‘No Pressure’: o fim de uma era para Logic e o início de outra

'No Pressure' é o disco que Logic anunciou nas suas redes sociais como o último álbum da sua carreira. A justificação dada para este fim abrupto é o facto de o artista querer focar-se a 100% em ser pai.

 
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No passado mês de fevereiro escrevi um artigo sobre a ascensão e a carreira do rapper norte americano, Logic. Quando escrevi o texto estava convencido de que este ano não iríamos ser presenteados com um álbum novo, mas enganei-me. No passado dia 17 de julho, Logic anunciou nas suas redes sociais que no dia 24 iria lançar o último disco da sua carreira intitulado No Pressure. A justificação dada para este fim prematuro é o facto de o artista querer focar-se a 100% em ser pai.

Antes de começar a tocar o álbum reduzi as minhas expectativas para o mínimo para não acabar desiludido, visto que o último álbum de Logic que realmente gostei foi lançado em 2015. O nome do álbum, bem como a capa, brilhantemente desenhada por Sam Spratt (artista este que desenhou todas as capas do rapper) são acenos ao primeiro trabalho de Logic, Under Pressure

No Pressure abre com uma faixa relaxada de Boom Bap com algumas barras interessante e com a voz robótica que os fãs já conhecem desde 2014, Thalia, que ao longo de cada faixa nos dá a conhecer algumas curiosidades por detrás da criação do álbum. Cada detalhe desvendado deixa-nos mais interessados no processo de criação de Logic e na sua filosofia pessoal, mas é no final da segunda faixa que somos surpreendidos com uma curiosidade algo surpreendente: o álbum foi escrito em apenas uma semana e aperfeiçoado durante o ano seguinte, ou seja, No Pressure foi escrito por volta da altura em que Confessions of a Dangerous Mind foi lançado — projeto que é considerado de forma unânime como o pior de Logic. 

É então que somos largados em “GP4”, que conta com a participação fenomenal de André 3000, ex-Outkast. A música tem um ambiente fantasmagórico e fala um pouco de como Logic subiu até ao topo apesar de ter crescido num ambiente pouco favorável. O único defeito da faixa é o facto de ter apenas um único verso e ter mais de 4 minutos, o que a torna algo cansativa para o ouvido.

Ainda falando de músicas que se tornam cansativas, temos “Open Mic\\Aquarius III” que apesar de ser outro ponto alto do projeto, peca novamente por ser demasiado comprida e não ter um refrão — algures a meio há uma alteração no instrumental que chega algo tarde. O mesmo acontece com “Soul Food II”, que apesar de ter uma sample inicial e uns primeiros versos que me deixaram com calafrios, termina com um instrumental ligeiramente menos interessante. 

Apesar destes pequenos defeitos aqui e ali, Logic ainda consegue impressionar os fãs com faixas como “Dadbod”, “5 Hooks“, “Darkplace” e “A2Z”. No entanto, é em “man i is” que Logic se supera a si próprio e cria um ambiente incrível com uma faixa psicadélica, relaxada e perfeita para ser ouvida a caminho de casa, depois de um dia cansativo. Os instrumentos de sopro usados fluem entre ouvidos e transportam-nos para uma dimensão paralela. A bateria ocupa exatamente o espaço que devia ocupar, não atrofiando o resto do instrumental — tudo está perfeito e é sem dúvida um ponto alto do projeto e da carreira de Logic. 

Entre as faixas que não correspondem às expectativas estão: “Perfect”, que parece uma música feita por um produtor que acabou de fazer o seu primeiro instrumental, “Heard Em Say”, que é uma clara homenagem a Kanye West (inclusive utiliza a mesma bateria utilizada na música “Good Morning”) mas não tem nada que a torne memorável, “Amen” utiliza a mesma progressão da faixa “OUT OF TIME” de Tyler, The Creator mas de novo não acrescenta nada de novo ao projeto, e “Obediently Yours”, uma faixa de 6 minutos que apresenta um discurso ininterrupto de Orson Welles sobre um episódio de racismo nos Estados Unidos da América. A mensagem é sem dúvida importante, mas esta última faixa, sendo a última faixa da carreira de Logic, acaba por ser ligeiramente dececionante e esquecível.

Como disse no artigo de fevereiro, “Depois de 6 mixtapes, 5 álbuns e 1 soundtrack no espaço de apenas 9 anos, Logic ainda é como uma promessa por cumprir.”. De uma maneira muito direta, acho que ainda não foi desta que Logic conseguiu cumprir a essa promessa. No meio deste álbum de praticamente 1 hora há pormenores incríveis, mas para os descobrir é preciso esculpi-los e trabalhar mentalmente algumas das faixas para que se tornem menos cansativas e mais cativantes.

O balanço geral é que No Pressure é um álbum demasiado comprido, com demasiadas faixas e carente de refrões fortes que nos deixem memórias depois da primeira vez que o ouvimos. Mas no final de contas, pode dizer-se com segurança que está sem dúvida no top 3 de Logic e que não desapontou como os outros projetos que o artista lançou entre 2016 e 2019. Ao largar totalmente a pressão de fazer álbuns conceptuais e ao cingir-se ao rap por cima de bons beats, Logic cria um álbum que com certeza ficará a tocar por algum tempo.

Como fã, não fico desanimado com o desenrolar da sua carreira porque acredito que este não será, na verdade, o seu último álbum. Logic é alguém que ama profundamente a cultura do Hip-Hop e tudo o que a rodeia e custa acreditar que a abandone mesmo — uma pessoa com tanto amor por algo não deixa de o fazer assim e provavelmente, mais cedo ou mais tarde, acho que vamos assistir a um regresso à música. Talvez nessa altura, depois de uma pausa e das vivências novas em família, Logic nos apresente a sua masterpiece e finalmente, depois de tantos anos, satisfaça as expectativas de tantos fãs. 

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