Comprimido vermelho e polo às riscas: como se cria um fascista na América

Os Proud Boys são receptivos a todos os que reconheçam que os “homens não são o problema” e que, resumidamente, glorifiquem o papel do homem empreendedor, da mulher empregada doméstica, e da necessidade absoluta de law & order. "Stand back and stand by" foram as palavras que Donald Trump lhes dedicou no 1º debate das presidenciais de 2020, uma mensagem que foi entendida pelo grupo como um sinal de legitimidade dado pelo Presidente, depois da polémica passagem do grupo altamente armado em Portland.

Ilustração Proud Boys
Ilustração de João Ribeiro
 
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Foi na semana passada, há não muito tempo, embora a memória não me permita precisar o dia, que depois de escrever no Twitter um post sobre a minha falta de capacidade de gestão do tempo, decidi procrastinar enquanto navegava pela Internet à procura de dicas sobre o tema. Primeiro no YouTube, deparando-me com os mesmos vídeos que já tinha visto 10 vezes, depois no Google onde se sucediam os mesmos conselhos mas por escrito, até que me lembrei de tentar no Reddit. Lá fala-se sobre tudo e com certeza em algum sub-reddit encontraria respostas para a minha pergunta. Realmente, foi mais fácil do que pensava – primeira pergunta, primeira resposta surpreendente e dou comigo lurking – isto é, lendo, sem interagir – numa comunidade que a minha perspicácia tardou em desvendar. Às perguntas sobre horários de rotina e outras coisas que tais, respondia-se quase sempre com a ideia do que um homem a sério” devia fazer e esse foi o ponto que converteu a minha curiosidade sobre rotinas num olha vigilante sobre o sítio, online entenda-se, onde tinha ido parar. Foi nesse momento que parei, olhei novamente para o nome do sub-reddit que desta vez li de forma diferente, decodificando cada uma das siglas de “askTRP” revelando o Ask The Red Pill.

Para quem não percebe de imediato a alusão, o comprimido vermelho é uma referência ao filme Matrix e à decisão entre as drageias vermelha e azul a que Neo é sujeito por Morpheus. Na mitologia do filme, se Neo escolher o azul, acordará no dia seguinte na cama a acreditar naquilo que quiser mesmo que tudo seja uma farsa, já o comprimido vermelho tem o poder de o despertar das maiores mentiras, confrontando-o com a realidade por mais dura que esta seja. É sobre esta referência cinematográfica que se constrói uma das narrativas de radicalização online mais dissimuladas mas mais bem sucedidas de sempre entre rapazes e jovens adultos. Facilmente aquilo que começa com uma pesquisa, tão simples como aquela sobre como orientarmos as nossas rotinas diárias, se torna numa oportunidade de pertença a um grupo com um sentido abstracto comum, o de um propósito na vida, e acaba por se tornar numa pertença a uma comunidade de radicalização. Exemplo deste processo é o do português identificado como João no artigo de 2017 da revista New Statesman; entrevistado por Amelia Tait, João revela que sem se aperceber deu por si a ceder a uma série de crenças, que agora reconhece não terem sentido, e atribui essa cedência à pressão de grupo que se gera online, relatando que quando alguém discorda do espírito do grupo é commumente humilhado ou as suas mensagens são simplesmente apagadas.

Mas se a metáfora se materializa na forma de um comprimido, o que leva os utilizadores a acharem que são pacientes, o capítulo predecessor desta história, ou o pensamento de base em que ela se eleva, é de igual interesse cultural ou fenomenológico. O comprimido vermelho é geralmente receitado aos chamados incels – celibatários involuntários – uma das comunidades mais peculiares online, que tem sido alvo de notícias por diversos motivos, nomeadamente por serem um berço de teorias da conspiração e de narrativas de radicalização, como esta de que falamos. Os Incels não se caracterizam como um movimento político, uma comunidade fechada, ou um colectivo organizado, mas os pontos de contacto com os fenómenos de radicalização são visíveis a olho nu. Nesse aspecto, aos incels tanto se receitam os black pills quanto os red pills. O segundo é a materialização de uma ideologia sexista baseada numa série de mitos sobre a relação entre homens e mulheres, e de concepções erradas sobre teorias como o feminismo e outras que tais. Já o primeiro, uma mistura deste com o comprimido azul, conferindo um carácter desilusório a toda a crença.

