Kanye 2020: a redenção de West ou a encenação de Ye

Se o tweet anunciando a sua candidatura significa objectivamente quase nada – na medida em que provavelmente Kanye West nem vai a tempo de conseguir um lugar na corrida de 2020 –, a verdade é que a sua estratégia o colocou nas bocas do mundo.

CC BY-SA 2.0 rodrigoferrari
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Kanye West é uma daquelas cabeças de onde não sabemos bem o que vai sair a seguir; para além dos belíssimos e, em certa medida, revolucionários álbuns que editou e que lhe valeram um lugar no estrelato, Kanye dispara para todas as frentes acabando por confundir e dissipar as atenções que recaem sobre si. É quase impossível perceber o que Kanye pensa, e o que sente em relação ao que diz, e nesse sentido torna-se especialmente complexo perceber quais das suas afirmações são reais e consubstanciadas e quais são meros devaneios, literalizados pelas redes sociais. Este fim de semana, West, brindou-nos com mais um desses momentos anunciado a candidatura à presidência dos Estados Unidos da América; fê-lo dias depois de lançar “Wash us in the Blood” numa sucessão que acabou por ofuscar completamente o potencial interventivo da música, agora endossada por um candidato muito pouco credível ao lugar na Casa Branca.

A manobra de Kanye de anunciar a sua candidatura à presidência dos EUA que, ao que tudo indica, parece ter sido um dos tais devaneios, rapidamente circulou pelos media de todo o mundo relegando para segundo plano o trabalho por que se segue Kanye em primeira instância – o seu trabalho musical. Se o assunto tem importância relativa, a sua articulação revela-nos os padrões invariáveis com que o mundo olha para os Estados Unidos da América, a partir de um filtro de popularidade, em que o corpo de trabalho de cada um é reduzido à máxima simplificação do seu número de seguidores.

Kanye West 2020 vs Kanye West

A vontade de Kanye West se candidatar ao mais alto cargo institucional norte-americano não é propriamente uma novidade. Contudo, para além das palavras com que o vai anunciado, o rapper pouco mais tem feito que consubstancie e credibilize esta vontade. Se anteriormente West já tinha anunciado a vontade de se candidatar à Presidência em 2024, desde então nada mudou no seu perfil de aparição pública – apesar de se atirar como candidato, o rapper manteve um discurso parco em ideias políticas e uma postura que dificilmente imaginamos à frente de um dos países mais influentes do mundo. Para além de umas passagens com o chapéu encarnado de Trump, umas visitas à Trump Tower e o seu fascínio arrebatador por Deus, pouco mudou. Assim, esta manifestação, levada a sério pela imprensa de quase todo o mundo, revela o distanciamento simbólico entre a figura de presidente norte-americano e a necessidade de uma postura consequente no campo da real politik, numa erosão dos critérios institucionais do cargo que começou com Trump mas que se propaga por todos quantos alimentam esta dinâmica mediática.

Se é certo que as eleições nos Estados Unidos estão à porta e manda uma certa lógica que os media que se propõem a cobrir este evento refiram os que vão surgindo na corrida, a verdade é que esta está corrompida há muito, e a excepção de Kanye só confirma o que se tornou regra. Mais do que procurar abordar os candidatos à Casa Branca de um ponto de vista racional que se debruce sobre as suas ideias, o pelouro de POTUS tornou-se numa espécie de luta por popularidade. Só assim se explica que para fora do centrão maniqueísta que reina os EUA apenas surjam candidatos que são celebridades. Oprah já foi falada, West propôs-se e há quem riposte ao rapper dizendo que Taylor Swift lhe ganharia porque tem tantos seguidores como ele. A mediatização do cargo, e até a forma como Trump o tem desempenhado, como uma espécie de encenação constante, um reality show político desafiando todos os limites da diplomacia, esvaziou o debate e esta corrida entre estrelas mostra-o de modo indelével.

