Extinction Rebellion e a acção contra a extinção

Um pouco por todo o lado, no espaço público, vamos assistindo a uma crescente adesão a esta filosofia de desobediência civil não-violenta proclamada e incentivada pelo movimento e à emergência activista no combate à extinção. Mas afinal, quem são exactamente os Extinction Rebellion, pelo que lutam e o que fazem?

Foto de Joël de Vriend via Unsplash
 
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“Extinction Rebellion é jovem, velho, preto, branco, indígena, todas as fés e nenhuma, todos os géneros e sexualidades e nenhuma: estar vivo no planeta Terra é a qualificação necessária.” Uma “declaração de rebeldia” que certamente encontrarás numa visita ao site oficial do movimento Extinction Rebellion, ou XR na sua abreviação. Um pouco por todo o lado, no espaço público, vamos assistindo a uma crescente adesão a esta filosofia de desobediência civil não-violenta proclamada e incentivada pelo movimento e à emergência activista no combate à extinção. Mas afinal, quem são exactamente os Extinction Rebellion, pelo que lutam e o que fazem?

Numa frase, Extinction Rebellion é um movimento que defende o planeta e os seus recursos e que nos convida a acções de protesto visando a sensibilização para as alterações ambientais e forçando o Governo a agir. Contudo, esta descrição é demasiado breve para englobar tudo o que este grupo representa no pedaço de história que vivemos. Ao longo deste artigo, partilhamos a visão da Cheila Rodrigues, uma activista apaixonada que, além de pertencer ao XR, faz também parte de movimentos como a Rede 8 de Março e o Fórum Indígena Lisboa, que garante serem importantes de conhecer.

Mas comecemos pelo início. Estávamos no último dia do mês de Outubro de 2018 quando cerca 1500 pessoas se reuniram numa manifestação pacífica na Praça do Parlamento junto ao Palácio de Westminster, contra o Governo do Reino Unido. Neste contexto era anunciada a Declaração de Rebelião que oficializou o início dos Extinction Rebellion.

“A ciência é clara: estamos a viver a sexta extinção em massa e enfrentaremos a catástrofe se não agirmos rapidamente e com vigor”, é uma das afirmações constantes da declaração.

Desde então, as intervenções e a luta não cessaram. Desde bloqueios de pontes, estradas e parques, à invasão de edifícios, o importante é a acção e o protesto, sempre pacífico mas sempre desobediente. E com esta desobediência civil, estas “reuniões” resultam muitas vezes em detenções. Os manifestantes sabem desse risco e não só vão preparados como entusiasmados. Os protestos são geralmente compostos por grupos de cidadãos que se reúnem para atrapalhar ou impedir acções que considerem ser prejudiciais ao ambiente e à sociedade. E não faltam lugares e eventos com essa componente destrutiva, seja na política, em empresas, no comércio ou até mesmo na rua.

Desobediência não-violenta

Uma forma comum de protesto é o die in, ou seja, uma acção em que os manifestantes se deitam para bloquear a passagem, como aconteceu, por exemplo no passado dia 9 de Agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas. Um grupo de activistas realizou uma manifestação em frente à Galeria Nacional de Londres, com o intuito de chamar a atenção para o ritmo com que os povos indígenas brasileiros estão a morrer devido à pandemia e para ausência de acção política.

Estas técnicas de resistência e desobediência não-violenta são inspiradas por personalidades como Mahatma Gandhi, líder do movimento pela independência da Índia, ou Martin Luther King, nome sonante da luta pelos direitos civis dos negros nos EUA. Roger Hallam, um dos activistas na origem o movimento XR defende que “a participação em massa e a desobediência civil são os mecanismos mais efectivos para desafiar o projeto genocida das elites do mundo”. Outros nomes associados à raiz deste movimento são Gail Bradbrook e Simon Bramwell.

O princípio da não-violência que subscrevem é, segundo Cheila,“o de quebrarmos a lei porque achamos que a lei é imoral e que é necessário que seja quebrada para que nos levem a sério”. Esta forma de luta pede “a simpatia do público” para atingir um objectivo global e concreto: “é necessário que existam 3.5% de pessoas mobilizadas, na rua, a fazer acções”.