Em suma, é fácil encontrar nas enciclopédias para incels definições do feminismo como um problema para a sociedade, do casamento como uma forma legalizada de prostituição, e da “Scientific Black Pill” como uma abordagem científica à relação entre homens e mulheres assente na controversa psicologia evolucionista de onde resultam conclusões como a de que as mulheres são atraídas por homens com a chamada tríade negra (narcisistas, maquiavélicos, e psicopatas, ou de baixa empatia). É sobre este manancial de crenças e mitos, apresentados sobre a forma de facto, e muitas vezes recorrendo a grafismos próximos, por exemplo, da Wikipedia, que se espoleta todo fenómeno de radicalização. Na base, como observável, está uma desumanização do outro, entendido cada vez mais como um nódulo previsível e reactivo, mais do que autónomo e criativo, uma atitude que em circuito fechado rapidamente se torna na mais básica dessensibilização, até ao ponto em que qualquer divergência é entendida como uma ofensa à liberdade dos homens.

Paralelamente à sistematização desta teoria sobre o celibato involuntário, surgem dezenas de outras conspirações a dar-lhe tração e a darem um sentido político, e verdadeiramente conspirativo, a este grupo informal que rejeita associação com criminosos, mas com o qual se identificam alguns dos terroristas de extrema direita que nos Estados Unidos da América têm levado a cabo tiroteios e outras formas de violência radical. Entre estas conspirações paralelas aos Incels, que se disseminam especialmente em recantos da internet como o 4chan, ou o extinto PSL, e que até entre os próprios são por vezes descritas como “estapafúrdias” ou “nojentas”, o comprimido vermelho volta a ser o ingrediente secreto. Por, ao contrário do comprimido azul, o vermelho se associar a uma descoberta da verdade, a uma promessa de mudança, de processos e de resultados, é geralmente esta a via mais comum para a radicalização, capitalizando em cima de ideias como “o feminismo é tóxico, o sexismo é falso, os homens trabalham mais do que as mulheres e tudo o que os media dizem é mentira”. O caso mais paradigmático é o de Elliot Rodger que encetou um tiroteio matando 6 pessoas como vingança contra a sociedade por permanecer virgem aos 22 anos, como deixou explícito. Nem todos, felizmente, chegam a esse extremo, seguindo muitas vezes, contudo, em direção a outros grupos, onde as suas convicções desumanas são orgulhosamente reiteradas.

A facilitar a transição estão as narrativas coincidentes que muitas vezes se disfarçam sob a forma de hashtags e movimentos virais. Um dos que une o red pill aos Proud Boys é o da abstenção da masturbação, #NoFap para os primeiros, #NoWanks para os segundos, um movimento que teve grandes momentos de tração online, como o #NoNutNovember.

Entre os grupos de radicalização agregadores de redpilleds, destacam-se, os orgulhosos de polo de duas riscas, Proud Boys.

Os Proud Boys começaram como uma piada na revista de extrema direita Taki’s, pela voz de Gavin McIness, co-fundador do Voice of Montreal, projecto antecessor da Vice. Entretanto dedicado em full time a uma carreira como provocador de extrema direita, McInnes fundou o movimento de extrema direita oito anos depois da sair da revista, depois de lá deixado pistas durante a sua passagem. McIness levou para a política um tom que já havia experimentado editorialmente na Vice, em artigos como The VICE Guide to Picking Up Chicks, que com o tom cáustico que tornou a Vice numa espécie de ícone deixava bem claras algumas tiradas misóginas. Nesse lê-se, logo de princípio: “Even fat girls can do well if they put on high heels and wait until last call. Blacks get to fuck whomever they want and if they go to Scotland they get laid even more than that. Gays and lesbians get so laid they’re already bored with it. But what about the other 2.98756 billion of us? How do we get laid? Read on, motherfucker…“. Terá sido esse tom acutilante, e as suas ideias no geral, que mais tarde ditaram a sua saída da Vice, justificada com divergências criativas. No e-mail de despedida, McInnes prometia continuar a gozar e a ofender quem lhe apetecesse e assim continuou a fazer, num percurso que formou uma espécie de milícia armada. 

