Facebook responde (vagamente) a documentário da Netflix

No documento, entitulado "What 'The Social Dilemma' Gets Wrong", o Facebook começa por afirmar que constrói os seus produtos para oferecerem valor e não para serem aditivos.

Imagem Netflix
 
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O documentário The Social Dillema da Netflix pode não trazer novas informações reveladoras de uma realidade desconhecida para quem acompanha o universo das tecnológicas, especialmente das redes sociais. Contudo, é um dos primeiros produtos pop a alargar os ciclos por que circula esta perspectiva crítica sobre as redes sociais, transportando a ficção para o ecrã utilizando a história de uma família comum como vector. A crítica ganhou de tal forma tração que o Facebook se viu obrigado a responder em comunicado. A resposta surge depois de, do outro lado do espectro, alguns dedos também se apontarem na direção do documentário pela falta de representatividade das vozes ouvidas e por não dar eco aos críticos de base do Facebook, como os activistas pelos direitos digitais, ficando-se por ex-colaboradores arrependidos e pouco mais.

Num pdf publicado no site da empresa de Mark Zuckerberg, o Facebook elenca sete pontos que considera terem sido mal representados no documentário. No prenúncio da explicação de cada ponto, a empresa de Sillicon Valley diz que toda a narrativa do documentário estabelece as redes sociais como um bode expiatório para problemas sociais complexos, que lhe são alheios, e que o documentário falha em ouvir vozes de quem actualmente trabalha para estas tecnológicas, e em retratar os esforços actualmente feitos pelas empresas.

Feita esta explicação inicial, a empresa responsável pelo Facebook, Instagram e Whatsapp, prossegue, ponto por ponto, explicando o que, no seu entendimento, o documentário retrata de forma errada.

No documento, entitulado “What ‘The Social Dilemma’ Gets Wrong”, o Facebook começa por afirmar que constrói os seus produtos para oferecerem valor e não para serem aditivos. Neste ponto salienta as ferramentas de gestão de tempo que lançou recentemente, não desmentindo contudo a realidade de que as pessoas pode,, e ficam, efectivamente, viciadas no seu produto, apesar dessas ferramentas. A empresa diz ainda colaborar com especialistas em saúde mental e outras organizações interessadas sobre o tema para estudar permanentemente os impactos da sua aplicação nas pessoas.

O Dilema das Redes Sociais ou a sociedade da pós-realidade?

O segundo ponto dedica-se a refutar a ideia commumente aceite de que “se não pagas, és o produto” com que muitos definem a estratégia de monetização das redes sociais. Neste caso, a empresa de Zuckerberg sublinha o facto de não partilhar informações para rejeitar essa simplificação da fórmula. Ainda assim, a correção não vai além desse preciosismo.

O terceiro ponto é dedicado ao algoritmo. Nele, a equipa do Facebook diz-nos que ele não é “louco”, como descrito em The Social Dilemma, que é programado para optimização do serviço e que reencaminha os utilizadores para um dos seus vídeos promocionais que prometem explicar com palavras vãs e critérios subjectivos como funciona o seu algoritmo e como é desenhado para nos oferecer o conteúdo mais relevante, sem nunca explicar objectivamente como se define a relevância.

No quarto ponto, o Facebook diz que, ao contrário do que o documentário diz, tem feito melhorias para proteger a informação dos seus utilizadores em conformidade com o estipulado pelo regulador. A empresa diz ter todo o interesse em proteger a privacidade dos seus utilizadores, e especialmente as suas informações sensíveis, e que tem trabalho neste departamento. A explicação é, ainda assim, muito vaga, usando o exemplo das informações de saúde e do número de segurança social como informações que o Facebook não quer, deixando por imaginar as restantes que recolhe, trata mas não considera perigosas ou sensíveis.

O problema da polarização é o 5º a ser abordado no documento, e a explicação é a que estamos fartos de ouvir: que a polarização existia antes das redes sociais. Neste capítulo, o Facebook diz que tem feito esforços para diminuir conteúdo polarizador, mas uma utilização do Facebook regular mostra que não tem sido feito assim tanto com os conteúdos virais de teor populista e polarizador a sucederem dia após dia.

O 6º ponto é sobre as eleições dos Estados Unidos, um dos momentos em que toda a estrutura do Facebook se vê posta à prova. Neste ponto específico, a empresa diz ter aprendido em 2016, recordando o lançamento da Ad Library, onde ficam arquivados os anúncios políticos. Para além disso, o Facebook diz ter removido entre Março e Maio mais de 100 mil “pedaços de conteúdo” de Facebook e Instagram que violavam as políticas da empresa, resta saber quantos ainda assim ficaram por eliminar.

Por último, a empresa fala-nos sobre a questão da desinformação, num ponto que se mistura com discurso de ódio. A empresa rejeita que beneficie da circulação de informação falsa e destaca o facto de ter uma rede de fact-checkers com mais de 70 parceiros, e uma política de remoção regular de conteúdo que viole as regras da plataforma, em alguns casos mesmos antes dos conteúdos serem denunciados por utilizadores.

Em suma, o Facebook responde de forma vaga às críticas de The Social Dilemma, também elas um tanto ou quanto vagas. A empresa escuda-se, essencialmente, nas suas intenções para tirar o peso sobre algumas das consequências derivadas, directa ou indirectamente, do sistema gerado por produtos como o seu. Assim, a sua explicação incide mais sobre o que tenta fazer do que sobre o que resulta do que se sabe, como se pode encontrar em trabalhos de investigação ou análise crítica.

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