Fosfina, a molécula rara que foi detectada em Vénus e que está a intrigar os cientistas

A fosfina é um marcador de vida, isto é, pode indicar a existência de vida em determinada superfície. Mas a detecção deste gás em Vénus não significa que exista lá vida. A descoberta levanta mais dúvidas que certezas.

Impressão de um artista da atmosfera de Vénus (imagem via ESO/divulgação)
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

As notícias sobre poder existir vida em Vénus a propósito da descoberta de uma molécula rara naquele planeta são, neste momento, exageradas. Existem ainda muitas dúvidas, entre elas se a molécula detectada é mesmo fosfina. Mas, afinal, porque é que esta descoberta se tornou tão badalada?

A possibilidade de existência de vida sob alguma forma noutro planeta do Sistema Solar ou noutra aglomeração de planetas é algo que intriga historicamente a Humanidade. Em Marte já se terá descoberto água e a agência espacial norte-americana NASA, em conjunto com alguns parceiros privados, pretende levar habitantes da Terra para o Planeta Vermelho dentro de algumas décadas. Sobre Vénus, não se fala naturalmente de lá colocar humanos (as temperaturas à superfície rondam em média os 462 ºC), mas há muito que a comunidade científica olha para as nuvens altas do planeta – um ambiente que, apesar de extremamente ácido, apresenta temperaturas na ordem dos 30 ºC, podendo comportar microrganismos.

Representação da detecção de Fosfeno em Vénus (imagem via ESO/divulgação)

O que é a fosfina?

A fosfina, de fórmula química PH3, é uma molécula constituída por um átomo de fósforo e três de hidrogénio. A fosfina existe na Terra na forma de gás através de duas fontes: produção industrial pela mão humana, por um lado, e produção por organismos vivos que vivem sem oxigénio (anaeróbicos) e que podem ser encontrados em pântanos e nos intestinos de grande parte dos animais. De qualquer modo, a fosfina não é vulgar na Terra e para os organismos que vivem de oxigénio como nós é tóxica.

Porque é que fosfina em Vénus é especial?

Apesar de se encontrar na atmosfera dos planetas Saturno e Júpiter, é a sua alegada presença na de Vénus que chamou a atenção dos investigadores. Porquê? É que enquanto nesses planetas a fosfina é produzida naturalmente nas suas atmosferas, onde as temperaturas são muito altas e existe muita pressão de hidrogénio, em planetas terrestres ou telúricos – como a Terra e Vénus – não existem ambientes para a fosfina ser produzida espontaneamente. A única hipótese é ser produzida por vida.

A fosfina é, então, um marcador de vida (ou biomarcador), isto é, pode ser um indicador de que estamos perante a presença de vida.

Muitas dúvidas, poucas certezas

Daí que tenha surgido essa ideia, depressa aproveitada para fazer títulos de notícias. Clara Sousa Silva, investigadora portuguesa no MIT, que contribuiu para a presente investigação que juntou cientistas de vários países, publicada em artigo científico na revista Nature, explicou à SIC Notícias que “conforme a superfície [de Vénus] ficou mais não-habitável, partes da atmosfera conseguiram manter-se mais ou menos confortáveis. Há uma camada, cada vez menos espessa, que continua a ser teoricamente habitável. E foi nessa camada que descobrimos fosfina”.

Clara Sousa Silva (foto de Melanie Gonick/divulgação)

Agora, existem ainda algumas dúvidas: será que a molécula descoberta é mesmo fosfina ou outra molécula desconhecida? Se for fosfina, como é que chegou ali – resultou da existência de vida? Ou de uma reacção química que desconhecemos? Se for resultado de vida, de que forma de vida estaríamos a falar? Uma parecida com o conceito de vida terrestre ou um organismo completamente diferente, dada a composição daquele planeta?

“Se for fosfina e se for vida, quer dizer que a vida é muito mais comum do que o que nós pensávamos. Se a vida consegue aparecer na Terra e em Vénus, ambientes tão diferentes, então quer dizer que a vida é inevitável e vai aparecer em qualquer sítio em que possa aparecer”, comentou a cientista portuguesa, que tem trabalhado sobre este marcador.

Um elogio ao artigo científico

Miguel Gonçalves, comentador da RTP sobre astronomia, comentou no Jornal 2 da RTP2 que o artigo publicado na Nature é “um artigo muito sincero, é um exemplo até de como fazer boa ciência. Mas isso não quer dizer que tenhamos provas extraordinárias para afirmações extraordinárias. Portanto, este é mais um ponto de partida do que um ponto de chegada”. Zita Martins, investigadora do Instituto Superior Técnico, confirma: “Estes resultados são muito interessantes e como o Miguel referiu, os autores foram muito cuidados na forma como escreveram o artigo e trataram os dados. É realmente um artigo muitíssimo bom mas temos de ter um pouquinho de cuidado a tirar conclusões sobre a existência de vida.”

Por ser um planeta extremamente quente, não é possível enviar instrumentos para estudá-lo no terreno. A detecção de fosfina foi, assim, feita à distância por uma equipa internacional de 15 cientistas de vários países, incluindo EUA, Reino Unido e Japão, através do telescópio James Clerk Maxwell Telescope (JCMT), situado no Hawai, e do radiotelescópio Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), localizado no Chile.

Apesar de hoje albergar um ambiente hostil, Vénus já poderá ter sido um planeta parecido com a Terra (e com Marte), com temperaturas bem mais amenas e água em estado líquido, factores favoráveis à existência de vida à superfície. Vénus, tal como o restante Universo desconhecido, continuará a suscitar a curiosidade e interesse dos cientistas.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!