Putin anunciou uma vacina… médica ou política?

Em conferência de imprensa, o presidente da Rússia auto-congratulou-se por ter sido o primeiro país do mundo a dar um passo universalmente tão importante e reiterou a sua total confiança na vacina que, apesar do anúncio, entra apenas hoje (12 de Agosto) na 3ª fase de testes — uma das requeridas para aprovação.

João Ribeiro/Shifter
 
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Ontem o dia acordou com notícias de que a Rússia tinha aprovado a primeira vacina contra a Covid-19, e que se preparava para a administrar em breve e dezenas de países já haviam pré-comprado. Foi o próprio Vladimir Putin quem o disse ao mundo, num anúncio caricato, que viajou globalmente arrastado pela ânsia de encontrar solução para o problema que nos afectou a todos, quase sem excepção.

Vladimir Putin referia-se à Sputnik V, vacina nomeada em homenagem ao famoso satélite soviético, desenvolvida pelo Instituto Galameya, sediado em Moscovo. Numa conferência de imprensa, o presidente da Rússia auto-congratulou-se por ter sido o primeiro país do mundo a dar um passo universalmente tão importante e reiterou a sua total confiança na vacina que, apesar do anúncio, entra apenas hoje (12 de Agosto) na 3ª fase de testes — uma das requeridas para aprovação.

Para provar a sua crença na vacina, Putin anunciara que a sua própria filha já teria sido vacinada. Segundo o jornal francês Liberátion deverá ter sido Maria Vorontsova, a filha mais velha, médica endocrinologista, e também ela envolvida no projecto de desenvolvimento da vacina. Sobre a sua vacinação, Putin revelou que tivera febres altas (38,5) que depois foram baixando e que a concentração de anti-corpos é elevada.

Apesar das certezas de Putin, o cepticismo internacional não tardou em fazer-se sentir, nomeadamente através do representante máximo a nível mundial para a área da saúde, a Organização Mundial de Saúde. Pelo porta-voz, Christian Lindmeier, a OMS reiterou a necessidade de uma vacina passar por todos os testes antes de ser aprovada… e anunciada, deixando algumas tiradas duras sobre a possibilidade de a eficiência da vacina não passar de uma ilusão. De resto, dentro da própria Rússia, Svetlana Zavidova, diretora executiva da Associação de Ensaios Clínicos do país — associação de empresas farmacêuticas —, deu conta da sua desconfiança, categorizando mesmo o anunciado como pouco sério “Vender algo que o [instituto] Gamaleya testou em 76 voluntários durante os ensaios da Fase 1 e Fase 2 como um produto acabado não é sério”.

Apesar das desconfianças, lógicas, uma vez que é na fase 3 que o sucesso de uma vacina é testado em larga escala, condição geralmente essencial para que possa ser aprovado pelos reguladores, os políticos russos não se fizeram rogados à celebração. Mikhail Murashko, ministro da Saúde, também expressou a sua confiança na segurança e efectividade da vacina, e a felicidade por estar a contribuir para uma “vitória da humanidade”. Kirill Dmitriye, Director do Fundo de Investimento Directo da Rússia, responsável pelo financiamento da investigação, também cantou vitória numa toada claramente politizada. Primeiro anunciou que havia pelo menos 20 países com acordos preliminares para a compra da vacina, e que a Rússia tinha pré-acordos para produzir 500 milhões de unidades por ano entre o seu território e o de países parceiros, e depois apelou ao espírito da corrida espacial em que EUA e Rússia cooperaram para sugerir o mote desta fase de desenvolvimento. Pelo meio atacou os media de quem disse esperar ataques concertados.

Fase 3

O desenvolvimento de uma vacina é um processo lento e como disse por diversas vezes em horário nobre o virologista Pedro Simas, impossível de acelerar. Essa é a nota que também ecoa nas palavras dos representantes da OMS. Mas então como conseguiu a Rússia ser tão mais rápida que os demais? A resposta é simples mas ambígua.