A figura de Presidente dos Estados Unidos parece ter-se tornado num último estágio de profissionais da influência à luz dos que vemos candidatar-se, justificando-se com ideias simplistas, superficiais e sem um corpo de ideias políticas que os torne accountable. Os candidatos assumem pseudo-personagens que vão alimentando constantemente. E se, por um lado, se pode dizer que este tipo de abordagem se dirige ao povo, é ainda mais evidente que nenhuma destas mega-estrelas o representa realmente, nem tão pouco revela ter conhecimento sobre a sua condição.

A vontade de ser Presidente aparenta, de certo modo, uma certa alusão messiânica; o último desejo de homens que se tornaram tão ricos, e portanto poderosos, que perderam noção do real poder, impacto e substância das suas ideias. Quando não são deuses, apresentam-se como profetas. Ye explicou-o no seu anúncio, Trump já o tinha feito de Bíblia na mão, num dos momentos de lançamento do novo capítulo da sua aventura – aquele em que procura a re-eleição.

Se por um lado esta ânsia superficial de corrida à Presidência dos Estados Unidos pinta um retrato de um Kanye West megalómano e sem noção dos seus limites, por outro, transforma-se numa espécie de obstáculo ao verdadeiro contacto com as suas ideias. É que se no tweet em que anunciou a candidatura West pouco ou nada disse, dias antes, em “Wash Us In The Blood”, o artista fez uma das maiores poderosas e irreverentes criações artísticas, criticando severamente o estado de coisas nos Estados Unidos, nomeadamente o racismo sistémico, a violência policial e a estrutura segregacionista e racista na base na sociedade americana, fundada em parte sobre um sistema de escravatura. Kanye, com a companhia de Travis Scott, fá-lo numa linguagem bastante acutilante e quase agressiva, num espírito artístico e poético, aberto à interpretação e longe de uma lógica que o torne presidenciável. Pelo contrário, a música parece revelar o lugar de conforto ou de confronto em que West se encaixa realmente. Para além disso, sendo o primeiro avanço de God’s Country, o seu próximo álbum, pode esconder a realidade sobre o anúncio à presidência: tudo pode não passar de uma manobra de marketing para promover o disco em que está a trabalhar e em que pretende assumir uma postura mais interventiva. Em termos sonoros, o single deixa adivinhar um encontro entre as várias fases do artista.

O vídeo, da autoria de Arthur Jafa, é um importante complemento ao som de West e Scott, apesar de a certo ponto ter atrasado a difusão do mesmo. Jafa ofereceu um completo gráfico às ideias abstractas de West, trazendo para a tela casos reais como os de Ahmaud Arbery e Breonna Taylor. A ligação ao universo político de resto é frequente sem ler literal; West queixa-se de os afro-americanos serem sempre tratados como “thugs”, palavra muito comum no léxico de Trump, por exemplo, e Jafa traz para a cena imagens de pacientes a sofrer de Coronavírus, outro ponto que ecoa crítica a Donald Trump, podendo esta música marcar o distanciamento ao actual presidente.

Em suma, se o tweet anunciando a candidatura significa objectivamente quase nada – na medida em que provavelmente Kanye West nem vai a tempo de conseguir um lugar na corrida – a verdade é que a sua estratégia o colocou nas bocas do mundo. Para além das notícias da sua candidatura, hoje surgem notícias porque as vendas da sua música baixaram, até em Portugal, como se essa informação tivesse algum interesse público. Quanto ao que realmente pode mudar, é difícil prever; a candidatura de West tem para já o apoio expresso de Elon Musk, o homem que, para além de ser conhecido por feitos como a SpaceX, nos habituou a estratégias de marketing como vender lança chamas ou, agora, calções curtos da marca Tesla. Se estamos a assistir a uma encenação alienante ou à tentativa de Kanye West reiterar a sua posição e cessar publicamente o seu apoio a Trump só saberemos no futuro. Até lá, perante tanta especulação, só no resta a música de Kanye descontando o barulho de todas as luzes.

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