Independente q.b. 

O que é, afinal, um órgão de comunicação social independente, como se legitima a sua reivindicação, como se comprova a sua validade? Existe uma escala, um critério, ou um formulário? O que têm em comum, por exemplo, o Fumaça e o Jornal Económico? E porque ambos reclamam, com as suas nuances, a mesma independência? 

 
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A pandemia expôs as fragilidades do sector dos media de uma forma que em poucos outros momentos da história recente se verificara. Por fim e fronte a um problema global, a maioria dos órgãos de comunicação social abandonou a postura típica, distante, e pouco solícita para, num discurso mais humilde, pedir directamente aos seus leitores que contribuam para o seu futuro. A forma como o fazem, regra geral, não é muito inovadora, muito menos são os argumentos ou, melhor dizendo, os adjectivos que sustentam cada apelo à contribuição. Navegando pela imprensa portuguesa em 3 ou 4 dos 10 ou 15 títulos vemos repetido o adjetivo independente. Se à superfície soa a padrão, o espanto surge pela diversidade de estruturas em que estas publicações assentam; uma dispersão que ao limite faz com que a palavra signifique tudo, e o seu contrário. 

Ser um media independente não é, propriamente, uma (boa) ideia nova. O seu revivalismo emerge numa situação de profunda crise do sector, não só a nível financeiro, e procura, arrisco a inferência, resgatar a confiança dos leitores que se foi perdendo à medida que os órgãos de comunicação se foram tornando cada vez mais, chamemos-lhe, intra-sistémicos. A proximidade dos órgãos de comunicação social e dos seus principais intervenientes à sociedade civil, nomeadamente através da rotação entre políticos e ex-políticos pelos painéis de comentário e entrevista, ou do financiamento da imprensa por grandes grupos económicos, provocou na cabeça dos leitores uma associação, legítima ou não, de que os media estavam umbilicalmente ligados a uma realidade que ia apodrecendo a olhos vistos. É mais fácil encontrar por aí acusações completamente infundadas do que réstias de esperança sobre a autonomia dos meios de comunicação social.  

E aqui emerge o ponto sobre o que é, afinal, um órgão de comunicação social independente, como se legitima a sua reivindicação, como se comprova a sua validade? Existe uma escala, um critério, ou um formulário? O que têm em comum, por exemplo o Fumaça, com o Jornal Económico? E porque ambos reclamam, com as suas nuances, a mesma independência? 

Em abono da verdade, “independente” também foi um adjectivo que no Shifter muito usámos mesmo sem compreender, mas perante a padronização desta classificação dos órgãos de comunicação social, e o perigo da banalização deste importante e significativo adjectivo, urge indagar sobre os seus limites. Pode um media reiterar a sua independência? Até que ponto? Foi ao ler o último livro de André Barata, e ao trocar ideias com o autor sobre ele, que esta questão me surgiu. Disse-me Barata, aludindo a [Hannah] Arendt, que só existe liberdade onde existe autonomia, e foi num détournement desta afirmação que se foi construindo o meu pensamento. 

Se equipararmos a independência dos media à sua liberdade, até quando e até onde podem os media reclamá-la? Os exemplos da história recente do panorama mediático português parecem-me interessantíssimos para esta análise, nomeadamente se refletirmos sobre a resiliência das redações em função das administrações, ou a dependência sistémica que certos títulos têm de certos grupos. Não pretendendo com isto fazer crítica sobre este ou aquele título; procuro,, à luz de uma reflexão sobre este termo da moda, propor uma nova visão humilde sobre independência, neste universo altamente complexo e intrincado, e especular sobre a relação semântica entre a reivindicação da independência e a sua existência real. 

Lembro-me de, no debate de lançamento do novo site do Shifter, no painel onde figurava Ricardo Ribeiro do Fumaça, António Castelo do QI News, Inês Rodrigues do Jornal Mapa e João Pedro Galveias da RTP, para além de mim e da Rita Pinto em representação do Shifter, concordarmos, mais ou menos, sobre a ideia de que media independente é aquele em que a redação detém os meios de produção. Se esta definição me parece justa e acertada, com o passar dos anos desta experiência individual e colectiva que é o Shifter, parece-me também cada vez mais curta. Não porque tenha sentido interferências de qualquer tipo, no meu trabalho ou no dos demais, mas porque me parece ignorar uma parte fundamental do fenómeno actual.

