Zimbábue reprime protestos e população avisa: “Queremos um país onde tenhamos cuidados de saúde, salários e direitos humanos”

À medida que a repressão se vai intensificando, os zimbabuanos exigem melhores condições de vida. O país anunciou ainda que vai pagar 3,5 mil milhões de dólares a agricultores brancos num acordo que se diz histórico, mas o Governo já confirmou que, devido ao declínio da economia, não possui a quantia estipulada no acordo.

Ilustração de Shifter
 
Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

O Governo zimbabuano ordenou, na passada quinta-feira, o fecho de lojas, limitação de circulação nas estradas e retirada de pessoas da capital do Zimbábue, Harare. A medida foi motivada pelos protestos marcados para o dia seguinte, sexta-feira, por grupos de ativistas. Insurgir-se-iam nesse dia contra a corrupção do Executivo e contra as dificuldades económicas que se vivem no país. A inflação já atingiu os 700% e é agora a segunda maior do mundo.

Com as ruas vazias, e apesar da presença das forças de segurança, foram sinalizados, na sexta-feira, dia 31 de julho, vários pequenos protestos, que culminaram com a apreensão de manifestantes. Ao Shifter, Edmund Kudzayi, jornalista de investigação sediado em Harare, diz que os protestos planeados não aconteceram “porque as forças de segurança isolaram as estradas e o centro do distrito estava como área proibida”. Em vez disso, os manifestantes tomaram outra posição e ocuparam as redes sociais. Ainda assim, houve quem tivesse coragem de sair à rua e, por isso, ou foi detido ou teve de se esconder: “Alguns manifestantes foram presos, incluindo a oposicionista Fadzayi Mahere, a aclamada escritora internacional Tsitsi Dangarembga e alguns outros”. As duas zimbabuanas, importantes figuras do ativismo no país, foram, entretanto, libertadas sob fiança.

Ao longo dos últimos dias, os militares patrulhavam a capital e ordenavam a saída das pessoas do centro de Harare, de forma a evitar confrontos e a escalada da violência. Segundo a Associated Press, os grupos da oposição admitem ter “testemunhado abusos, como prisões, detenções, espancamentos e perseguição de ativistas e pessoas comuns acusadas de violar o bloqueio antes do protesto planeado”. A polícia e o Governo desmentiram as acusações e atiram aos EUA a culpa de financiarem os ativistas presentes nos protestos.

“Nunca deve haver dúvida de que o objetivo desses zimbabuanos desonestos em agir em conjunto com apêndices, apoiadores e financiadores estrangeiros é derrubar o nosso Governo democraticamente eleito”, disse Emmerson Mnangagwa, Presidente do país, na quarta-feira, citado pelo The Guardian. Esta já não é a primeira vez que o Governo se manifesta contra a alegada interferência dos EUA no país. No início da semana passada, o Executivo ameaçou expulsar do território o embaixador norte-americano.

Quero alertar os organizadores dessas manifestações infelizes de que os nossos serviços de segurança estarão vigilantes e em alerta máximo para responder adequadamente às suas travessuras. Peço a todos os cidadãos patrióticos e cumpridores da lei que evitem esses descontentes e rejeitem o seu plano divisivo e ruinoso”, completou. A polícia publicou ainda uma lista com 14 nomes de “personalidades procuradas” pelo Governo, “incluindo o sindicalista Peter Mutasa, o legislador da oposição Job Sikhala e dois ex-líderes jovens do partido governante ZANU-PF”, indica o mesmo jornal britânico.

Tadiwa (nome fictício) é uma jovem zimbabuana e, ao Shifter, pediu para esconder a identidade porque “é inseguro estar ligada de alguma forma a qualquer tipo de notícia sobre isto”. A jovem começa por explicar que “há muita corrupção” no país e que, recentemente, “esses esquemas de corrupção do Governo foram expostos pelo jornalista Hopewell Chin’ono”, entretanto preso. O motivo da detenção foi um tweet em que o jornalista utilizou a hashtag #ZANUPFMustGo: “As autoridades disseram que ele estava a incitar à violência pública contra o Governo”.

Para Edmund Kudzayi, a solução para a atual situação “é um pouco complicada”, mas revela que os protestos existem porque “as pessoas querem que o Governo seja derrubado”. “Alguma oposição é suspeita de estar a ser ‘conduzida’ pelos oponentes de Mnangagwa dentro do partido no poder, que querem a realização destes protestos como pretexto para exigir a renúncia de Mnangagwa. Isso permitiria ao partido nomear um sucessor”. O jornalista relembra ainda que a organização de eleições antecipadas não é solução, uma vez que “não há base constitucional” para um novo sufrágio. O próximo acontece em 2023.

O atual Presidente Mnangagwa sucedeu a Robert Mugabe, que foi deposto durante um golpe de Estado, em 2017, depois de 37 anos no poder. A mudança prometia desenvolvimentos na vida social e económica dos zimbabuanos. No entanto, os opositores acusam agora Mnangagwa de seguir os passos do antecessor, principalmente em matéria de repressão e falta de respostas ao declínio da economia.

“Na realidade, não há nada novo. Em vez disso, vimos a perfeição da arte da repressão”, disse Obey Sithole, um dos principais ativistas da oposição, sobre o novo Presidente, citado pelo The New York Times. “Eles estão a tentar silenciar-nos e assustar-nos”, continua Tadiwa. “Até estamos com medo de postar nas redes sociais sobre isto, porque se descobrirem onde moramos, eles podem procurar-nos”, continua.

