Eleições históricas nos Açores: PS perde maioria absoluta

Dos 57 parlamentares a eleger para a Assembleia Legislativa Regional, o PS conseguiu eleger 25 garantindo a vitória formal das eleições, contudo, com a perda da maioria, a formação de Governo será, com certeza, motivo para acesa discussão política.

José Luís Ávila Silveira/Pedro Noronha e Costa
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Nos Açores, domingo foi dia de acto eleitoral para escolher a nova composição do parlamento regional. Em eleições, obviamente marcadas pela pandemia de Covid-19, o resultado foi histórico pondo termo a praticamente 20 anos de maioria do Partido Socialista na região. Com 39,13% dos votos, o Partido Socialista conseguiu apenas 25 mandatos, numas eleições com resultado no parlamento mais fragmentado desde a sua criação, em 1976, apesar da manutenção da tradicional divisão entre PS e PSD.

Dos 57 parlamentares a eleger para a Assembleia Legislativa Regional, o PS conseguiu eleger 25 garantindo a vitória formal das eleições, contudo, com a perda da maioria, a formação de Governo será, com certeza, motivo para acesa discussão política. Em segundo lugar nas eleições ficou o PSD, conseguindo menos 4 mandatos (21), tendo assim a possibilidade de engendrar uma coligação governativa com os seus parceiros à direita. Esta possibilidade foi instantaneamente debatida por quem acompanhava as eleições, especialmente pela possibilidade do partido Chega ser incluído — deixando por terra a ideia de cordão sanitário entre a direita e a extrema, representada pelo Chega. Contudo, foi o próprio André Ventura a recusar o cenário de coligação à direita, acusando o PSD de ser um partido de Sistema com o qual não se coligará.

O partido de André Ventura foi, de resto, um dos vencedores das eleições, depois do esforço do líder em centrar as atenções no arquipélago. O CH elegeu pela primeira vez 2 deputados para a Assembleia Regional. Curiosamente, como cabeça de lista pelo partido surgia Carlos Furtado, antigo vereador da Câmara de Lagoa pelo PSD: “Tenho a minha ideologia política e o meu modelo de sociedade que não se compadece com o modelo de sociedade que o actual Presidente do nosso partido, Rui Rio, que segue uma matriz mais de centro-esquerda do partido. Não pactuo dessa ideia e acho que já existem partidos suficientes na esquerda, não é preciso juntar a esses o PSD. Admito que o erro pode ter sido meu, porque talvez o PSD possa sempre ter sido um partido de centro ou de centro-esquerda, mas não vi o CHEGA! neste posicionamento e, como tal, achei que era a hora de sair, independentemente de ser para o CHEGA!, ou não. Mas foi o partido que, no fundo, defende valores que estão mais de acordo comigo”, anunciou o vereador à data da sua mudança de partido, citado pelo Correio dos Açores.

Também a Iniciativa Liberal, candidata pela primeira vez a estas eleições, conseguiu eleger um deputado ao parlamento dos Açores. Em sentido inverso, a CDU foi talvez a maior derrotada das eleições perdendo o deputado que havia eleito no anterior acto legislativo.

Com os resultado eleitorais a fugir, de certa forma, à norma, estas eleições nos Açores marcaram também um debate pouco comum em torno da região. A falta de informação sobre a região autónoma dos Açores, a tendência para só retratar a região como um destino turístico dos continentais ou estrangeiros, e a falta de uma estratégia coordenada de resposta às dificuldades daquela que é a região mais pobre do país, tornam os resultados da eleição mais difíceis de compreender traduzindo-se num sinal de alerta, por exemplo para meios de comunicação social, sobre a falta de atenção sobre aquela importante região. Pouco antes das eleições, de resto, o Fumaça publicou uma elucidativa entrevista com Fernando Diogo, sociólogo, professor na Universidade dos Açores, e investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, em que o investigador alertava para, em média, nos Açores a probabilidade de se ser pobre ser o dobro de no continente – um cenário que contrasta com o que habitualmente se vê debatido sobre aquele território insular.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!