Inconformados, atletas de alta competição começam a sindicalizar-se

A Athletics Association é a primeira organização do género liderada e gerida por atletas a nível internacional, com o propósito de se sentar à mesa com os órgãos internacionais de gestão do desporto para que os atletas passem a ter uma palavra a dizer.

Foto de Braden Collum via Unsplash
 
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Descontentes com decisões tomadas de modo unilateral por parte de organizações superiores, e com o seu direito a contestá-las restringido, um conjunto de atletas de alta competição está a organizar-se para formar associações sindicais que permitam que os seus pares passem a ter uma voz, como conta a revista Tribune.

Em Novembro de 2019, conta aquela publicação, a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF na sigla inglesa), o órgão que gere o atletismo a nível mundial — também conhecido como World Athletics — anunciou que iria cortar algumas das provas de uma das competições de atletismo mais importantes, a Diamond League, nomeadamente os 200 metros, os 3000 metros com obstáculos, o lançamento de disco e o triplo salto.

As alterações não agradaram ao campeão olímpico britânico Adam Gemili, que, depois de ter reagido ao anúncio com um GIF na sua conta de Twitter, começou a falar com outros colegas, que partilhavam da mesma surpresa, revolta e frustração. “A World Athletics disse que fez um estudo mas não nos mostrou quaisquer dados”, disse Adam Gemil à Tribune. “Ninguém foi consultado. Não nos perguntaram o que pensávamos disto ou daquilo. Os atletas sempre estiveram na base da hierarquia, e isso precisa mudar.”

De conversas com o medalhista norte-americano Christian Taylor e também com Emma Coburn, outra atleta em representação dos EUA, nasceu a Athletics Association oficialmente em Julho de 2020. Taylor e Emma voluntariaram-se para presidir à associação, que é a primeira do género liderada e gerida por atletas a nível internacional, com o propósito de se sentar à mesa com os órgãos internacionais de gestão do desporto para que os atletas passem a ter uma palavra a dizer.

Captura de ecrã da página da Athletics Association

É comum este tipo de uniões através de associações entre desportistas, por exemplo, no futebol e basquetebol, como aponta a Tribune,ou como se verifica entre jogadores de futebol profissionais em Portugal. No atletismo existem outros movimentos, como a Global Athlete, uma estrutura também liderada por atletas que pretende dar mais voz e poder a quem está no terreno a competir. Para Rob Koehler, que lidera a Global Athlete, a ideia (comum e generalizada) de que os atletas que pisam os Jogos Olímpicos são milionários “não poderia estar mais longe da verdade”.

Captura de ecrã da página da Global Athlete

Tanto na WA como no Comité Olímpico Internacional existem comissões de atletas, que, além de serem escolhidos, acabam por ter pouca voz e são levados a assinar contratos que limitam os seus direitos de se manifestarem, funcionando mais como sindicatos de empresas. “Os atletas precisam de melhor representação. Precisam de apoio legal e institucional porque sem isso enfrentam situações comprometedoras”, aponta Koehler.

Como escreve a Tribune também, apesar de existirem órgãos reguladores nacionais e internacionais a supervisionar muitas das decisões tomadas em relação ao atletismo, os atletas são trabalhadores contratados com acordos com empresas de calçado e vestuário desportivo – ou seja, não são funcionários, por assim dizer, das organizações directamente ligadas às competições. Estes contratos com as marcas são muitas vezes secretos e com cláusulas que protegem mais as empresas que os atletas; no final de contas, em comparação com profissionais do futebol ou basquetebol, acabam por ganhar muito menos e esses valores podem ser ainda mais baixos se o seu desempenho na pista não for o desejado.

Com uma estrutura semelhante à de um sindicato, a Athletics Association está a contar com uma adesão massiva de atletas no início do próximo ano. Os membros terão de pagar taxas “modestas”, e serão incentivados a envolverem-se nas iniciativas da organização, bem como a participar em grupos de trabalho para analisarem e se concentrarem em questões específicas. O conselho é composto por atletas de várias modalidades e de todos os continentes. Para ser verdadeiramente global, a associação faz-se valer dos seus atletas e respectivos idiomas para traduzirem documentos e estudos e chegarem a todo o mundo. Aconteceu com a composição da sua constituição e no estudo sobre a forma como os atletas foram afectados pela pandemia de coronavírus.

Cientes de como são deliberadamente mantidos fora das decisões que impactam as suas vidas, dentro e fora das pistas, os responsáveis pela associação acreditam não haver melhor momento para mudar essa narrativa – no meio de uma pandemia, perante o cancelamento sem precedentes de competições e manifestações globais contra o racismo e a favor do movimento Black Lives Matter.

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