Denis Logounov, antigo Director Científico do Instituto Galameya explicou numa longa entrevista ao website local Meduza, que o processo de desenvolvimento desta vacina não começou no vazio. Pelo contrário, a equipa responsável trabalhou sobre as suas descobertas em 3 anos de desenvolvimento de medicamentos contra outros coronavírus, bem como contra o Ébola. Na fórmula final a vacina usa duas estirpes de um adenovírus, responsáveis em estado natural por provocarem pequenas gripes nos humanos, geneticamente modificadas para interferir directamente com o tal espigão que faz com que o novo coronavírus infecte células humanas.

Segundo reporta o New York Times, esta abordagem é semelhante à usada pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca, actualmente na fase 3 de testes em Inglaterra, no Brasil e na África do Sul. Aproveitamos então para perceber o que são estes testes e porque são importantes.

É na fase 3 que o teste da vacina passa das dezenas de pessoas para os milhares, ou dezenas de milhares. Este teste em larga escala permite aferir com maior validade estatística os efeitos adversos que a vacinação pode ter, bem como, as diferentes reações que esta pode causar em diferentes pessoas, sendo por isso um processo essencial antes de uma aprovação para vacina em massa. Assim, o anúncio antes desta fase ganha contornos mais do que técnicos… políticos.

Essa foi a mensagem enviada por Alexey Chumakov, investigador em virologia em Moscovo que, ouvido pela revista Science, denunciou o facto de o Ministro da Saúde não procurar inputs da comunidade científica como faz, por exemplo, a Food and Drug Administration — o instituto norte-americano responsável pela aprovação de medicamentos.

Uma vacina política

Numa altura em que o mundo aguarda ansiosamente por uma vacina, é impossível descurar a dimensão política que um anúncio deste género tem — especialmente quando feito pelo próprio Vladimir Putin e não por um elemento técnico de um laboratório ou análogo. Esta encenação não deve ser acaso e vale a pena expressar alguns pontos sobre ela.

O anúncio feito por Putin, ainda que numa fase diferente do processo, não difere assim tanto daqueles que foram feitos por Bolsonaro ou Donald Trump aconselhando medicamentos específicos sem que houvesse base científica para o fazer. Em ambos os casos vemos uma politização clara de áreas técnicas, neste caso com uma amplitude de alcance mundial. Nesse sentido, o discurso de Putin e dos seus pares dá as pistas de que necessitamos para perceber — desde logo ao falar da sua filha, Putin evoca uma empatia sob a família que, sendo honesto, é perfeitamente dispensável ao progresso científico nos dias que correm, ou a alusão a uma vitória da humanidade promovida por um medicamento ainda pouco testado.

Depois da crise de gestão pandémica que a Rússia atravessou, com notícias trágicas de médicos mortos a chegarem ao Ocidente, o líder russo parece querer limpar a sua face. E talvez essa seja a explicação para o timing do anúncio — é que se os russos afirmam que vão aprovar a vacina em breve, não negam a necessidade de proceder aos testes da Fase 3.

Outra leitura possível e necessária faz-se sobre os países mencionados como potenciais compradores e parceiros. Rodrigo Duterte, o controverso líder das Filipinas, ofereceu-se mesmo para se injectar com a vacina fazendo parte do teste. Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Indonésia, México, Brasil e Índia são alguns dos outros nomes em cima da mesa como tendo pré-acordos de compra – sendo que destes, apenas o México não deverá participar na fase 3 de testes. Enquanto que para a sua produção se fala em acordos com a Índia, Coreia do Sul, Brasil, Arábia Saudita, Turquia e Cuba, países com capacidade de investimento e, em alguns dos casos, fundos de investimento análogos ao russo que financia o projecto.

Quando o mundo espera pela vacina, constantemente ligado, anunciar o seu registo tem implicações importantes, gera expectativa e agudiza a ansiedade. Neste caso os trâmites processuais a que estamos habituados não foram respeitados e, por cá, lemos vários títulos e notícias que pouco mais diziam que “Rússia aprova vacina”. Se tecnicamente e a nível médico esta vacina não funcionar, pelo menos a nível político, volta a pôr o gigante russo bem colocado nesta corrida geopolítica em que se tornou o Coronavírus, numa movimentação que parece em muito inspirada nos conselhos de Trump e Bolsonaro sobre a hidroxicloroquina mas desta vez jogando com um trunfo maior: a aguardada vacina.

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