Acordo Israel/Emirados: “paz histórica” ou “punhal envenenado”?

Para chegar ao acordo Abrãao, Israel renunciou à anexação parcial da Cisjordânia, mas Netanyahu veio depois avisar que essas cedências são um adiamento, não são permanentes, afirmando que não desistiu da aplicação da soberania israelita.

Fotografia dos protestos contra o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, em Agosto de 2020. Wikimedia Commons
Fotografia dos protestos contra o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, em Agosto de 2020. Wikimedia Commons
 
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Na semana passada, Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU) alcançaram um “acordo de paz histórico”. Assim disse Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, que anunciou o feito numa publicação no Twitter onde, à sua maneira, fala ainda de um “enorme avanço (…) entre dois grandes amigos”.

Uma declaração conjunta assinada por Trump, pelo Primeiro-Ministro israelita Benjamin Netanyahu e pelo príncipe herdeiro de Abu Dhabi, capital dos Emirados, Mohammed bin Zayed, refere que este acordo vai contribuir para o “avanço da paz no Médio Oriente” e para a “normalização das relações” entre os dois países visados.

Para chegar ao acordo Abrãao – que ganhou o nome de um dos patriarcas judeus do Antigo Testamento –, Israel renunciou à anexação parcial da Cisjordânia, onde tem instalado colonatos à revelia dos acordos internacionais, e que estava prevista no plano de paz apresentado pela Casa Branca no início do ano. A “normalização das relações” passa pela reabertura de relações comerciais e diplomáticas entre os dois países e por permitir aos muçulmanos visitar a Mesquita Al Aqsa em Jerusalém, bem como a realização de voos directos entre Abu Dhabi e Israel. Na declaração que fez após o acordo, Benjamin Netanyahu fez uma ressalva, importante para se perceber o tipo de negociações de que aqui falamos: as cedências na Cisjordânia são um adiamento, não são permanentes.

“A aplicação da soberania (israelita) na Judeia e Samaria (nome bíblico da Cisjordânia) está em cima da mesa (…) não está anulada”, declarou num discurso transmitido na televisão, adiantando, no entanto, não ter “desistido” dessa opção criticada pelos palestinianos e por parte da comunidade internacional. Já o príncipe herdeiro dos EAU escreveu no Twitter que “o acordo foi alcançado para encerrar qualquer anexação adicional de territórios palestinianos”.

Os Emirados Árabes Unidos tornam-se assim o primeiro Estado Árabe do Golfo a estabelecer relações diplomáticas com Israel e a terceira nação árabe a fazê-lo, depois do Egito, em 1979, e da Jordânia, em 1994. No dia do acordo, os EUA de Trump avançaram que outros países do Golfo Pérsico poderiam firmar acordos semelhantes, citando Omã e o Bahrein. Já no rescaldo do acordo entre Israel e os EAU, o Presidente do Líbano, numa declaração histórica, disse não descartar um acordo de paz com Netanyahu. Numa entrevista à televisão francesa BMF, Michel Aoun disse que esse restabelecimento das relações diplomáticas estaria “dependente de alguns fatores”, mas não negou a sua possibilidade.

Acordo Israel/EAU: e a solução dos dois Estados?

A Organização para a Libertação da Palestina refere-se ao acordo como um “punhal envenenado” para o coração palestino. O secretário-geral da Organização, Saeb Erekat, afirmou que a Palestina tentará impedir que outros países árabes façam o mesmo tipo de negociação com Israel. Aos jornalistas, Erekat falou em “mal-estar” com os Emirados Árabes Unidos, potenciado principalmente pelo que considera a “falta de honestidade” dos líderes do país. “Podiam ter dito que os seus interesses exigem que eles tenham relações com Israel por causa de inimizade com o Irão ou poderiam ter admitido que era para agradar aos Estados Unidos, mas dizer que o estão a fazer no interesse dos palestinianos é absolutamente inaceitável”, sublinhou, citado pela agência EFE, acrescentando que não entende o que é que Abu Dhabi vai ganhar com a decisão.

“Realmente quero saber quais são os interesses a longo prazo dessa medida. Alguns dizem que necessitam de especialistas de Israel, mas, com o dinheiro que têm, podem ter especialistas de qualquer país do mundo, melhor do que os israelitas. Será que acreditam que Israel os ajudará se o Irão os atacar? Estão loucos? Por isso, pedimos que recuem e digam a Israel que estão dispostos a ter relações diplomáticas apenas quando a ocupação terminar e o problema com os palestinianos for resolvido”, acrescentou.

Numa entrevista mais recente, Erekat, que também é o protagonista palestiniano das negociações com Israel, disse mesmo que o acordo com os EAU é “a morte” da Solução dos Dois Estados. “Por que é que Netanyahu falaria agora de uma solução de dois estados se ele pensa que os países árabes farão as pazes com Israel aceitando o ‘status quo’ em que nós, palestinianos, estamos sob ocupação? Por que estaria interessado em conversar comigo?”, questionou. Deixou ainda críticas à Casa Branca, especificamente ao conselheiro e genro de Donald Trump, Jared Kushner, considerando-o “uma combinação de arrogância e ignorância” como arquitecto do pacto que não é mais do que “uma tentativa desesperada” de Trump para obter algum tipo de sucesso no campo da política externa.

Os líderes palestinianos convocaram entretanto reuniões de emergência da Liga Árabe e da Organização de Cooperação Islâmica para rejeitar o acordo Israel-EAU, mas não receberam resposta de nenhum dos órgãos, disse ainda Erekat.

A fraturada liderança palestina – da Autoridade Palestina liderada por Mahmoud Abbas na Cisjordânia, ao Hamas na Faixa de Gaza – está unida na oposição ao pacto. Para o movimento islâmico no poder na Faixa de Gaza, a normalização das relações entre Israel e os EAU “não serve a causa palestiniana” e constitui um “cheque em branco” para a continuação da “ocupação” pelo Estado hebreu.

Entretanto, esta manhã, e depois de cinco noites consecutivas de conflitos armados, Israel lançou uma série de ataques e decidiu encerrar a zona marítima de Gaza. Apesar de terem declarado tréguas no ano passado, Israel e o Hamas enfrentam-se esporadicamente. A organização islâmica acusa Israel de não cumprir a sua parte do acordo, enquanto Israel acusa o Hamas de fomentar o terrorismo.

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Outras reacções

Noutras reacções, para o Irão, o acordo é “uma vergonha” e uma “ação do diabo” que foi subscrita pelos Estados Unidos. A Guarda Revolucionária Iraniana alertou Abu Dhabi para as “consequências perigosas” da decisão, e o Presidente, Hassan Rohani alertou ainda o Estado do Golfo contra permitir que Israel tenha um “ponto de apoio na região”.

A Arábia Saudita, peso-pesado regional, tem estado em silêncio sobre o acordo, sem nenhuma reação oficial a vir de Riad.

Este domingo, milhares de manifestantes voltaram às ruas de Jerusalém, pelo oitavo sábado consecutivo, para pedir a demissão do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, julgado por alegada corrupção e criticado pela gestão da pandemia de Covid-19 no país.

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