Como um jovem de 22 anos via Telegram se tornou central nos protestos na Bielorrússia

Perante o shutdown de aplicações de comunicações como o Facebook, o WhatsApp, ou o Twitter, foi mais uma vez o Telegram a manter-se online.

 
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Ainda não temos no nosso léxico um verbo que se refira ao acto de comunicar pela aplicação Telegram, mas a sua preponderância em espaços de conflito começa a ser tão relevante que talvez fosse boa ideia arranjar. Desta vez é na Bielorrússia. Perante o shutdown de internet que se fez sentir, nomeadamente em sites de informação estrangeiros e aplicações de comunicações como o Facebook, o WhatsApp, o Instagram ou o Twitter, que associações de direitos humanos apontam ao Governo, foi mais uma vez o Telegram a manter-se online. Com experiência em correr em servidores para se esquivar a bloqueios de DNS, como já fora obrigado a fazer na Rússia – como te demos conta aqui – a aplicação liderada por Pavel Durov tornou-se o centro das atenções entre os manifestantes na Bielorrússia.

No epicentro da atenção gerada pelo Telegram está um canal em específico, o Nexta, gerido por um jovem de apenas 22 anos, que se apresenta como jornalista e youtuber. Stepan Alexandrovich Putilo, tornou-se numa das principais vozes a fazer-se ouvir na Bielorrússia, muito contra o presidente Aleksandr Lukashenko, através de diversas plataformas digitais em que amealhou centenas de milhares de seguidores. Putilo, filho de um ex-jornalista bielorrusso, desenvolve a sua actividade há 5 anos, desde que tinha 18. O projecto, Nexta, começou por ser, diga-se, uma banda musical, composta por Stepan e dois amigos que o acompanharam do liceu até Varsóvia, onde prosseguiram os estudos. O seu primeiro trabalho foi a música e vídeo “Não há escolha”, gravado “em condições difíceis” ainda na Bielorrússia mas publicado já na cidade polaca que, tendo sido lançada no dia das eleições de 2015, apelava ao boicote dos bielorrussos ao acto eleitoral.

Na Bielorrússia o seu esforço já lhe valeu, em 2018, um processo por ofensas ao Presidente pelo uso, entre outros, da expressão Lukasherlock, e em 2019, um prémio que visa distinguir lutadores pelos direitos humanos.

Para entendermos a sua importância, olhemos para os seus números. No Youtube, onde ia publicando vídeos regularmente, tem mais de 400 mil subscritores, chegando a ultrapassar os 2 milhões de visualizações em vídeos, em Bielorrusso, sobre Lukashenko. Contudo, é no Telegram que o seu projecto tem evoluído. Reportando a partir da Polónia, país onde vive desde que começou o projecto, é sobretudo de Minsk, capital da Bielorrússia, onde os confrontos entre manifestantes e forças de autoridade têm sido mais violentos, que nos chegam a maioria das imagens, através do Telegram, plataforma onde o Nexta tem centrado as suas operações. Em dois canais distintos, Nexta e Nexta Live, somam-se mais de 1,5 milhões de subscritores, com 500 mil e 1 milhão respectivamente. Nestes canais, o administrador do grupo, que se supõe ainda ser Putilo, vai publicando imagens da violência policial em que se vê manifestantes a ser agredidos, entre outras cenas, acompanhando-as com pequenos textos na sua língua, bem como com imagens de boletins de votos e outras alegadas evidências sobre fraude eleitoral que lhe vão chegando.

A centralidade deste grupo nos protestos que têm ocorrido é inegável para quem procura informação online. Uma pesquisa por imagens do protestos retorna dezenas delas com a marca de água inconfundível, ocupando todo o ecrã. O mesmo acontece quando se procura por notícias mais recentes sobre o tema no Twitter, por exemplo. De resto, o responsável do Telegram, Pavel Durov, já se apercebeu da importância da sua aplicação, tendo no seu Twitter anunciado a operacionalização dos mecanismos anti-censura de que dispõe.

Quanto às motivações, é possível perceber na entrevista de Stepan a um órgão local que se opõe a Lukashenko, que responsabiliza a sua presidência pelos atrasos no desenvolvimento do país — no campo dos direitos humanos, ressalve-se, por exemplo, que este é o último país em solo europeu a praticar a pena de morte. Na entrevista dada em 2015, sobre a música “Não há escolha” e vídeo, acima mencionados, Stepan dizia que saía do país para estudar e que só voltaria quando este fosse livre. Em 2020, ele e o seu projeto são um dos pontos centrais dos protestos que gritam por essa libertação.

Nota também para o site TUT.BY que fundado em 2000 se continua a manter como um dos sites de notícias independentes a actua em solo bielorrusso, servindo de fonte a muitas das publicações da NEXTA nos seus canais de comunicação.

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