Trump quer ser o protagonista dos protestos e roubar atenção à causa

Num plot-twist de acção governativa, o Presidente norte-americano tem aproveitado um protesto que também é contra si, para alimentar a retórica divisionista e preconceituosa que lhe valeu a primeira eleição.

Foto de The White House via Flickr, domínio público
 
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Um polícia armado e acompanhado ajoelhou-se durante cerca de 8 minutos sobre um cidadão norte-americano de descendência africana. Apesar dos apelos visivelmente desesperados do homem que contra o chão se queixava de não conseguir respirar e chamava pela sua mãe, a acção do polícia foi até ao fim; um final trágico que culminou na morte daquele homem de 46 anos. O caso, que ficou registado em vídeo, tornou-se rapidamente viral como expressão de uma revolta contra um sistema que oprime de forma sistémica os cidadãos afro-americanos. A condescendência do gesto de violência continuado apesar dos apelos pacíficos e desesperados de Floyd desencadearam, mesmo nos mais indiferentes, uma revolta que não se tem calado, um pouco por todo o mundo. Repete-se o slogan Black Lives Matter, condena-se o racismo e a brutalidade policial.

A onda de protestos com esta natureza e com uma disseminação mundial tão rápida num contexto ainda tão marcado pela pandemia de coronavírus apanhou-nos a quase todos de surpresa, até porque em alguns países ainda são ilegais os ajuntamentos de pessoas, mas deixa bem clara a interligação entre comunidades unidas em muitos casos pela cultura cada vez mais globalizada – e muito americanizada – que se consome na Europa. Alemanha, França, Itália, Países Baixos, Grécia ou Reino Unido foram alguns dos países onde manifestantes saíram à rua para expressar a sua solidariedade e quota-parte revolta, em protestos que, em alguns casos, também levaram a confrontos com a polícia – nomeadamente em França. Noutros países, como em Portugal ou no gigante continente que é a internet, o grande momento até agora foi o #blackouttuesday. O movimento de publicar nas redes sociais imagens pretas começou na indústria musical, disseminou-se como expressão de desagrado mas ainda foi merecedor de algumas críticas. Por um lado criticou-se o aproveitamento que as marcas da indústria, promotoras da campanha, fazem desta situação para branquear outras posições – Lilly Allen, por exemplo, referiu o apoio da Warner a Trump – por outro, a superficialidade da mensagem, como aqui explica a artista brasileira Elza Soares. 

Embora os protestos mais agudos, digamos assim, decorram nos EUA, as reações a cada momento violento ou a cada tweet de Donald Trump fazem sentir-se por todo o mundo para onde nos últimos anos os EUA exportaram a cultura e a tecnologia que foram moldando as nossas vidas contemporâneas. Por uma proximidade cultural tão grande, e pelo papel que os Estados Unidos da América desempenharam globalmente nos últimos anos, pelo mundo sente-se uma certa propriedade em protestar contra a sua administração. Contudo, é dentro de portas que o caso evolui de uma forma mais significativa e, se quisermos, mais interessante historicamente. O sucessivo jogo de ação e reação mostra a verdadeira face de uma administração norte-americana em ano de eleições e isso não deve ser esquecido. 

Desde o início dos protestos que uma das suas componentes mais sintomáticas têm sido as reações do presidente Donald Trump que variam entre minimizar a causa dos protestos, chamando até thugs (bandidos) a quem protesta, e ameaçar com a National Guard e presença militar nas ruas. Trump usa ainda os confrontos para virar a narrativa que condena a sua inércia face ao coronavírus, para agora denunciar ele mesmo a suposta inércia dos governadores de vários estados face aos protestos. E usa-os também para reiterar uma retórica agressiva, que ressoa nas facções mais radicais dos seus apoiantes — basta irmos às interações dos seus tweets e constatar a quantidade de perfis que interagem com o POTUS secundando esta retórica belicista, mencionando a corrida às armas ou referindo vagamente que têm de se preparar para quando for preciso. Donald Trump, com propósito ou sem ele, surfa a onda dos protestos num pastiche premonitório quase perfeito das teorias da conspiração que circulam online. 

Veja-se um dos momentos mais marcantes, na cidade de Washington, quando, há uns dias, Trump decidiu deslocar-se até à St. John’s Church, a poucos metros da Casa Branca e onde se concentravam centenas de manifestações. A sua visita não estava prevista e a dispersão dos manifestantes teve de ser feita recorrendo à força e elevando a escala da violência naquela célula dos protestos, contudo o Presidente levou a sua avante para, pura e simplesmente, pousar de Bíblia na mão e repetir o seu novo slogan, dizendo que quer ser o presidente da Lei e da Ordem. Trump levanta a bíblia para acenar às facções religiosas do seu eleitorado e fazer corresponder essa imagem à famosa teoria QAnon, que conjectura sobre o actual Presidente dos Estados Unidos da América como o Messias que salvará a nação da invasão de cidadãos imorais, e repete o slogan de governação de Reagan num invocar dos ideais republicanos, numa atitude que muitos vêem como um claro aproveitamento político. Os bispos da diocese de Washington, ouvidos pela imprensa, fizeram parte deste coro de críticas, dizendo que Trump nem rezou enquanto esteve na Igreja, limitando-se a aproximar-se do púlpito, a posar para a fotografia, e a fazer um compasso de espera em diálogo com quem o acompanhava, saíndo de seguida.

Neste caso da igreja, Trump parece não só ter-se aproveitado da confusão como de a ter incentivado, numa visita inoportuna a um local que segundo os mesmos bispos, o presidente poucas vezes visita. Paralelamente, foi insistindo no seu Twitter, numa falsa equivalência entre os protestos e os desacatos, e ameaçando este movimento com o fantasma militar. De resto, esse foi o capítulo seguinte de uma história onde Trump parece querer ser o personagem principal, apesar da discórdia dos que o rodeiam.

Depois de uma série de tweets em que se dirigiu a governadores locais e avisou que poderia mandar militares para contrariar os populares nas ruas, oficiais do Pentágono ouvidos pela imprensa procuraram distanciar-se das declarações de Donald J. Trump por não concordarem com essa forma de lidar com os protestos. Nas ruas têm-se assistido tanto a cenas de vandalismo como de violência policial, e o recurso ao exército facilmente levaria a um agravamento ainda maior do conflito. Todo este ambiente vive-se na antecâmara das eleições presidenciais e vão servindo para Trump atacar o seu opositor Joe Biden. O maniqueísmo com que trata os protestos indicia que Trump não teme a divisão do povo no seu país – nem a condena como o faz em casos de política externa – pela imprensa norte-americana começam agora a circular rumores sobre o potencial de Trump invocar a Lei Marcial e suspender a democracia dos Estados Unidos da América. 

Se é certo que os protestos nasceram em nome de George Floyd e como forma de vingar a sua morte às mãos de um polícia, perante uma figura mediaticamente ágil como Donald Trump, qualquer ponta solta servirá para adensar a sua retórica de messias ou salvador da pátria. Pintar os seus inimigos como terroristas é só o primeiro passo da sua estratégia para voltar a assumir o papel de herói. Foi precisamente sobre divisionismos e preconceitos que Trump montou a sua primeira vitória, pelo que não será de estranhar que agora procure catalisar estes protestos, incentivando a divisão no seio do povo norte-americano para que possa tentar a segunda.

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