Desde o início, os protestos têm atraído atenção nacional e internacional, avançando no objectivo de reunir apoio e acção mundial na Emergência Climática. Querem fazer-nos parar, desacelerar o automatismo frenético capitalista e acordar consciências para a acção mais humanitária.

Mas querem mais. Cheila fala da grande importância das culturas regenerativas: “As culturas regenerativas englobam toda uma forma de ver o mundo e de viver. É basicamente sair do estado degenerativo onde estamos e tentar recriar os processos naturais, imitando a natureza até agir enquanto natureza.” E considera ser esse o grande desafio do movimento XR: “desmistificar e explicar de forma fácil e compreensível o que são culturas regenerativas” que considera ser “vital para o movimento e para a humanidade”.

Sem hierarquias

A mensagem e o modus operandi das acções têm-se propagado, com activistas um pouco por todo o mundo a adaptar as lutas do colectivo à sua acção local, organizadamente e sem hierarquias, até porque hierarquia é algo que não combina com a filosofia deste movimento.

“Cada pessoa no XR pode e terá as sua próprias visões. Algumas serão partilhadas. Não existe nenhuma declaração de visão definitiva para o XR, nem nós desejamos isso”, pode ler-se no site oficial.

Numa linguagem romantizada mas dramática e de carácter urgente, o movimento fala do estado do mundo, dos números de alerta com base científica e do “sistema corrompido” actual. Afirmam que o poder não é transparente, não tem princípios e não tem compaixão. Os Extinction Rebellion consideram crucial o papel do Governo no tema da emergência climática, e por isso tem três exigências bem declaradas no manifesto e nos seus protestos globais.

  1. Dizer a Verdade: o Governo tem de dizer a verdade, declarando a Emergência Climática e Ecológica, trabalhando com outras instituições para comunicar a urgência da mudança;
  2. Agir Agora: o Governo tem de agir agora para deter a perda de biodiversidade e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa para zero até 2025
  3. Além da Política: o Governo tem de criar uma Assembleia de Cidadãos ecológica e ser conduzido pelas suas decisões na área do meio ambiente e justiça ecológica.

Utópico? Talvez, mas os XR têm tudo pensado. A mencionada Assembleia de Cidadãos sobre justiça climática quer-se o mais democrática possível. Para isso, a assembleia será dirigida por organizações não governamentais, sob supervisão independente e constituída por pessoas comuns, seleccionadas aleatoriamente em todo o país, mas planeado de forma representar o melhor possível a cultura e os cidadãos (etnia, género, idade, nível educacional e geografia). Os membros da assembleia investigam, ouvem especialistas e os mais afectados pela crise climática, trabalham juntos e recomendam respostas governativas e de acção na luta da emergência climática. Os Extinction Rebellion garantem que esta ideia não é hipotética, sendo uma prática comprovada em países como a Irlanda que, através da Assembleia de Cidadãos, introduziu uma série de recomendações sobre o clima no plano de acção governativo.

Greta Thunberg é, desde o início e sem surpresas, defensora do movimento e participativa nas manifestações, mas não é o único nome conhecido a juntar-se a esta causa. A actriz Emma Thompson esteve presente em protestos em Londres, e vários outros nomes, como a escritora Margareth Antwood e o filósofo Noam Chomsky. Os músicos Robert del Naja e Thom Yorke já manifestaram apoio público ao movimento e a lista continua, a par com a luta.

Mas se isto vos parece longínquo, fiquem a saber que Portugal também tem a sua rebelião à qual todos são bem-vindos desde que venham por bem e que sigam os 10 princípios fundamentais. “A única regra que existe é o consenso da acção, os 10 princípios estarem contidos na acção. A partir desse momento é liberdade total.”