A independência definida nos termos acima propostos é, se quisermos, um desígnio auto-referencial, na medida em que ignora todas as contingências de um media que sejam alheios aos seus jornalistas. Aqui lembro algo que ouvi vezes sem conta durante a minha passagem pela Escola Superior de Comunicação Social: se uma árvore cair no meio de uma floresta e ninguém ver nem ouvir, a árvore caiu realmente?”. Esta é uma formulação clássica de um paradoxo filosófico e que nos era apresentado a nós, alunos de comunicação, como um determinante da nossa prática. Para estudiosos e praticantes da comunicação, só caem árvores à vista das pessoas, por muito que no abstracto se possa reconhecer e teorizar sobre a sua possibilidade de queda. É esta a lógica que justifica, de certa forma, a luta por uma audiência – um fenómeno que me parece particularmente pervertido à luz do estádio capitalista em que vivemos, próximo daquilo a que Jodi Dean chamou o Communicative Capitalism.

Num mundo acelerado e consumista, cada vez mais dominado por empresas tecnológicas monopolistas, com cada vez mais populistas no poder de estados soberanos e com uma cultura pop cada vez menos humana, o paradoxo da comunicação vê o seu corolário ameaçado. Como que se em matéria intelectual, e perante um universo social tão fragmentando, a formulação da existência à la Descartes fosse suficiente. Assim se pode explicar a substituição da vontade de querer mais leitores, pela especialização em nicho, e a criação de modelos jornalísticos ao limite quase independentes destes. Em qualquer um dos dois caminhos, uma coisa parece certa, o leitor – médio, habitante de um espaço público aqui figurativo – deixou de ser indispensável, a não ser que o formato das peças seja interativo ou que a sua posição seja subscrita pelo que se publica – numa lógica de eco, como se se procurasse eliminar a tensão de uma potencial discórdia.

Se é certo que existe um valor inegável, do ponto de vista do marketing, na especialização e no trabalho para nichos, não deixa de ser interessante pensar nos efeitos destas estratégias no espaço público pensado por Habermas – nomeadamente correlacionando essa ideia com os conhecidos filtros de bolha que vieram atomizar sociedades que se relacionam cada vez mais em redes sociais. Recuperando o tópico inicial do texto, é interessante perceber até que ponto é meritório reclamar independência de algo que não é autónomo? Ou até que ponto se deve reclamar a independência de algo que, por defeito ou feitio do modelo de negócio, depende de uma audiência que subscreve uma linha previsível? Ou até que ponto se é independente quando a prática depende de um financiamento extrínseco? Ao limite, será sequer possível ser-se independente no estádio social que vivemos? 

É certo que este adjectivo serve na maioria dos casos, como uma afirmação de um compromisso feito pela redação dos órgãos de comunicação social – e assim, tem tanto peso quanto mais próximo da redação for realmente escolhida e escrita esta palavra – mas não será a sua banalização um dos sintomas da crise do jornalismo? 

Recorro ao exemplo mais banal e quotidiano para ilustrar a problemática sem complicar mais o artigo. Na nossa vida pessoal, dizemos ter atingido a independência, quando saímos de casa dos nossos pais e, por nossa conta e risco, assumimos as despesas de uma habitação. Então, qual seria o efeito, para a nossa própria existência e maturação enquanto indivíduos, se começássemos a usar esse termo ainda antes? Na prática nada nos impede. Mas, no limite essa convicção ilusória reduziria o desassossego que enquanto somos dependentes nos motiva a querer deixar de o ser. É desse mesmo modo que me parece pouco sensato, num panorama mediático tão pouco desenvolvido, e num espaço público com tão poucas figuras autónomas que tanto se banalize a ideia de independência, mitigando uma tensão que até pode ser abonatória da prática. 

Nunca um meio que viva de financiamento externo e que não surja da carolice e do investimento pessoal dos que publicam, é realmente independente – e dificilmente este se torna sustentável. Geralmente esta definição de indepdência atenua-se sendo procedida de um descritivo que diga algo como “de grupos económicos e partidos políticos”, contudo, esta mesma justificação ignora a ideia de que as próprias condições de existência são uma forma de dependência e isso é especialmente importante num sector tão pobre. A verdade é que sem fontes de financiamento externo, sem grandes grupos económicos por trás ou sem associações filantrópicas, grande parte dos órgãos de comunicação social não existiam ou estavam severamente ameaçados – como de resto nos revelam a tempos. E se assim é porque não assumi-lo, procurando entre o léxico melhores palavras que descodificam o momento que cada título vive, e a ideia porque cada título se torna único. Talvez não seja tão promissor, mas será consideravelmente mais honesto. 

A verdade é que o sector do jornalismo é um sector extraordinariamente dependente e as mudanças que o panorama tecnológico têm vindo a acelerar não alteram em nada, para melhor, esta relação. O facto de as notícias terem um espaço cada vez menos próprio, torna os títulos dependentes, por exemplo, de um discurso que entre em linha com o privilegiado pelos algoritmos das redes sociais. Independentes serão os jornais no dia em que a maioria dos leitores se tornarem proactivos, até lá, façamos por cumprir os preceitos deontológicos da profissão. 

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