Foi a cidade que atropelou a Ana?

Ana Oliveira, uma rapariga de 16 anos, basquetebolista do Sporting, atravessava de bicicleta e com sinal verde uma avenida de 4 vias de trânsito, tendo sido apanhada por um automóvel que desrespeitou o sinal vermelho.

Foto cortesia de David Maranha
 
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Tinha 16 anos. Chamava-se Ana Oliveira e era basquetebolista do Sporting. Não sobreviveu ao embate de um automóvel que não terá respeitado o sinal vermelho enquanto ela, de bicicleta, atravessava com sinal verde. A colisão aconteceu na sexta-feira ao final do dia no Campo Grande com a jovem rapariga a ser levada para o Hospital de Santa Maria, onde ficou internada nos cuidados intensivos pediátricos até falecer, no domingo.

“O Sporting Clube de Portugal manifesta o seu pesar pela morte de Ana Oliveira”, lê-se numa nota divulgada pelo clube. “Ana Oliveira tinha apenas 16 anos, jogava na equipa sub-19 do Sporting CP e estava no Clube há seis anos.” A notícia da morte de Ana circulou na comunicação social apenas através do comunicado do Sporting; já o Correio da Manhã falou na colisão de sexta-feira referindo-se apenas a “uma rapariga de 16 anos” e uma “colisão entre a bicicleta que conduzia e um carro”. Poucos juntaram as peças, procuraram mais informação, trouxeram este assunto para o espaço público incentivando a uma reflexão alargada sobre os riscos das dinâmica de mobilidade na cidade.

Não é necessário, nem legítimo, mediatizar um sinistro rodoviário com directos do local e notícias sensacionalistas, como é comum que o vejamos acontecer. Este caso teve menos visibilidade que os sinistros rodoviários que costumam ser retratados nos media, mas remete-nos para uma reflexão ainda mais urgente: a relação das pessoas na cidades e com a cidade. Uma reflexão que pode começar, nomeadamente, pela forma como são seleccionados e transmitidas estas informações. Neste particular é urgente mudar o tom do discurso e colocar os jornalistas a procurar as palavras certas – não é um “acidente”, é uma “colisão” ou um “sinistro”.

Contudo não é aqui que se esgota a possibilidade de reflexão. Reconfigurar as cidades, humanizá-las, eliminar estas “auto-estradas” urbanas, acalmar o tráfego automóvel, criar mais áreas pedonais, mais ciclovias retirando vias ao carro,são algumas das pistas sobre as quais se devia debater. Porque é que o Campo Grande, onde aconteceu a colisão fatal, continua a ser, mesmo depois da grande intervenção de 2017, atravessado por estradas com três ou quatro vias e ainda túneis larguíssimos que convidam a velocidades acima dos 50 km/h?

Numa altura em que se criam mais ciclovias em Lisboa, deveria ser fácil encontrar nos jornais uma referência a esta colisão, abrir um debate sobre a segurança de todos no espaço público, questionar-se o desenho urbano existente com argumentos sensatos, um debate civilizado, com um objectivo para um entendimento comum: o de preservar e melhorar vidas.

Porque é que ninguém questiona, faz perguntas? Porque é que esta tragédia não foi falada em lado nenhum… mas, por exemplo, falou-se incansavelmente do momento em que Marcelo pisou, distraído, uma ciclovia? Porque é a bicicleta e a infra-estrutura ciclável continuam a ser vistas como elementos de lazer e recreio?

O acontecimento com a Ana é especialmente revoltante porque ela terá cumprido todas as regras: terá esperado pelo verde no atravessamento de bicicletas e seguido em frente até ser apanhada por uma automóvel conduzido por alguém que não abrandou e não parou no semáforo. Quando um automobilista passa vermelhos, ou circula em excesso de velocidade, pode realmente matar um inocente. Quando uma pessoa de bicicleta se refugia no passeio, se calhar é porque tem medo da estrada. É urgente olhar com responsabilidade e assertividade para a cidade que temos e para a cidade que queremos.

Tal como a avenida de três ou quatros vias do Campo Grande incentiva ao excesso de velocidade para os padrões que são ou deveriam ser os de um contexto urbano, também o desenho de uma cidade com o automóvel em foco complica o uso de outras formas de transporte. É urgente equilibrar o espaço público, discuti-lo, propor mudanças, aceitar essas alterações. É fundamental questionar os excessos de velocidade, o desrespeito pelos vermelhos, as paragens em segunda fila, o estacionamento junto a passadeiras, em curvas ou em cima do passeio… todos os comportamentos que continuam a existir em Lisboa (e noutras cidades) e que colocam em causa, diariamente, a segurança rodoviária.

É fundamental pensar acima de tudo as dinâmicas e estruturas urbanas, a própria cidade. Nesta discussão há que envolver as pessoas: moradores, visitantes, quem trabalha na cidade, quem a atravessa, quem a vive. É preciso pensar, comunicar e explicar as mudanças: porque é que a eliminação de uma via de trânsito a favor de uma ciclovia pode ser benéfica para o comércio local? Ou como é que a redução da largura de uma rua com a limitação da velocidade a 30 km/h pode ajudar a vivência de um bairro?

Este debate, esta discussão, pode e deve começar nos media – deve e pode ser feito pelos jornalistas enquanto mediadores privilegiados do espaço público, do forum. Se calhar, ao contrário do que se continua a escrever em alguns jornais de teor populista, “menos faixas” não “geram o caos” – também a mobilidade se deve reger pelo pensamento informado. A cidade que vamos ter no futuro vai depender certamente do debate público, com mais argumentos sólidos e construtivos, e menos preconceitos e frases feitas.

A fechar, os meus sentimentos à família e aos amigos da Ana – este estará a ser, sem dúvida, um momento muito difícil para todos vocês; não consigo sequer imaginar aquilo pelo que estarão a passar. Esta quinta-feira, às 19 horas, junto ao atravessamento para bicicletas onde Ana foi vítima de uma colisão de um carro, vai ser assinalada uma vigília.

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