‘Tou só a ver: pseudociência, redes sociais e democracia

Uma das características mais absurdas, e portanto divertidas, e portanto difíceis de desmontar do populismo é o seu sentido desbragado de dizer com confiança o que outros, os sensatos, nem em sonhos ousariam pensar. É uma pesca de arrasto em rede fina, leva tudo adiante. Uns discordam de peito feito (nas redes sociais a democracia liberal jamais morreria), outros apoiam ou divulgam acriticamente (nas redes sociais a democracia liberal vai morrer), outros, a maioria, fica só a ver.

Foto de Mostafa Meraji via Unsplash, adaptada por Shifter
 
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Um dos requisitos fundamentais para vivermos em democracia é a existência de meia dúzia de verdades consensuais. A ciência ajuda-nos nisso. Com todas as insuficiências, felizmente assumidas, o método científico vai lavrando o terreno das coisas, arrancando factos, fazendo germinar mais dúvidas e ideias, organizando um corpo mutável, instável e poderoso daquilo a que um dia, com sorte, se poderá chamar conhecimento.

Fazer ciência é muito como namorar uma pessoa de quem se gosta: um processo lento de aproximação, uma reflexão constante, uma ponderação de prós e contras até que se decide dar o nó, colocar o anel e dizer que é uma união para a vida toda. Mesmo no “felizes para sempre” há, felizmente assumida, a possibilidade de uma ruptura, de um arrependimento, de um divórcio. Mas é verdade absoluta que, saídas do registo, com a papelada orientada, as pessoas queridas estão casadas.

Uma das características mais absurdas, e portanto divertidas, e portanto difíceis de desmontar do populismo é o seu sentido desbragado de dizer com confiança o que outros, os sensatos, nem em sonhos ousariam pensar. É uma pesca de arrasto em rede fina, leva tudo adiante. Uns discordam de peito feito (nas redes sociais a democracia liberal jamais morreria), outros apoiam ou divulgam acriticamente (nas redes sociais a democracia liberal vai morrer), outros, a maioria, fica só a ver.

‘Tou só a ver é, aliás, o chavão que dá mote ao sketch hilariante do criador de personagens cómicas, Pierre Zago. Nesse vídeo, o humorista move-se, digamos, exalando bazófia, e a sua confiança absoluta permite que explore espaços privados, incomode cidadãos incautos, sem que qualquer punição aconteça. As redes sociais são a estufa onde se celebra o tou só a ver, irmão gémeo do ainda-por-explorar tou só a perguntar.

O internauta populista parte para a sua quotidiana aventura desinformativa com um superpoder que lhe permite esquivar-se dos mais vis ataques: não afirma, interroga-se. E como perguntar não ofende, é fácil ver disseminar-se nas redes sociais o espírito inquisidor do ativista anti-máscaras, do herói anti-quarentena, do engraçadote anti-Graça Freitas (este último aprecia o trocadilho e a piadola idadista). Estas estirpes especiais do vírus do populismo são pouco mais do que fruta da época, ainda assim dignos de concatenamento.

Muito mais interessante do que estes pequenos focos de populismo anti-científico serão os momentos em que o seu fino reduto, depurado em texto arguto, escorre para dentro de jornais e revistas, como quem diz, a imprensa séria.

Pego no exemplo de Henrique Raposo, cronista do Expresso, que leio sempre. Creio que a mensagem de todos os textos que escreveu sobre a Covid-19 nos últimos 6 meses pode resumir-se assim: há uma pandemia; as pessoas estão a exagerar; os velhos já iam morrer de qualquer maneira; não matem a economia; a DGS é uma desgraça.

Ora, esta é uma mensagem com muita graça. Precisamos como pão para a boca de comentadores que digam qualquer coisa diferente, pensem de maneira original e estejam prontos para discutir, sem medo, as suas ideias. Este cronista colabora nessa tarefa imprescindível.

Acontece que, sem ser culpado disso, é nas omissões do seu discurso que se alicerçam as bases de uma onda populista anti-científica tão perigosa quanto a segunda onda da pandemia. É verdade que a esmagadora maioria das pessoas que morrem com o vírus têm comorbidades (o mesmo acontece com quase todas as doenças) ou uma idade avançada, mas também é cada vez mais claro que a infeção deixa marcas na saúde dos mais jovens, que os custos económicos de um “confinamento” compensam na poupança em morbimortalidade, que numa economia global e interligada não se justificou a manutenção da atividade económica regular em face do embate negativo externo (o caso da Suécia, cuja economia sofrerá no corrente ano uma contração de cerca de 5%).