Saiu da Vice em desacordo com quem ficava – nomeadamente os investidores decididos a escalar a empresa – e criou a Rooster, uma agência de publicidade em Nova Iorque que o manteve debaixo do radar. Em 2016, foi depois de se afastar da Rooster por um artigo transfóbico publicado na plataforma Thought Catalog, que McInnes lançou as bases para a fundação dos Proud Boys através de presenças no programa Red Eye da Fox News ou dos directos no The Anthony Cumia Network, em que ia expressando as suas ideias, ilustradas com a figura da mulher dona de casa e do homem provedor de sustento.

Gavin McInnes juntou à hiper-masculinidade que já transbordava dos artigos que ia escrevendo para a Vice, uma forma hiperbolizada de conservadorismo político, a que chama orgulhosamente de “chauvinismo ocidental”. E, tal como Trump, parte da ideia de tornar, neste caso os homens, great again, para criar uma comunidade que aponta ao outro sem empatia nem humanidade, enquanto se embebeda, literal e figurativamente, nas suas crenças. Foi a este grupo que Trump aludiu no 1º debate das presidenciais de 2020, depois da sua passagem por Portland os ter voltado a trazer para o mainstream mediático. Vejamos quem são e o que os caracteriza para além das nuances aportadas por um dos seus fundadores, que acabou por sair do grupo em 2018, depois de o The Guardian revelar que o FBI tinha categorizado o grupo como tendo relações com o white nationalism.

Tal como as teorias da conspiração, os Proud Boys centram o seu potencial agregador na subjectividade com que definem as suas linhas. Ao criar critérios suficientemente ambíguos, o grupo de chauvinistas ocidentais que não pede desculpa pela criação do mundo moderno” (como dizem numa das suas frases de campanha) torna-se sedutor para uma série de pessoas descontentes com o status quo, que não medem as consequências da política feita nestes termos, desumanizadoras, maniqueísticas, confrontacionais. Resumidamente, fascistas.

Assim se explica que apesar do carácter radicalmente conservador o grupo consiga atrair membros com diversas identidades. Os Proud Boys são receptivos a todos os que reconheçam que os “homens não são o problema” e que, resumidamente, glorifiquem o papel do homem empreendedor, da mulher empregada doméstica, e da necessidade absoluta de law & order. E mesmo o seu processo de recrutamento de base se revela quase caricatural, como mostram vídeos online. O candidato aos Proud Boys deve repetir o juramento ao chauvinismo ocidental, e a seguir dizer 5 marcas de cereais de pequeno-almoço enquanto é socado no abdómen pelos seus colegas, para aceder ao grupo. É deste modo que crescem as bases de um grupo, cuja subida na hierarquia depende da disponibilidade para o sacrifício e a violência. Para subir na escala os membros devem tatuar o nome do grupo e/ou participar em acções violentas contra antifas. E desde 2016 as suas acções já fizeram com que figurassem na lista da Southern Poverty Law Center, como um grupo de ódio e propaganda extremista. Facebook, Instagram, Twitter e Youtube baniram todo o conteúdo do grupo – ou pelo menos o que conseguiram identificar.

