👁👄👁: uma misteriosa app que se transformou num significativo movimento

“It is what it is” começou com uma piada interna sobre o conhecido meme entre um grupo de amigos no Twitter mas rapidamente se transformou num mistério pela rede social. No final, numa “jogada estratégica”, o mistério transformou-se num movimento de angariação de fundos por causas anti-racistas.

 
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Se já ouviste esta expressão é porque provavelmente acompanhas os ‘memes’ que circulam pela internet. “It is what it is” (traduzido: “É o que é”) é o fragmento de um vídeo lançado no ano passado onde um grupo de jovens ecoa a frase várias vezes, para expressar choque, surpresa, nojo ou raiva e que se tornou popular depois da chegada ao TikTok. Mas a história da expressão não ficou por aqui.

“It is what it is” começou com uma piada interna sobre o conhecido meme entre um grupo de amigos no Twitter mas rapidamente se transformou num mistério pela rede social. No final, numa “jogada estratégica” o mistério transformou-se num movimento de angariação de fundos por causas anti-racistas.

Este plano discreto era frequentemente referido através do código de emojis ‘olho-boca-olho (👁👄👁)’ que começou a aparecer nas contas de vários utilizadores do Twitter, despoletando a curiosidade de quem via a sua disseminação sem compreender o motivo. Mais tarde, surgiu uma conta de Twitter com o nome de utilizador @itiseyemoutheye e ao mesmo tempo o produto – misterioso – chegava à página inicial do reputado fórum Product Hunt, contendo apenas um link para uma página onde quem quisesse podia deixar o seu email – 👁👄👁.fm.

Pelo facto de não se tratar de um produto real, ou pelo menos à vista de todos, a aparição da tendência no Product Hunt gerou discussão nas redes sociais e chamou à atenção dos media, o que levou a que, pouco mais tarde, o grupo criador do viral viesse assumir a sua criação num comunicado intitulado what it really is, em tradução livre, o que isto realmente é?.

Nesse comunicado, o grupo explica que tudo começou como uma tendência num grupo de chat, que se foi alimentando à medida que ia recebendo atenção. Primeiro, começou um pequeno grupo por colocar o código de emojis no seu Twitter e, à medida que outros iam seguindo a tendência e alterando os seus nomes, iam-se juntando a uma grande conversa de grupo na própria plataforma – incompreensível para a maioria dos utilizadores.

A criação de todo este hype e o facto de se terem espalhado boatos sobre uma hipotética nova plataforma apenas para convidados, ou para quem deixasse o e-mail na citada landing page, criou um enorme suspense e o já habitual fear of missing out, característico nas redes sociais, que o grupo decidiu transformar numa acção positiva. Assim, a landing page onde outrora servira para recolher e-mails transformou-se num mural das suas intenções – apontando para o comunicado e apelando a doações.

Segundo se pode ler no comunicado do grupo, o que começou como uma brincadeira tornou-se num assunto sério. Os criadores da iniciativa – que se apresentam como um grupo diverso, ao contrário do habitual nas tecnológicas – dizem-se fartos do estado de coisas da indústria tecnológica que, apesar das contribuições, continua obcecada em criar aplicações exclusivas e que ignoram as verdadeiras necessidades dos seus utilizadores, especialmente dos que se inserem em grupos sistemicamente marginalizados.

Assim, o grupo transformou o FOMO das redes sociais, numa espécie de vingança contra elas próprias. Depois de conseguir mais de 20 mil e-mails em base de dados e menções em diversas revistas, o grupo apontou todos os seus links para organizações que apoiam a luta antirracista, como a The Okra Project, a Loveland Foundation e a The Innocence Project. Em pouco tempo, angariaram mais de 200 mil dólares e, mais importante do que isso, o movimento revelou a forma como os virais circulam na internet mesmo quando o seu conteúdo é desconhecido ou misterioso – neste caso foi uma por uma boa causa, mas podia perfeitamente tratar-se de um esquema fraudulento como tantos outros. Só após as doações os doadores eram realmente alertados de que o produto não era real e que “it is what it is”. Segundo o grupo, todos os lucros do projecto serão doados a fundações que apoiem a luta antirracista, incluindo os resultantes da venda de merchandising entretanto terminada. 

Regynald Augustin revelou ao Business Insider que o grupo era composto por mais ou menos 60 pessoas do ramo da tecnologia, de diversas etnias e com as mais variadas capacidades – ao ponto de em apenas 36 horas e por mais de 24 horas meteram praticamente toda a comunidade tecnológica de Silicon Valley entusiasmada com esta “aplicação” secreta. Para além da ajuda às comunidades negras, toda esta situação serviu como uma crítica à obsessão por aplicações exclusivas e como a indústria de tecnologia predominantemente branca ignora “necessidades reais enfrentadas por pessoas marginalizadas”, segundo o comunicado.

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