Telegram “ganha” ao regulador russo e aponta agora para China e Irão

Dois anos depois, a Rússia desbloqueou o Telegram; Durov pede agora que os "resistentes digitais" concentrem os seus esforços nos países onde a app ainda continua bloqueada.

Ilustração via Shifter
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Criado pelos irmãos Durov, fundadores também do WK – o chamado Facebook Russo –, o Telegram é só mais uma aplicação de mensagens mas ocupa um posicionamento muito especial. Tendo sido fundada pelos irmãos que se viram obrigados a sair da Rússia e a abdicar do seu primeiro projecto, o Telegram faz da resistência digital a formas de censura um dos seus grandes argumentos e, simultaneamente, uma das suas grandes batalhas.

Há dois anos, em 2018, o regulador das telecomunicações russo anunciou que só permitiria que a app continuasse em funcionamento se partilhasse com as instituições russas a chave de encriptação das mensagens trocadas pelos milhares de utilizadores. Os responsáveis pelo Telegram rejeitaram liminarmente a exigência e a app acabou por ser banida. O caso levou milhares de russos às ruas, nomeadamente numa simbólica manifestação em que se atiraram aviões de papel – símbolo do Telegram – mas, sabe-se entretanto, ainda levou mais milhares (milhões) a registar-se na aplicação.

Milhares nas ruas de Moscovo contra o fim da internet livre

Durov mantém um contacto regular com os utilizadores da aplicação Telegram através do seu canal de mensagem. Foi por lá que fez saber que desde o bloqueio oficial da aplicação, promovido em Maio de 2018, a base de utilizadores não diminui, como previsto, tendo, pelo contrário duplicado desde então. A explicação para o fenómeno está no facto de a comunidade de Telegram promover a chamada Digital Resistance, isto é, tácticas para resistir às exigências governamentais impostas. Esta resistência, neste caso específico contra a suspensão da app, passou pela criação de servidores proxy que escondiam o tráfego da aplicação, contornando o bloqueio aplicado pelo regulador aos IPS dos servidores onde esta está alojada. Mas agora chegou ao fim.

A Roskomnadzor, o regulador russo para as telecomunicações e tecnologias de informação, tem um novo director que numa das suas primeiras intervenções decidiu levantar o bloqueio ao Telegram, procurando reflectir na lei o que se vive na realidade. A justificação dada em 2018 era a de que a aplicação poderia servir para preparar ataques terroristas, mas uma mensagem de Durov no seu canal russo terá dado o sinal de que o regulador precisava para mudar o enquadramento. Nessa mensagem, o responsável do Telegram falou sucintamente do que a sua empresa tem feito e da experiência de seis anos noutros países. A nota do regulador lê-se especificamente como resposta, como que dando um voto de confiança a Durov pela sua promessa na luta ao terrorismo e outras formas de extremismo. Começa assim:

Consideramos positiva a prontidão expressa pelo fundador do Telegram para combater o terrorismo e o extremismo.”

Na tal mensagem de Durov, onde é anunciada a vitória sobre o regulador russo, o fundador e porta-voz da aplicação lembra que a resistência digital não termina. Em vez disso, pede a quem colaborou para desbloquear o Telegram na Rússia para concentre os seus esforços nos países onde a aplicação ainda continua bloqueada, como a China ou Irão, alertando de resto para a possibilidade de outros países seguirem o exemplo destes e bloquearem aplicações focadas em privacidade como diz ser o caso do Telegram.

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