Apesar deste preocupante culto da violência fazer parte da pauta ideológica do grupo, as dinâmicas internas não são tão belicistas como a sua face externa – e talvez seja esse um dos pontos que explicam o seu sucesso entre demografias tão diferentes. Nos encontros de Proud Boys é comum encontrar testemunhos sobre horas passadas simplesmente a beber ou a fazer memes quasi-fascistas. No vídeo do All Gas No Brakes, o espírito satírico do repórter, evidencia com reportagens este fenómeno:

O cripto-fascismo, em forma de memes e simbologias rebuscadas, sai às ruas em acções coordenadas quando na sua retórica vêem ameaçada a sua muito adorada lei e ordem. Armados, provavelmente com respaldo legal, os Proud Boys são presença frequente em forma de contra-manifestação sempre que alguma social sai à rua – em casos recentes vimos os confronto entre estes e manifestantes do movimento BLM. Segundo um dos seus actuais líderes, Enrique Tarrio, as suas saídas são tácticas e coordenadas em contactos pontuais com a polícia, embora na prática sejam uma milícia popular, algo nos antípodas da legalidade em qualquer democracia, que se vê legitimada nas palavras do actual presidente Donald Trump.

“Stand back and stand by” foram as palavras que Donald Trump dedicou aos Proud Boys e que serviram de rejubilo aos seus membros organizados em dezenas de grupos, muitos deles públicos e visíveis como os de Telegram. A mensagem foi entendida pelo grupo como um sinal de legitimidade dado pelo Presidente, depois da polémica passagem do grupo altamente armado em Portland. No rally na cidade do estado de Oregon, foram vários os momentos em que os rapazes de preto e amarelo revelaram a sua verdadeira faceta não merecendo, ainda assim, o repúdio do mais alto representante institucional dos EUA que insiste em equipará-los aos Antifa – ainda que formalmente, nos EUA, não exista uma organização antifa.

Com armas automáticas, granadas de fumo, coletes à prova de bala e caras tapadas, os Proud Boys foram para as ruas de Portland pedindo à polícia que decretasse emergência nacional e liberasse o uso de violência; nos seus canais internos, como o de Telegram, circularam inclusive vídeos onde membros dos Proud Boys avisavam ironicamente antifas que “se não saíssem da estrada, os carros podiam não conseguir parar” — uma demonstração que não deixa dúvidas da tendência do grupo para banalizar a violência e a justiça popular em prol do seu ideário político e contra aqueles que acusam de ser violentos, algo comum nas ideologias de inspiração fascista.

E se essa tendência fascista do grupo se torna cada vez mais clara, também as reações tendem a ser mais assertivas. A Fred Perry anunciou recentemente que ia descontinuar o polo preto de riscas amarelas que foi cooptado pelo grupo como indumentária oficial, num movimento único da marca que se pretende distanciar deste grupo de extrema direita. Em resposta, os membros dos Proud Boys UK garantiram ter um carregamento de polos prontos a enviar para a América. Num outro movimento de reação, desta vez online, foi a hashtag #ProudBoys a ser completamente invadida com fotografias que desafiam o estereótipo do que é um Rapaz Orgulhoso (Proud Boy), mostrando frequentemente casais homossexuais felizes e orgulhosos dessa felicidade. No meio disto tudo é provável que o ataque à rede social, apelidado pelo grupo de uma ofensiva sobre a sua liberdade de expressão, dê início a mais um debate online assente no mito do homem oprimido obrigado a pedir desculpa pelos seus antepassados que tanto apoquenta os rapazes orgulhosos.

Em síntese, a história deste grupo mostra, mais do que as formalidades de um movimento de extrema direita, as vulnerabilidades da sociedade como um todo, e a forma como simples buscas, por vezes por um sentido para a vida, podem acabar por se revelar em perversos processos de radicalização encapotada. Das estratégias para ser um homem de sucesso até à desumanização das mulheres, da confiança cega que um homem deve ter à dessensibilização por completo face ao que o outro possa sentir, da obsessão pela lei e pela ordem até à justiça pelas próprias mãos, parece ser só uma banal questão de orgulho. E tal como noutros tempos se revelou, na base de todos os sistemas autoritários e de todos os regimes tóxicos, está a banalização do mal, que nestes grupos circula entre memes e se atira entre arrotos de cerveja.

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