Bulgária vive a maior crise política desde 2013: “O povo quer que todo o Governo renuncie”

Os búlgaros saem à rua há mais de dez dias para exigir a queda do Governo. Acusam o atual Primeiro-Ministro de favorecer os oligarcas e querem acabar com a corrupção instalada.

DR / Sketches of Sofia
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Há vários dias consecutivos que as ruas búlgaras são o palco dos novos protestos. Sófia, a capital, afirma-se como a cidade com maior mobilização, mas os manifestantes dividem-se de norte a sul, por mais de dez localidades: contabilizam-se “cerca de 10 mil a 20 mil manifestantes em Sófia todos os dias”. Reclamam principalmente a demissão do Governo, encabeçado por Boiko Borisov, e do Procurador-Geral Ivan Geshev. Ainda nos primeiros dias de protesto, o Presidente Rumen Radev admitiu estar do lado dos manifestantes e já apelou à renúncia do atual Executivo, que recusa a demissão.

“Búlgaros de diferentes idades e filiações políticas exigem a restauração do Estado de Direito e das liberdades civis básicas que têm sido violadas nos últimos anos. A raiva é profunda, tem crescido ao longo dos anos e não pode ser reprimida pelo medo e pela força”, referiu o Presidente búlgaro. Num vídeo publicado no Facebook, o atual Primeiro-Ministro admite que não vai ceder ao pedido do Presidente: “Nós permaneceremos no poder porque a oposição quebrará o país”.

Ao Shifter, Nikolay Marchenko, jornalista do órgão de comunicação búlgaro Bivol, admite que “existem vários fatores” que motivam a revolta popular. As manifestações têm-se concentrado em frente à sede do Governo, onde se costumam ouvir as palavras “Máfia” e “Renúncia”, segundo a imprensa local. O Presidente acusa ainda o atual Chefe de Governo de conivência com os oligarcas búlgaros.

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Segundo o Aljazeera, o gatilho para o início das manifestações anti-governamentais deu-se quando o político Hristo Ivanov, ex-Ministro da Justiça e líder do partido Sim, Bulgária, foi intercetado por oficiais do Serviço Nacional de Proteção (NSO) numa praia do Mar Morto, onde esta estaria simplesmente a vigiar a casa de Ahmed Dogan, ex-líder do partido Movimento por Direitos e Liberdades (DPS). O mesmo jornal afirma que “Ivanov acusou o Governo de Borisov de permitir que Dogan, considerado um dos homens mais poderosos da Bulgária, invadisse a propriedade pública e usasse o dinheiro dos contribuintes para fornecer segurança, embora ele não ocupe nenhum cargo formal no Governo”.

Ahmed Dogan não é uma figura acarinhada pelo povo búlgaro. Depois de ter fundado um novo partido para dar representatividade à minoria turca, o oligarca proferiu, em 2009, uma das declarações mais controversas da época: “O poder está nas minhas mãos. Eu sou o instrumento do poder que distribui as parcelas do financiamento no Estado”, disse, citado pelo Aljazeera. Nikolay explica que Dogan “construiu um palácio no território da fábrica de petróleo de Lukoil e colocou os seus guardas de segurança privados e estatais a controlar o território, incluindo a praia”

Este episódio motivou o início das manifestações, que estão a ganhar terreno e novos apoiantes. Face à pressão, “o Primeiro-Ministro pediu aos ministros das Finanças, Vladislav Goranov, da Economia, Emil Karanikolpv, e do Interior, Mladen Marinov, que se demitissem. Goranov e Karanikolov estão ligados a Delyan Peevski”, um dos magnatas dos meios de comunicação búlgaros.

Sobre a total demissão do Governo, Marchenko mostra-se céptico. Esta semana, segundo o jornalista, “o líder do partido nacionalista pró-russo, o vice-Primeiro-Ministro e Ministro da Defesa disseram que o Governo está a discutir a renúncia do Primeiro-Ministro e o nome de outra pessoa para chefiar o gabinete”. Sobre o novo nomeado, “existem rumores de que o vice-Primeiro Ministro dos Fundos da UE, Tomislav Donchev, do partido GERB, de Borissov, tomará o seu lugar”. Ainda assim, Marchenko afirma que “o povo quer que todo o Governo renuncie”.

As manifestações não resultam de um incidente político isolado, mas de um culminar de ações do Governo que têm gerado desconfiança na oposição e nos cidadãos búlgaros. A pandemia de coronavírus acentuou ainda mais o descontentamento social quando um novo pico de casos atingiu o país. Depois de meses de confinamento, as autoridades de saúde autorizaram a reabertura de espaços comerciais e empresas, mas os números diários não diminuem.

Além das manifestações na sede do Governo, “as pessoas também estão a protestar em frente à Televisão Nacional da Bulgária”. Numa entrevista publicada em maio, no Shifter, Nikolay Marchenko falava dos oligarcas da comunicação, afirmando que “não há censura oficial na Bulgária, mas o controlo sobre as grandes redações está presente”.

Os partidos da oposição apoiam a mobilização do povo e a retirada prematura do Governo no poder. “Borissov já não tem uma conexão com a realidade. Está na hora de ele descansar. São necessárias eleições antecipadas. Estamos prontos. Os cidadãos estão prontos”, disse Hristo Ivanov, citado pelo Balkan Insight.

Uma das alternativas, na opinião de Nikolay Marchenko, é a de “que a Coligação Democrática da Bulgária (Partido DSB, Sim, Bulgária e O Movimento Verde/Verdes) tenha a possibilidade de liderar o novo Governo. Um dos advogados da oposição, Nikolay Hadjigenov, disse que a ideia é convocar a Grande Assembleia Nacional. Apenas esta assembleia poderia mudar totalmente a Constituição que hoje oferece a todos os Primeiros-Ministros a ‘captura’ do Estado”.

Os EUA já manifestaram o seu apoio à comunidade búlgara através de uma publicação no Facebook por parte da Embaixada do país. “O direito à reunião pacífica é um valor democrático fundamental. Demonstrações e protestos são sinal de uma sociedade civil colorida e vibrante. Protestos pacíficos desempenharam um papel fundamental na democracia de 244 anos dos Estados Unidos. Toda a nação merece um poder judicial que seja superpartidário e sujeito ao primado do direito. Apoiamos o povo búlgaro na sua missão de reforçar a confiança no sistema democrático e promover o Estado de Direito na Bulgária. Ninguém está acima da lei”, escreveu a Embaixada no post.

A posição do Presidente contra o atual Governo também está a levantar desconfiança e tem sido entendida como um aproveitamento político. Com a realização de possíveis eleições antecipadas, especula-se que o Presidente, apoiado pelo partido socialista, possa estar a usar o seu cargo para influenciar o voto popular no próximo sufrágio. Na semana passada, o gabinete do Presidente foi também alvo de buscas por parte da polícia, incentivadas por duas investigações em curso.

Membro da União Europeia desde 2007, o país já viu serem suspensos vários financiamentos por violação de regras comunitárias, nomeadamente por crimes de corrupção. É esperado que os protestos continuem nos próximos dias. 

Fotografias de Sketches of Sofia

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