A mesma hashtag que se pode encontrar nos textos de Henrique Raposo – #sairdecasa -, dá nome a um muito perigoso e popular grupo no Facebook, cuja consulta é imprópria para cardíacos. A tónica da página assenta no negacionismo da utilidade das máscaras, ou do distanciamento social, ou de muitas outras medidas e orientações emanadas pelas autoridades de saúde. São quase trinta mil pessoas em comunhão de falsas verdades, empunhando o sabre da revelação, articulando meia dúzias de ideias numa teia qualquer que promete explicar o interesse (oculto) de centenas de governos em ver a economia quebrar, o desemprego disparar e as pessoas abrandar a sua produtividade.

A grande muralha que nos separa do populismo é o respeito pelo conhecimento científico. E basta estar atento para perceber como são ténues os limites entre a defesa da liberdade individual e a apologia da conspiração e negacionismo. A ciência não é certa. É, pelo contrário, a arte da incerteza programada: perecível e frágil e lenta. Mas é o chão que pisamos, as certezas temporárias que nos reúnem numa sociedade com fundações partilhadas. Não há liberdade nenhuma num mundo em que se duvida da existência de uma pandemia, ou se duvida de que a Terra não é plana, ou se duvida da segurança e eficácia de vacinas.

De resto, 2021 poderá ser um ano determinante na resiliência das autoridades científicas, a quem deve exigir-se especial rigor, comunicação escorreita e normas claras. Dificílimo trabalho de que depende, ainda assim, em parte, a nossa frágil civilização humana.

A geopolítica da pandemia promete um jogo decadente, ao estilo da Guerra Fria. Esperemos não ver ferida de morte uma das intervenções de saúde pública que mais vidas salvou e mais recursos poupou: a vacina.

No início do ano de 2019, a maioria dos britânicos em idade adulta considerava que a sociedade estava “fragmentada”, 70% acreditava que a sociedade estava enviesada a favor dos mais ricos e dois terços não concordavam que o sistema político estivesse preocupado com eles. Numa sondagem do passado mês de agosto, 35% dos americanos inquiridos admitia não aceitar uma vacina para a Covid-19, mesmo que esta estivesse disponível gratuitamente e com o selo de aprovação da FDA (Food and Drug Administration).

A onda neoliberal, que arrasa a noção de comunidade, os valores cristãos, e o próprio tecido social e cultural, traz debaixo da asa da autodeterminação e da liberdade individual o espectro da desigualdade e da desconfiança.

O médico que antes curava transforma-se num inimigo, um tipo suspeito e arrogante. E a confiança transfere-se para figuras aparentemente amigáveis e acessíveis: a consultora menstrual, que nunca estudou medicina, e que determina a gestão da saúde íntima, o parto aquático, os malefícios da pílula, os benefícios da depilação com azeite; influencers que fazem posts interessantes no Instagram, e misturam a pseudociência com causas justas, como o anti-racismo ou o feminismo; esquemas em pirâmide que prometem dinheiro rápido: miúdos em mansões colossais com vista para o mar explicam-te que tirar um curso superior é coisa do passado. É uma sociedade à base de dieta de consumo leve, low carb. Tudo isto compõe um quadro cuja tela são as redes sociais.

Tempos perigosos, estes em que é fácil, tão fácil, tropeçar e enrolar os pés nos nossos próprios argumentos sagrados. Precisamos de política, de políticos e de políticas (nos dois sentidos). Construir coisas novas, semear esperança, plantar horizontes. Apenas a mudança real nos acordará do entorpecimento.

Nascesse hoje, talvez Pessoa adaptasse o seu Tabacaria ao frenesim moderno, num produto que se poderia imaginar assim:

Ecrã do meu telemóvel,

Do meu telemóvel de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de um feed cruzado constantemente por gente,

Para uma timeline acessível a todos os pensamentos…

Ou talvez Pessoa nem escrevesse poesia, embaraçado da sua riqueza interior, humilhado de si mesmo no corropio de tweets amargos, sempre discordantes só pelo prazer de discordar, e ficasse sereno, amarrado sobre (e ao) telemóvel, matutando de si para consigo: ‘tou só a ver, ‘tou só a ver.

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