadas possa ter mais facilidade em jogar é cada vez mais realista, se pensarmos no uso certo da tecnologia que permite essa inclusão.

Steve Saylor é um exemplo disso. Tem 33 anos, é designer gráfico, web designer e editor de vídeo, vive em Toronto e, como várias pessoas, gosta de partilhar vídeos e transmissões ao vivo do próprio a jogar; no seu canal do YouTube conta com quase quatro mil subscritores. No entanto, ao contrário da maioria dos streamers Steve não consegue ver.

Steve Saylor nasceu com uma doença ocular chamada nistagmo. Esta condição provoca um movimento involuntário, repetitivo e rápido que faz com que os seus portadores desenvolvam uma visão menos clara – no caso de Steve resultou numa baixa visão, algo que nunca o impediu de concretizar objetivos. Criou um canal de YouTube que é dedicado a um pouco de tudo: reações, críticas e primeiras impressões dos jogos que saem e estão para sair. Começou por volta de 2015 e, desde então, nunca mais parou. A sua energia contagiante, as caretas, a voz peculiar e o habitual “exagero positivo” são características que nos agarram ao ecrã enquanto aprendemos com a experiência de alguém com uma condição diferente da nossa – pelo menos da maioria de nós. Junta-se à equação a alegria contagiante com que se apresenta em cada um dos vídeos.

Não é fácil por escritor termos uma noção de, afinal, como vê Steven. Por isso, na tentativa de ajudar as pessoas a entenderem melhor, e em resposta a comentários negativos no seu canal, Steve criou um vídeo intitulado “What I see when I’m playing video games”. No vídeo, usa o Fortnite como exemplo para comparar o seu nível de visão ao de uma pessoa normal, o que acaba por ser um convite a entrarmos na realidade de Saylor e pensarmos mais sobre pessoas como ele.

“Cresci a ver pessoas a fazer consolas e jogos e ninguém a pensar em quem tem deficiência porque não era algo importante. Não estou a culpar ninguém por isso. Provavelmente não tinham nenhuma deficiência nem conheciam ninguém que tivesse. Mas quando vemos a crescente comunidade de pessoas com deficiência online que desejam jogar os mesmos jogos que os amigos estão a jogar, isso pode influenciar. Quanto mais vozes existem e maiores se tornam, mais as pessoas começam a prestar atenção”, disse Steve em entrevista à revista Vice.

Blind Gamer é o nome da série que Steve Saylor criou no seu canal de YouTube. Nela, o foco é jogar de forma cómica e entreter o público com os jogos de que mais gosta. The Last Of Us, Mass Effect e Witcher 3 são alguns dos jogos preferidos de Steve – jogos de representação de papéis, onde o movimento do jogo acaba por ser a um ritmo mais lento e controlado, o que para Steve se torna mais fácil.

As visualizações no canal de YouTube nunca passaram das centenas; no entanto, as coisas mudaram bastante depois Steve ter experimentado RV (Realidade Virtual) pela primeira vez, através de uma demonstração no YouTube Space, em Toronto. Esse vídeo já conta com mais de 40 mil visualizações e, segundo Steve, serviu para o mesmo perceber que a RV tem potencial até jogadores com algumas incapacidades.

“Isto torna muito mais fácil, mais acessível. É neste ponto que a acessibilidade pode ser incentivada, e espero que seja nessa direção”, disse Saylor. Não se sabe se a realidade virtual poderá ser o futuro para jogadores com deficiência visual mas pode ser o início, pelo menos, de um melhoramento consciente das poucas condições que os jogos oferecem para pessoas com essas condições. Certo é que é necessário apoiar uma comunidade que tende a crescer ao longo dos anos e é com estas novas tecnologias que isso pode ser possível.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!