Como foi fazer uma revista usando apenas software livre

A ideia de fazer a revista do Shifter em software livre foi uma tendência natural que se pode traduzir numa mensagem simples: é realmente possível desenhar uma revista sem utilizar software proprietário, geralmente bastante caro. É sobre isso que escrevo hoje, no papel de Designer do projecto, em jeito de balanço sobre o primeiro número da revista e já apontando ao próximo.

Foto de Manuel Casanova/Shifter
 
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No Shifter, desde cedo que sabíamos mais ou menos aquilo que queríamos fazer mas aos poucos e poucos fomos descobrindo os métodos, técnicas e critérios que guiam o nosso trabalho e nos permitem ir melhorando. Foi esse o espírito que ditou o tempo que o projecto durou até aqui e toda a sua evolução – quer em forma quer em conteúdo. Paralela à vontade de experimentar no digital, houve sempre presente uma vontade de a relacionar com o mundo real e as nossas vivências. Assim, fazer uma revista física como aquelas que comprávamos para partilhar no escritório ou que aconselhávamos entre nós sempre foi mais do que uma ideia, uma meta. Queríamos fazê-lo bem, e quando sentíssemos que a qualidade do nosso produto assim o merecesse. Chegados a este ano, nem a pandemia travou o ímpeto de finalmente poder oferecer algo de que os nossos leitores possam usufruir desconectados do mundo tecnológico, onde quer e como quer que estejam.

No ano passado começámos por fazer uma experiência, a que chamámos número 0, de uma revista com um conceito diferente. Na altura pensámos que podia resultar fazer algo que reproduzisse os artigos do site num novo suporte mas ao ver a concretização acabámos por não ficar totalmente convencidos. Demos um passo atrás para estipular os passos seguintes. Repensámos o conceito da revista, do zero, e a partir daí traçámos o plano do que queríamos fazer. Um objecto físico, esteticamente aprazível, com conteúdo com um pendor intemporal, e que materializasse os valores do projecto. Como desde o início nos moveu a ideia de mostrar que era possível um grupo, na altura mais jovem, poder conquistar um espaço no panorama mediático de forma autónoma, sem qualquer incentivo externo, agora o desafio era, com o mesmo espírito, criar um objecto que, também de forma automática, materializasse as ideias acumuladas ao longo dos anos do projecto.

A ideia de fazer a revista em software livre foi uma tendência natural que se pode traduzir numa mensagem simples: é realmente possível desenhar uma revista sem utilizar software proprietário, geralmente bastante caro. É sobre isso que escrevo hoje, no papel de Designer do projecto, em jeito de balanço sobre o primeiro número da revista e já apontando ao próximo.

Se no nº0 da revista a ideia seria criar uma revista versátil, de edição simples e rápida e para isso havia recorrido ao Figma, permitindo a colaboração simultânea dos meus colegas, desta vez o desafio era maior e por isso o processo teve de ser repensado. A meta era fazer um produto graficamente mais trabalhado e o conjunto de ferramentas tinha de ser alargado. Como trabalho habitualmente em ambiente Ubuntu e com software livre foi com naturalidade que optei pelo Scribus na escolha de software principal. Antes de começar já sabia que era possível, graças à Ana Isabel Carvalho e ao Ricardo Lafuente, que editaram no passado a Libregaphics Magazine, inteiramente desenhada em software livre, como nos contaram na entrevista que aqui publicámos; portanto fazê-lo passado alguns anos era também uma forma de voltar a demonstrar essa possibilidade do software livre no universo editorial.

Posto isto, vamos ao que interessa. Uma série de considerações sobre todo este processo com base nas aprendizagens que fui fazendo.

Software Livre de fonte aberta num mundo fechado

Começo por apresentar o conjunto completo de ferramentas. Para a paginação e o design editorial propriamente dito usei, como referido, o Scribus, um software livre de paginação, que pode ser comparado ao Indesign. O aspecto deste programa é ligeiramente antiquado e a curva de aprendizagem para o utilizar é ligeiramente superior ao normal. Portanto, a primeira recomendação que faço é que depois de descarregares gratuitamente o programa o testes até à exaustão. Explora todos os botões, todos os detalhes, simula todas as possibilidades que possas querer explorar antes de pôr mãos à obra para que a meio do processo não descubras formas mais simples de fazer as coisas com as quais já perdeste muito tempo… à toa. Este foi um dos pontos em que devo confessar que falhei. Pela questão do tempo e por já ter usado o programa antes, achei que estava pronto para a aventura, isso fez com que ao final de uma semana a utilizar o programa percebesse que algumas das coisas tinham formas bem mais fáceis de se fazer. 

A segunda recomendação vem anexada à primeira. Depois de testar, neste tipo de programas um tudo ou nada mais complexos é importante que documentes minimamente os processos – mantém um caderno ao lado enquanto estiveres nos testes e aponta como chegaste aqui ou ali, porque vai chegar uma altura em que queres saber o caminho rapidamente e vais ter de andar a navegar entre menus e sub-menus.

