Juan Carlos no Estoril?: de volta ao palco de um mistério real

Juan Carlos e o irmão, Alfonso de Borbón, passavam férias com a família na sua vila de charme no Estoril quando um fatídico acontecimento marcou para sempre a história da coroa espanhola. Tudo aconteceu quando Juan Carlos tinha apenas 18 anos e o seu irmão 14.

Image by א (Aleph) / CC BY-SA 2.5
 
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Se sobre a história dos manuais escolares existem dúvidas sobre os eventos descritos, quanto à história que neles ainda não foi totalmente inscrita por força da proximidade com os nossos tempos, o carácter da sua transmissão é ainda mais incerto. Assim, o que aconteceu há cerca de 50 ou 60 anos, é um dado adquirido e uma memória vívida na vida de quem o viu nas notícias mas um absoluto desconhecido para todos os outros. Recentemente fomos confrontados com mais um desses casos.

Depois de o rei emérito de Espanha, Juan Carlos, ter anunciado que se ia exilar e de se ter falado na sua presença em Portugal, rapidamente pelas redes sociais começaram a surgir piadas sobre o seu regresso a um sítio que de certa forma o marcara, sem explicar propriamente o porquê. Não é difícil descobrir, cá está, com uma pequena pesquisa histórica. Tudo aconteceu em 1956, mais propriamente, na quarta-feira da semana santa desse ano, 29 de Março.

Juan Carlos e o irmão, Alfonso de Borbón, passavam férias com a família na sua vila de charme no Estoril quando um fatídico acontecimento marcou para sempre a história da coroa espanhola. Tudo aconteceu quando Juan Carlos tinha apenas 18 anos e o seu irmão 14. Diz a história que vai chegando, sem uma confirmação absoluta (e já vais perceber porquê), que na noite antecedente à quinta-feira santa, no primeiro piso da casa da Vila Geralda, um tiro disparado a proximidade tirou a vida a Alfonso de Borbón. O jovem de 14 anos não resistiu aos ferimentos daquilo que se descreve como uma bala que lhe entrou pelo nariz e acabou por falecer, mas o fantasma sobre a família viria a revelar-se ainda mais duradouro.

“Enquanto Sua Alteza o Infante Alfonso limpava um revólver naquela noite com o seu irmão, foi disparado um tiro que o atingiu na testa e o matou em alguns minutos. O acidente ocorreu às 20h30, depois de o infante ter voltado do serviço religioso na quinta-feira santa, durante o qual recebeu a sagrada comunhão.” – Embaixada de Espanha em Portugal

Juan Carlos e Alfonso estariam sós no momento do disparo ou com testemunhos cuja credibilidade e veracidade nunca foi totalmente corroborada, como empregados à data. A investigação do caso foi abafada, num conluio entre os ditadores português e espanhol, e no seio da dúvida Franco solidificou ainda mais o seu poder.

A morte no seio da família real serviu como uma espécie de slogan de Franco que pôde controlar a forma como era comunicada ao país. O general apontou duras críticas aos representantes monarcas aludindo à ideia de que se não governam uma família muito dificilmente governariam um país e aproveitou-se da depressão que durante anos se abateu sobre as figuras do casal para aumentar o seu poder para o vazio deixado.

“Veja Sua Alteza por si mesmo: dois irmãos hemofílicos, outro surdo-mudo; uma filha cega, um filho morto a tiro [Alfonso]. Para os espanhóis, tantos infortúnios acumulados numa única família não podem deixá-los agradados.” – citação retirada do livro Juan Carlos, Rei de Um Povo, dita por Franco em 1960, dirigindo-se a João de Bourbon, pai de Juan Carlos, depois de considerar a família real “desgraçada”

As suspeitas sobre o envolvimento de Juan Carlos na morte do irmão nunca ficaram totalmente diluídas, e ainda hoje historiadores se debruçam sobre o tema, tentando descortinar com exactidão o que se passou naquela noite. A arma foi atirada ao rio por Juan Carlos, o pai, junto à praia do Tamariz, a pedido de Franco. Os amigos próximos do rei dizem que até há bem pouco tempo ele nunca ultrapassou o sucedido. Na época, dizem as notícias, o pai fê-lo jurar que não tinha feito nada de propósito.

A morte de Alfonsito é um mistério especialmente bem guardado, como tantos outros da corte. Sobre a pistola que o vitimou, uma Long Star, também pouco se sabe. Há quem diga que terá sido Franco a oferecê-la, que a terá recebido na academia militar, certo é que a trouxeram de Madrid consigo no Lusitania Express que os trouxe até ao Estoril. E que foi essa arma a marcar os anos seguintes da história espanhol.

Depois da desgraça, Juan de Bourbon, o pai, foi recomendado a retirar-se, a mãe dos jovens foi internada numa clínica perto de Frankfurt para recuperar da sua depressão: é preciso recordar a história trágica que já marcava a família; María de las Mercedes vivia como culpada por ter uma filha cega de nascença, achando que era uma provocação de Deus. O tio dos jovens, irmão de Juan, Jaime, foi um dos poucos que, segundo a história, se moveu em sentido contrário a todos os outros, pedindo uma investigação aprofundada ao caso… que nunca aconteceu.

Passados 13 anos, Juan Carlos, o filho, depois de jurar fidelidade a Franco e ao Movimento Nacional foi designado Príncipe de Espanha, um título criado pelo próprio Franco. Foi nessa posição que aguardou até à morte do Ditador, 6 anos mais tarde, que lhe valeu a sucessão para principal chefe de estado espanhol, no caso Rei, tendo sido incumbido da transição democrática do país. Um processo que ainda hoje deixa marcas na forma como a sociedade espanhola vê a sua monarquia.

Actualmente, o rei Juan Carlos atravessa uma situação frágil, estando a ser investigado num caso que já se arrasta desde 2014, em que é acusado de envolvimento num negócio com o Governo da Arábia Saudita. O ex-monarca já passou o trono ao filho, Filipe VI, que por sua vez abdicou da herança do pai de modo a afastar-se do hipotético dinheiro sujo.

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