Trump e os votos por correio: como os serviços postais se tornaram tema chave nestas eleições

E se toda esta sequência de eventos parece fútil ou menor, a verdade é que o potencial desta narrativa hipermediatizada serve ainda mais os intentos divisionistas diversas vezes expressos por Donald Trump.

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Em 2020 talvez não fosse de prever que um dos primeiros temas das eleições norte-americanas fosse a gestão do serviço postal – mas assim foi. Desde o princípio de Agosto que os serviços de correios se têm debatido por toda a América numa narrativa, em grande parte, resultado das acções de Donald Trump. O caso respalda-se na importância que o voto por correspondência tem nos Estados Unidos, especialmente em zonas com menores acessibilidades – e por vezes condições sociais -, e em tempos de pandemia, e traduz o estado caótico e de permanente suspeita que paira sobre a democracia norte-americana.

Como tudo começou não é absolutamente certo, mas no princípio do mês de Agosto começaram a surgir vídeos amadores pelas redes sociais denunciando a retirada das famosas caixas postais da USPS. Imediatamente soaram alarmes pelas redes sociais que antecipavam um hipotético plano de Trump de reduzir as hipóteses das comunidades por elas dependentes chegarem ao voto, que chegou até ao congresso pela voz do democrata Gerry Connolly, responsável pela supervisão do serviço postal.

Connolly acusava a estratégia de redefinição do serviço postal norte-americano, promovida pelo recém chegado ao cargo de liderança, Louis DeJoy, como um cavalo de Tróia para deliberadamente sabotar umas eleições que dependem do voto por correspondência, especialmente em período de pandemia de Covid-19. DeJoy, um financiador de Trump e do Partido Republicano, retorquiu, chamando deultrajantes” as afirmações sobre si feitas mas sem demonstrar cabalmente que a repentina retirada de caixas postais não tinha segundas intenções. DeJoy está no cargo apenas desde maio de 2020 e desde o primeiro dia que conta com o rótulo de apoiante de longa data de Donald Trump, e chegou pouco depois das notícias que antecipavam a insolvência do serviço, obrigando-o a agir rapidamente. 

O que parece certo é que as caixas postais foram efetivamente retiradas de alguns estados, sem planos para serem substituídas, como aponta o órgão de fact-check, Snopes. A Califórnia com 76, a Florida com 59, o Texas com 58, Nova Iorque com  52 e o Ohio com 34 caixas postais lideram a tabela das remoções. Segundo o mesmo media, que apurou informações junto dos sindicatos, estas alterações resultam de um plano interno e que devia ter sido posto em prática no dia 1 de Agosto. Então porque raio se fala tanto de Trump?

Para além de pela relação com Louis DeJoy, que foi considerado por muitos democratas como estando potencialmente a mentir sobre o caso, escondendo as verdadeiras intenções e extensão do plano de ataque ao serviço postal norte-americano, Trump tem sido pródigo a lançar a confusão sobre o serviço. Nancy Pelosy, presidente da Câmara dos Representantes, do Partido Democrata, pediu numa carta endereçada aos seus colegas “atenção” para o plano de Trump para desmantelar o serviço.

Com acções ou expressões, o homem que hoje se volta a apresentar como candidato às eleições dos Estados Unidos da América parece decidido a confundir os votantes que optem fazê-lo por correio. Foi com um dos seus tweets que virou as atenções para o serviço postal e, agora continua a fazê-lo. Lançando acusações de fraude sem apresentar provas, ou plantando simplesmente a narrativa de que esse voto será inútil, atrasado ou difícil de processar, Trump parece querer manter os eleitores longe dessa opção.

A explicação para esta obsessão parece estar nos números. Segundo avança a NPR, o voto por correspondência tem uma diferente expressão entre os dois grandes partidos que pode explicar as diferentes abordagens ao mesmo. 48% dos democratas demonstraram intenção de votar desta maneira, enquanto apenas 27% dos republicanos demonstraram a mesma intenção. O que explica, por exemplo, que ao contrário das palavras de Trump, Michelle Obama tenha aconselhado os eleitores a pedir os boletins e a votar por correio nas próximas eleições.

A segurança do voto por correspondência, apesar das alegações de Trump, não tem propriamente um historial negro. O grande problema deste sistema são os atrasos, que já durante as primárias de 2016 se verificaram. Em resposta a este potencial atraso por acumulação de serviço num USPS pouco habituado a grandes volumes de cartas em 2020, os votantes de alguns dos estados mais afetados estão a sugerir que se instalem caixas de voto (“mail drop boxes”), de onde dos votos seriam coletados diretamente pelos responsáveis das eleições evitando atrasos.

Assim que mudou a intenção dos votantes, mudou também o discurso de Trump e o último tweet polémico, ainda ontem, versa precisamente sobre este outro sistema de voto. Mais uma vez Trump aludiu à falta de segurança do voto por correspondência sem, para isso, apresentar qualquer prova ou estabelecer qualquer lógica. Para além disso mostrou um estranho – mas de salutar – momento de preocupação com a higienização das caixas em tempos de Covid-19. O seu tweet, no entanto, foi considerado pela moderação do Twitter como uma intimidação ou um apelo à abstenção pelo que desde então foi colocado sob aviso por a espalhar informação falsa ou não verificada.

Em ano de pandemia, o correio volta a ganhar importância à medida que as pessoas evitam deslocar-se até às longas linhas de votação comuns em diversos estados norte-americanos, e é nas redes sociais que os boatos se espalham sobre a sua alegada insegurança e a seu potencial fraude. Um episódio exemplar do que serão os próximos tempos até às eleições norte-americanas a 3 de Novembro.

E se toda esta sequência de eventos parece fútil ou menor, a verdade é que o potencial desta narrativa hipermediatizada serve ainda mais os intentos divisionistas diversas vezes expressos por Donald Trump. Ao provocar a reação Democrata com as suas sucessivas tiradas sobre o serviço postal, Trump parece ter propositadamente criado as bases para que mais tarde se pudesse chamar à investigação sobre o voto por correio uma teoria da conspiração. Lançando suspeitas sobre o sistema, Trump foi o primeiro a minar a confiança numa instituição independente mas que, de certa forma, representa, arando terreno para que dezenas de teorias pudessem surgir de seguida, alimentando o caos comunicacional em que o seu tipo de ideias triunfa – pleno de desconfiança, divisionismo, e medo. 

Procurando por USPS é fácil perceber como este assunto ganhou espaço na corrida eleitoral norte-americana. Do lado dos candidatos democratas tornou-se comum ver a defesa do serviço postal como um trunfo eleitoral; jornalistas continuam a acompanhar a par e passo as movimentações das carrinhas da USPS e para onde seguem os postos de correio retirados do local; e republicanos e democratas continuam a trocar galhardetes sobre o tema – uns dizem que afinal a USPS não está numa condição financeira assim tão débil e que o assunto introduzido por Nancy Pelosi.

Para além de tudo isso, duas notas. Uma para o facto de ter sido aprovado um bolo de financiamento de 25 mil milhões para o serviço postal da USPS, com votos, sobretudo dos democratas — do lado dos republicanos apenas 12 votaram a favor da proposta de financiamento, desafiando as linhas e os dirigentes do partido que pretendiam opor-se. E outra, mais simbólica, para o facto de o próprio Trump e Melania terem requisitado voto por correspondência para as primárias do partido.

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