Bielorrússia: Lukashenko re-eleito pela 6ª vez com 80% entre “fraudes vergonhosas” e violentos protestos

A grande rival de Lukashenko, a opositora Svetlana Tikhanovskaia, obteve 9,9% dos votos, de acordo com os primeiros resultados oficiais da Comissão Eleitoral bielorrussa.

 
Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

O Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, venceu as presidenciais com 80,23% dos votos, anunciou esta segunda-feira a agência de notícias estatal Belta, no dia seguinte às eleições marcadas por vários episódios de violência em manifestações que resultaram em pelo menos um morto, dezenas de feridos e pelo menos 100 detenções. A eleição fica altamente marcada por várias acusações de fraude – este será assim o sexto mandato presidencial consecutivo de Lukashenko, de 65 anos.

A grande rival de Lukashenko, a opositora Svetlana Tikhanovskaia, obteve 9,9% dos votos, de acordo com os primeiros resultados oficiais da Comissão Eleitoral bielorrussa.

Números e fraude

A campanha eleitoral para as presidência foi assinalada por uma mobilização sem precedentes em apoio de Svetlana Tikhanovskaia, candidata sem experiência política prévia. Na noite de domingo, Tikhanovskaia considerou ser apoiada pela “maioria” dos cidadãos, ao referir não acreditar nas projeções oficiais que forneciam larga vantagem ao Presidente Alexander Lukashenko.

“Acredito no que vêem os meus olhos e vejo que a maioria está connosco”, disse Svetlana Tikhanovskaia, ao reagir perante os media à difusão das sondagens realizadas à saída das assembleias de voto.

A candidata de 37 anos que, na véspera da votação, pediu “uma eleição honesta”, tinha vindo a denunciar nos últimos dias “fraudes vergonhosas”. Segundo a equipa da opositora, o voto antecipado entre terça-feira e sábado foi ocasião para numerosas fraudes. Os representantes da oposição enfrentaram ainda vários momentos de repressão policial, tendo no sábado sido presa a diretora de campanha de Tikhanovskaia, Maria Moroz.

Mulher de Serguei Tikhanovski, um blogger que se quis candidatar às presidenciais e que está preso desde maio, Svetlana Tikhanoskaia conta com o apoio de outras mulheres, como a mulher de Valeri Tsepkalo, cuja candidatura a estas eleições foi rejeitada e que se exilou, e Maria Kolesnikova, ex-diretora de campanha do candidato Viktor Babariko, também detido.

No próprio dia das eleições, Tikhanoskaia denunciou ainda a ausência de observadores ocidentais – pela primeira vez desde 2001, por não ter recebido um convite oficial a tempo, a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) não esteve presente na votação para acompanhar os resultados – e o bloqueio da Internet, que os críticos de Lukachenko dizem visar evitar uma contagem paralela dos votos e a mobilização dos opositores através das redes sociais.

O resultado obtido pela candidata da oposição unificada é em muito inferior ao previsto por diversos analistas políticos, depois de uma campanha que mobilizou multidões nunca vistas na história recente da Bielorrússia. Lukashenko, 65 anos, que está no poder desde 1994, sempre afirmou que uma mulher não poderia ser Presidente do país e que não via a opositora como rival.

“Eu não considero essa pessoa como o meu principal adversário. Vocês (os ‘media’) é que fizeram dela a minha maior rival. Ela própria reconheceu que não sabe onde está ou o que fazer”, disse ontem aos jornalistas o Presidente.

Lukachenko também criticou os planos da rival de, em caso de vitória, convocar novas presidenciais a que todos possam concorrer, incluindo o Presidente cessante, assim como os de libertar todos os presos políticos, que designou de criminosos, delinquentes económicos e toxicodependentes. Desde a sua chegada ao poder que nenhuma corrente da oposição conseguiu afirmar-se na paisagem política bielorrussa. Muitos dos dirigentes opositores foram detidos, à semelhança do que sucedeu neste escrutínio, e em 2019 nenhum opositor foi eleito para o parlamento.

Os resultados das últimas quatro eleições presidenciais não foram reconhecidos como justos pelos observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que denunciaram fraudes e pressões sobre a oposição.

Manifestações

As presidenciais ficaram marcadas por várias manifestações em diferentes cidades e na capital, Minsk, em protesto contra a vitória anunciada de Lukashenko. Depressa o Ministério do Interior comunicou que “a polícia tem o controlo da situação em relação às ações de massas não autorizadas”, mas imagens de brutalidade policial na dispersão de manifestantes depressa inundaram as redes sociais.

De acordo com a organização não-governamental de defesa de direitos humanos Viasna da Bieolorrússia, um homem morreu e dezenas de pessoas ficaram feridas durante as manifestações em Minsk. Em comunicado, a ONG refere que “um jovem foi vítima de um traumatismo craniano depois de ter sido atingido por um veículo” das forças da ordem durante as manifestações no centro da cidade.

No site da organização pode ainda ler-se que há também dezenas de pessoas feridas em hospitais de Minsk.

Na capital, as forças policiais recorreram a granadas antimotim. De acordo com diversos media, incluindo a rádio RFE/RL, ao recurso de granadas sonoras e balas de borracha para dispersar os manifestantes no centro de Minsk, onde as concentrações terão sido em maior número. Foi ainda divulgado o uso de canhões de água para responder a confrontos entre manifestantes e a polícia e, segundo o The Independent.

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.