BBC quer que jornalistas deixem de usar Twitter para dar opiniões

"Se querem ser comentadores, escrever colunas de opinião, ou ser partidários nas redes sociais, essa é uma opção válida, mas não para trabalhar na BBC", afirmou Tim Davie, o novo director do canal televisivo britânico, num discurso de estreia dirigido aos funcionários.

Foto de Annie Spratt via Unsplash
 
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O novo diretor da emissora pública britânica, Tim Davie, estreou-se no cargo a semana passada. De acordo com o El País, no seu primeiro discurso para os funcionários da empresa, Davie estabeleceu os seus quatro principais objetivos ao comando da instituição: renovar o compromisso da BBC com a imparcialidade, concentrar esforços em conteúdos exclusivos e com impacto, fortalecer o compromisso digital e obter maiores receitas comerciais.

Foi sobre o primeiro objectivo mencionado que Davie acabou por dizer aos seus jornalistas que podem dar as opiniões que quiserem nas redes sociais, nomeadamente no Twitter, desde que não trabalhem para a BBC: “Se querem ser comentadores, escrever colunas de opinião, ou ser partidários nas redes sociais, essa é uma opção válida, mas não para trabalhar na BBC”.

Falando em imparcialidade, terá perguntando ironicamente se não vai acabar por se descobrir que, para alguns, a imparcialidade é simplesmente aborrecida e entediante. “Não se trata de abandonar os nossos valores democráticos, como a defesa de um debate justo e equilibrado ou o repúdio a qualquer forma de racismo”, explica. “[A imparcialidade] consiste em libertar-nos de qualquer veia política, guiando-nos pela procura da verdade, mas não de uma agenda particular”, disse, acrescentando então que: “Nas próximas semanas vamos apresentar novas recomendações para manter essa imparcialidade. Haverá novas regras em relação às redes sociais, que serão rigorosamente aplicadas”.

Davie anunciou ainda que vão ser implementadas também “novas regras sobre a compatibilidade do trabalho com interesses externos” e  que serão lançados “cursos de formação para explorar os dilemas difíceis, mas interessantes do mundo actual. É nisso que consiste a imparcialidade”, concluiu.

Vários jornalistas, apresentadores e colaboradores regulares em regime de freelance manifestaram o seu desagrado perante as declarações de Davie sobre as restrições ao uso do Twitter. “Nós somos regularmente retweetados pela máquina de publicidade da BBC porque eles sabem que ajudamos a divulgar o conteúdo. Se não pudermos ter vozes pessoais, isso não funcionará. Acho que em breve a BBC descobrirá que novos rivais, como o Times Radio, irão intensificar os seus próprios especialistas em redes sociais” , disse uma fonte ao The Guardian, que a apresentou como “um colaborador especialista de longa data”.

Grande parte dos intervenientes em programas de rádio e televisão da BBC são empregados apenas temporariamente, apesar de estarem intimamente associados à marca BBC, dando-lhe voz e cara. Quando as redes sociais explodiram no mundo das notícias, facilitando o acompanhamento da actualidade e reações e comentários 24 horas por dia, muitos repórteres e correspondentes proeminentes foram encorajados a construir uma persona online, e a tweetar os seus trabalhos e análises à medida que vão acontecendo.

Os primeiros sinais de que a BBC estaria a andar no sentido oposto desse encorajamento, surgiram numa reportagem do segmento The Observer do The Guardian, no ano passado, que dava conta dos sucessivos avisos de Fran Unsworth, chefe de notícias da BBC, por “mais disciplina” às suas equipas de reportagem.

Um conhecido apresentador da BBC que quis permanecer anónimo revelou ao The Guardian que uma reunião para esclarecer as novas regras deverá acontecer brevemente.“Bob Shennan, o diretor-gerente do grupo, teve de enfrentar perguntas de centenas de freelancers furiosos numa reunião recente e não ficou nada satisfeito. Ele parecia sentir-se emboscado”, disse uma outra fonte.

O historiador da arte e locutor Bendor Grosvenor foi um dos primeiros a expressar consternação com o discurso de Davie. “Posso tentar entender estas regras nas notícias e nos assuntos atuais”, escreveu ele no Twitter. “Mas em toda a BBC? (…) Porque se a BBC só pode contratar pessoas sem opinião ou com medo de expressar opiniões, pode vir a ficar com um grupo de funcionários enfadonho e tímido. A BBC prospera com inovação e criatividade. Seria melhor se se concentrassem em equilíbrio, em vez do silêncio.”

Segundo o The Guardian, o aviso sobre o uso das redes sociais para expressar opiniões ou tecer comentários terá sido dirigido de forma indirecta a alguns dos maiores nomes do canal, incluindo a editora de política Laura Kuenssberg e o apresentador Andrew Neil. Ambos os profissionais já enfrentaram acusações públicas de falta de imparcialidade. Em maio, a BBC interveio para defender Kuenssberg, depois de a jornalista ter sido acusada de defender a viagem de Dominic Cummings a Durham num tweet em que citava fontes que insistem que não houve violação das regras de confinamento. Em fevereiro, Andrew Neil foi acusado de parcialidade depois de twittar que um Brexit sem acordo seria o “pior pesadelo da UE”.

Em março, Oliver Dowden, secretário de estado da cultura, afirmou que a BBC não estava a reflectir as mudanças no país, como o Brexit, dizendo que a estação televisiva precisava de ser mais “genuinamente imparcial”.

Tim Davie sobe ao cargo em plena guerra aberta com o Governo conservador de Boris Johnson, que questiona a agenda da entidade em questões-chave como o Brexit ou a gestão da pandemia, pondo em causa o financiamento do Estado à estação pública. E como cada nomeação acarreta uma mensagem, a do 17º CEO da BBC é a de que deve empurrar a BBC na direção certa antes que seja tarde demais. Davie, de 53 anos, não tem carreira em jornalismo mas tem uma carreira extensa em Marketing, em empresas como a Pepsi, a Procter & Gamble e a própria BBC, onde chegou em 2005 para desempenhar o cargo de Diretor de Marketing, tendo chegado a ser Diretor Geral Interino durante cinco meses em 2012. Herda agora o cargo de Tony Hall que renunciou repentinamente em Janeiro. Também o Presidente da instituição, David Clementi, deixou o seu cargo um mês depois, tendo nomeado Davie antes de sair, numa jogada que muitos viram como estratégica: a nomeação de um novo Presidente para a instituição cabe normalmente à Rainha, com base nas recomendações do Governo, e em particular do secretário de estado da Cultura. Com a saída de Hall em janeiro, Clementi conseguiu nomear um Diretor-Geral da casa , em vez de deixar os dois cargos nas mãos do Governo de Boris Johnson.

Entre rumores e anúncios, sabe-se que Davie e a BBC procuram um modelo de negócio que lhe permita competir com os gigantes do mundo digital – Netflix, Disney, Amazon Prime Video -, que controlam o mercado audiovisual, ao mesmo tempo que o recém-chegado CEO deve manter o nível de produção em TV e rádio, e gastando menos do que antes. Enquanto isso, está na mira dos conservadores britânicos no geral, e do primeiro-ministro em particular, que já brincou com a ideia de tirar financiamento à BBC; tudo numa altura em que a empresa apresenta um défice que rondará os 62 milhões de euros (dados do final de 2019).

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