Depois de testares o programa e de documentar os testes como deve ser, estás pronto para começar o projecto propriamente dito. Eu divido, constantemente, o meu processo em dois, literalmente. Uso um ficheiro para fazer as experimentações iniciais sem grande compromisso – nele uso diferentes fontes, tamanhos de fonte, espaçamentos, e começo a perceber o perfil que quero para o projecto. Quando estou mais ou menos confiante da quantidade de experiências feitas já com o resultado final a ganhar forma na mente, faço uma nova versão desse ficheiro em que estipulo os estilos do documento. Esta parte é extraordinariamente importante quando falamos do Scribus e de design editorial, e é bom que lhe dediques umas horas antes de passares à fase seguinte. Cria, pelo menos, os estilos-base para os caracteres (tipo de letra, tamanho, espaçamento horizontal) e para os parágrafos (espaçamento vertical, alinhamento, etc) – se quiseres fazer alterações em algum momento podes usar as bases como referência e criar novos estilos assim. 

Já que falamos em estilos e pré-definições, outra dica importante neste capítulo tem a ver com as cores – no design editorial trabalha-se no modo CMYK e portanto a maioria das cores que vais importar da web não estão totalmente optimizadas, habitua-te a desenvolver a tua própria paleta, de preferência sabendo já com que perfil de cor será impressa a tua revista/projeto. Isto faz com que evites perder tempo a converter cores no momento final ou que as cores do teu projecto fiquem entregues à sorte da conversão.

No que toca ao texto, vale a pena também avisar que a hifenização no Scribus é uma espécie de efeito que podes “aplicar” ou “retirar” de cada parágrafo, e que para utilizares correctamente deves através do Gestor de Recursos do próprio programa, fazer o download do dicionário português. Caso contrário o teu texto será todo hifenizado segundo regras da lingua pre-definida no programa.

Outro ponto a referir sobre o Scribus é que o programa só serve única e exclusivamente para a componente editorial do design – assim, qualquer outra alteração que queiras fazer, usa programas alternativos. Eu usei o GIMP para edição de bitmap, como recortar imagens, aplicar efeitos ou modificar cores – não é a opção idealíssima pois não tem o modo de cor referido mas cumpre bastante bem a função. Em alternativa podes usar, por exemplo, o Krita que já tem suporte sobre este modo de cor. Para editar vectores, apesar do Scribus até permitir fazê-lo, a escolha cai obviamente sobre o Inkscape, o programa mais completo de edição vetorial disponível.

Antes que me esqueça, e para os mais distraídos do design editorial, é fundamental no princípio do projecto definir as Master Pages, procura por esta opção no programa e configura-as com as margens (de preferência, mais uma vez, dadas pela gráfica onde vais imprimir o projecto). Desde modo garantes a coesão entre todas as páginas e, tal como nos estilos dos caracteres, se quiseres fazer alterações podes usá-las como base.

Em suma, e no que toca a dicas concretas sobre o Scribus enquanto ferramenta para processamento editorial, isto é o mais importante a saber. O resto vem de alguma experimentação, muitas horas de dedicação. Aproveito também para dizer que não há muitos tutoriais sobre este programa o que torna mais difícil desenrascar situações complicadas, ainda assim, o programa em si está bastante bem documentado o que permite perceber como funcionam as coisas e arranjar formas de contornar. Alerto-te também para o facto de apesar de ser um programa bastante estável, por trabalhar com documentos pesados – imagina toda uma revista com as imagens embutidas para não perderem qualidade – é normal que por vezes fique mais lento ou vá mesmo abaixo. Para te salvaguadares destas situações, faz como todos os designers experientes e vicia-te no ctrl+s ou noutro qualquer atalho que definas para gravar. O processo de gravação demora segundos e pode poupar horas, ainda que o programa tenha um modo de auto-gravação bastante completo e que, devemos dizer, nos safou pelo menos 1 vez ao longo da revista.

No geral são estes os pontos a levar para a segunda edição da revista. Aproveito também para dizer que embora a estrutura tenha sido criada em ambiente livre, todas as contribuições foram feitas com o software que mais apraz a cada um dos colaboradores, que nesta edição foram Serafim Mendes, Ricardo Santos e Los Pepes Studios. Mais do que uma questão dogmática, e quase totalitária, encaramos o recurso ao software livre com a naturalidade de quem não tem condições para pagar uma assinatura do software proprietário (por exemplo, da Adobe), e que por isso procura soluções mais em conta. E é essa a mensagem que queremos passar no final de contas.

Se precisares de alguma ajuda concreta, dizer-te também que estou disponível especialmente no Twitter, através do handle @joaogsr e que me podes mandar as tuas dúvidas a qualquer momento. Também na minha “transição” tive ajuda dos experientes utilizadores de Ubuntu e frequentemente pergunto coisas ao PedroPS, ou ao pessoal da Manufactura acima citado, e esse é um dos pontos fortes do software livre – tem em seu torno comunidades sempre dispostas a ajudar e a partilhar processos.

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