O mesmo jornal norte-americano afirma que “o número de ativistas da oposição acusados ​​de traição durante os três anos de mandato de Mnangagwa já é maior do que durante todo o mandato de Mugabe, segundo uma pesquisa de uma coligação de 22 grupos de direitos zimbabuanos”. Um dos organizadores dos protestos e um jornalista de investigação – que descobriu um esquema de corrupção planeado pelo Ministro da Saúde, Obadiah Moyo, demitido em julho – foram detidos.

Sobre a qualidade de vida, Tadiwa afirma que “há muito desemprego ou emprego informal e as pessoas estão a morrer de fome porque, devido à pandemia, não conseguem conduzir os seus negócios informais para sobreviver. Aqueles que são empregados formalmente ainda estão a ganhar muito pouco”. Segundo a jovem, “muitos zimbabuanos estão a ganhar o equivalente a dez dólares por mês, ou até menos, e o Governo não está a ajudar de forma nenhuma”.

Ilustração cortesia do artista Zidlekhaya

Covid-19 e economia: os 3,5 mil milhões para agricultores brancos servem para “recompensar aqueles que não precisam”

A pandemia de coronavírus não deve ser usada como desculpa para reprimir as liberdades fundamentais”, apelou a porta-voz do Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR), Liz Throssell, às autoridades do Zimbábue, na passada sexta-feira. “Protestos pacíficos são um exercício de direitos humanos reconhecidos”, acrescentou.

A declaração surge depois de várias polémicas que continuam a ameaçar a liberdade dos cidadãos. Ainda assim, o setor da saúde no Zimbábue é uma das principais áreas em rutura, agora intensificada com a pandemia do novo coronavírus. Os profissionais de saúde têm agendado várias greves nos últimos tempos para reivindicar melhores condições de trabalho, o que diminui a resposta no combate ao surto. Nos hospitais faltam ventiladores, material de proteção individual e medicamentos, além de pessoal especializado. O mais recente episódio a correr o mundo envolveu a morte de sete bebés numa só noite.

Segundo os dados mais recentes, existem quase quatro mil casos de infeção por Covid-19 no país, cerca de 70 mortos e mais de mil recuperados. Os números baixos são contestados pelos críticos anti-Governo, que dizem que o país não tem uma testagem significativa devido à carência de testes. Kudzayi também se mostra cético em relação aos números: “Não acredito neles, mas não tenho provas. Ao trabalhar numa história [jornalística], os funcionários mortuários disseram que estão cheios de vítimas de Covid-19”.

Em termos económicos, a taxa de inflação no Zimbábue já ultrapassou os 700%, mas o Ministro da Economia, Mthuli Ncube, mostra-se confiante na descida deste número para 300% até ao final do ano. Segundo o Programa Alimentar Mundial (WFP) das Nações Unidas, até ao fim de 2020, 7,7 milhões de zimbabuanos, cerca de metade da população, vão precisar de ajuda para combater a desnutrição.

Esta semana, o país anunciou ainda que vai pagar 3,5 mil milhões de dólares (cerca de 2,9 mil milhões de euros) aos agricultores brancos que foram retirados das suas terras para reassentar famílias negras. A enfrentar uma crise económica e sem possibilidade de pagar a quantia, o Governo vai emitir “títulos a longo prazo e vai abordar, em conjunto, os doadores internacionais e os agricultores para angariar fundos”, avança o Aljazeera. O Governo tem um máximo de 12 meses para conseguir o financiamento.

A retirada coerciva de agricultores das próprias terras foi um dos temas mais polémicos durante o mandato de Mugabe. Há 20 anos, o governador expropriou as terras a cerca de 4,5 mil agricultores para alocar 300 mil famílias negras, apoiando-se no passado colonial do país. A atitude levou a que a relação entre o Zimbábue o Ocidente se tornasse mais frágil.

Mnangagwa já se pronunciou sobre as indemnizações: “O processo que nos levou a este evento é igualmente histórico, pois é uma reafirmação da irreversibilidade da terra, bem como um símbolo do nosso compromisso com o constitucionalismo, o respeito pelo Estado de Direito e pelos direitos de propriedade”.

A mobilização desse financiamento está a levantar controvérsia entre a comunidade zimbabuana. “A razão pela qual os agricultores brancos tiveram que desistir desses terrenos foi pelas reparações: devolver a terra que as suas famílias haviam adquirido através do colonialismo e consertar as coisas”, explica Tadiwa ao Shifter. “Então, no momento em que a maioria dos membros negros da população do Zimbábue estão a passar fome, o Governo decidiu dar 3,5 mil milhões de dólares aos agricultores brancos para compensá-los por devolver o que não era deles em primeiro lugar”. Para a jovem, só existe uma conclusão: “O Governo continua a recompensar aqueles que não precisam e a deixar as pessoas que mais precisam a sofrer”.

Sobre o futuro, Edmund Kudzayi acredita na mudança: “O futuro é brilhante. O país está a passar pelos seus momentos finais antes da transição. Em alguma coisa isto vai dar”. Já Tadiwa tem outras convicções: “Queremos um país onde tenhamos cuidados de saúde, salários e direitos humanos decentes. É por isso que estamos a lutar”.

Para já, o Zimbábue tem de lidar com o descontentamento de uma grande fatia da população, que viu um regime autoritário ser deixado para trás, mas que sente a ameaça da repressão como um novo capítulo da mesma história.

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.