No mundo e em Portugal

Desde que se juntou ao movimento, em 2019, Cheila sente um impacto gradual do movimento nas pessoas, embora oscile. As acções trazem sempre maior adesão, embora o trabalho se estenda para lá das manifestações. Acrescenta que o impacto “muitas vezes não é visível” e “não o limitaria a Portugal, é uma questão mundial e sim, noto muita diferença”. Ainda assim, em Portugal nem todos estão familiarizados com o movimento e a sua filosofia. Do seu ponto de vista, “em ambientes urbanos, toda a gente está familiarizada com o XR enquanto movimento internacional”, no entanto, admite que “na sociedade em geral não acho que seja assim tão conhecido”.

Mas estes activistas pelo clima estão um pouco por todo o mundo e não é difícil perceber a rápida expansão do movimento: jovens e não só, preocupados com a ausência de um futuro, numa era de redes sociais que conecta tudo como nunca antes e um bom trabalho visual. A coisa dá-se, a mensagem propaga-se e a luta democratiza-se. Cheila confirma: “a imagem é muito forte, a comunicação também é muito forte e muito igual em todo o lado e isso é uma arma que nós usamos para massificar a luta”. O resultado é a sua representação em mais de 350 cidades.

Começando nas capitais de cada país “à medida que (o movimento) evolui, o grupo inicial passa de grupo nacional para pequenos núcleos noutras cidades do país. Há uma forte presença na Europa, nos EUA, Canadá, mas também em sítios menos expectáveis, por exemplo na Palestina, Gana, Nepal”, reconhecendo no entanto que, infelizmente, a luta não pode ser feita da mesma forma em todo o lado, sendo nós “grandes privilegiados por termos uma constituição que consagra o que nós estamos a tentar fazer, que nos dá esse pleno direito, e não temos instituições que nos vão assassinar, o que não acontece noutras zonas do Planeta”.

Em Portugal, há núcleos em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e outros a surgir entretanto. Não é tarefa fácil iniciar um núcleo, seja por falta de meios ou pessoas. Nesse sentido, a jovem activista deixa claro que “quem quiser começar o seu núcleo na sua cidade, desde que subscrevam os três objectivos e os 10 princípios, está mais do que habilitado para ser XR e para fazer desobediência civil. Sempre que precisarem do apoio do núcleo de Lisboa ou mesmo o meu enquanto activista, vamos sempre prestar essa experiência a quem quer começar agora”.

Importa referir o papel da imprensa como ponte entre o movimento e a sociedade. A activista refere que não falta cobertura de colectivos de jornalistas independentes nas acções dos Extinction Rebellion, mas confessa que o mesmo não acontece com a imprensa nacional que, além de escassa, assenta num clássico “jogo de o que é que nós temos a dar-lhes que seja mediático o suficiente para eles terem audiências.”

As restrições do Covid-19

Com a pandemia de Covid-19, o mundo sofreu restrições, foi forçado a adaptações e os Extinction Rebellion não foram excepção. Os protestos em massa característicos do movimento foram naturalmente afectados e a luta tomou novas formas durante estes meses. Rebeldes e conscientes, relembram-nos que existem para proteger a vida no presente e para o futuro e, além de incentivarem os cuidados para evitar a propagação do vírus, unem esforços no sentido da empatia, resiliência e ajuda mútua, numa acção a que chamaram de AloneTogether.

“A empatia é revolucionária, o amor é revolucionário, o cuidado é revolucionário e esta é a revolução que nós queremos fazer. A revolução tem de ser empática, tem de ser interseccional, tem que chegar a todos e ninguém ficar para trás, tem de ser inclusiva, tem que ser transparente, tem que ser horizontal, tem que ser com os cuidados uns para os outros”, afirma convictamente esta Guerreira do Coração, como se autodenomina.

No primeiro dia de Setembro inicia-se, no Reino Unido, uma acção à qual deram o nome de We Want to Live e que se estenderá por duas semanas até obterem o apoio para a Lei da Emergência Climática e Ecológica.

Seja para quem quer fazer parte desta história, seja para quem quer conhecer melhor estes revolucionários, partilhamos aqui tudo o que há para saber sobre os Extinction Rebellion. Importa referir que o movimento não encoraja de todo a culpabilização individual de um sistema que consideram tóxico e a visão partilhada é logo o primeiro princípio, mas não o mais importante porque, lembrem-se: aqui não há hierarquias e a participação é equitativa.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!