Zoom deixa porta aberta à vigilância e não vai encriptar as videochamadas gratuitas

Para permitir que utilizadores que usem o Zoom para "um mau propósito" possam ser investigados pelas autoridades, a empresa não vai implementar encriptação de ponta a ponta no plano gratuito.

Foto de Gabriel Benois via Unsplash
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Durante a pandemia, o Zoom, uma aplicação outrora relativamente desconhecida, atingiu um pico de popularidade tal que obrigaram a empresa a focar-se na correcção dos muitos problemas que apresentava e que tinham acabado de ficar expostos. Com um plano gratuito que permite fazer videochamadas até 40 minutos com um máximo de 100 pessoas, o Zoom passou a servir primordialmente para professores darem aulas à distância e empresas fazerem reuniões com as suas equipas e clientes remotamente, o que levou a um escrutínio mais apertar e consequente deteção dos problemas.

Apesar de gratuito, a empresa que desenvolve o Zoom – a Zoom Video Communications Inc. – viu as vendas dispararem desde Fevereiro deste ano, acompanhando a evolução da pandemia. A expectativa da empresa é que esta tendência de subida continue, prevendo que as receitas e lucros excedam as expectativas iniciais dos investidores. Segundo a Bloomberg, a Zoom Video Communications Inc. espera triplicar o volume de negócios do ano passado para 1,8 mil milhões de dólares.

Na apresentação dos resultados trimestrais, Eric Yuan, director executivo da Zoom Video Communications Inc., revelou que a aplicação chegou a atrair 300 milhões de participantes para reuniões em alguns dias, quando em Dezembro do ano passado registava cerca de 10 milhões de utilizadores diários. Mas para Eric há uma diferença entre as pessoas que pagam o Zoom e aquelas que não pagam, e anunciou que os participantes que façam reuniões com o plano gratuito do Zoom não vão ter as suas conversas com encriptação de ponta à ponta como todos os restantes. A explicação: pode haver agentes mal intencionados a usar o Zoom e a empresa quer garantir que resolve eventuais problemas em colaboração com as autoridades.

“Os utilizadores gratuitos não vão ter isso [encriptação de ponta-a-ponta nas videochamadas] porque queremos também trabalhar em conjunto com o FBI e as autoridades locais, no caso de algumas pessoas usarem os Zoom para um mau propósito”, explicou Eric Yuan aos investidores. Nenhuma reunião no Zoom é neste momento encriptada de ponta a ponta, estando a empresa a trabalhar ainda nesse nível de segurança; uma encriptação de ponta a ponta garante basicamente que as conversas estão encriptadas enquanto viajam entre um dispositivo e outro, não podendo ser interceptadas e lidas ou ouvidas por terceiros que não estejam a participar na reunião, nem mesmo pelo Zoom.

Empresas como a Apple têm rejeitado dar acessos especiais às autoridades policiais a determinados serviços; já aplicações como o WhatsApp oferecem encriptação de ponta a ponta em videochamadas até 8 pessoas. Nos últimos meses, têm surgido alternativas ao Zoom como o Microsoft Teams ou o Google Meet, que apesar de oferecerem alguns níveis de segurança e encriptação também não encriptam as conversas nos dispositivos dos utilizadores. Por outras palavras, estas aplicações são seguras mas as comunicações por elas intermediadas não são 100% privadas. O Jitsi, uma alternativa de código aberto e gratuita, oferece encriptação de ponta a ponta em modo experimental.

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