Bandcamp e o foco nos artistas: “fiel aos princípios básicos de ser uma plataforma para criadores”

Com a pandemia, o Bandcamp decidiu que até ao final do ano, iria suspender as suas taxas durante a primeira sexta-feira de cada mês, nas chamadas Bandcamp Fridays, o que significa que ao comprar qualquer produto do artista, 100% do valor de compra vai para o seu bolso. Falámos com Darksunn, da Monster Jinx, sobre a plataforma que melhor representa os artistas.

 
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O modelo de negócio da grande maioria dos serviços de streaming é bastante simples: o utilizador tem à sua disposição (quase) toda a música alguma vez criada, de forma gratuita (em alguns casos) e, caso deseje, pode optar por um serviço pago para ter direito a algumas vantagens que os planos gratuitos não têm. Mas na maioria destes modelos falta contemplar um sujeito extremamente importante: o artista. Como sabemos, não existem “almoços grátis” e portanto, no meio desta transação, o artista que criou a música que o consumidor ouve é quem sai prejudicado, recebendo entre $0.003 e $0.006 por cada stream, consoante o tipo de subscrição de cada utilizador e outras variáveis que dependem de serviço para serviço.

Isto acontece porque os serviços de streaming comuns têm um modelo de negócios focado no consumidor. Mas existe uma alternativa viável e que procura precisamente colocar o artista como o foco principal do seu modelo de actuação.

A plataforma Bandcamp, criada em 2007, procura mudar o paradigma da música em streaming e dar o poder de volta aos artistas. O Bandcamp continua a ser uma plataforma em que os utilizadores podem ouvir música de forma gratuita, no entanto, o que a distingue das restantes é que cada artista tem uma página sua, com liberdade total para a sua customização e para além disto, pode vender versões digitais dos seus projetos ao preço que desejar (de 0€ a 1000€, o céu é o limite) e merchandise, sejam álbuns físicos ou peças de roupa. A única coisa que a plataforma pede em troco de tudo isto é uma taxa de entre 10 e 15 % por cada transação para poder continuar a sua missão.

Para além disto, enquanto que para colocar música nas plataformas de streaming, é necessário recorrer a um serviço externo muitas vezes pago, no caso do Bandcamp, qualquer indivíduo pode criar uma página de artista e publicar aquilo que produz, sem qualquer pagamento envolvido e sem qualquer limite de uploads.

A cereja no topo do bolo é a preocupação constante que a empresa tem para com os seus artistas. Com a pandemia, o Bandcamp decidiu que até ao final do presente ano, iria suspender as suas taxas durante a primeira sexta-feira de cada mês, nas chamadas Bandcamp Fridays, o que significa que ao comprar qualquer produto do artista, 100% do valor de compra vai para o seu bolso. Esta abordagem é um tanto diferente da abordagem seguida pelo CEO do Spotify que em agosto declarou que os artistas “…não podem gravar música uma vez de 3 ou de 4 em 4 anos e pensar que é suficiente.”

Para além disto, o amor pela música está no cerne do ethos da empresa. O Bandcamp escreve diariamente numa espécie de blog sobre os lançamentos mais recentes da sua plataforma — num artigo publicado em setembro, mencionaram alguns artistas de hip-hop portugueses, como por exemplo Keso, Chico da Tina ou Zé Menos, no âmbito de uma peça sobre a “exuberante” música do género que nos chega do norte do país.

De forma a enriquecer este testemunho resolvemos falar com Darksunn, produtor português e Presidente da editora portuguesa independente Monster Jinx, um coletivo artístico que tem por base a distribuição gratuita de música:

Consideras a forma de funcionamento do Bandcamp uma clara alternativa ao modelo de plataformas como o Spotify?

Sim, porque se foca na venda e não no stream – o stream é uma pequena parcela que existe na plataforma. E a sua percentagem em cada venda é a mais justa de qualquer plataforma mainstream neste momento.

Quais são as principais diferenças na relação entre artista e plataforma?

Comparativamente com as principais plataformas de streaming, o Bandcamp posiciona-se como o soundcloud no início: zero intermediários no processo de colocares música no sistema. Logo de seguida, permite-te não só escolheres valores para o download pago, como podes ter sistemas tais como pay-what-you-want, logo à partida. Permite também contas de Label, fundamentais para labels independentes com a Monster Jinx. Tens aí sistemas de subscrição – à la Patreon – e a possibilidade de venderes merch ou outros produtos físicos. Isto num sistema completo, com um player que podes incluir num website/blog, que não te pede dinheiro nenhum à partida. Continua fiel aos princípios básicos de ser uma plataforma para criadores, tal como numa era longínqua o Soundcloud foi (sem a parte da possibilidade de venda).

Ainda que o Bandcamp seja uma plataforma com menos popularidade que as demais, continua a justificar uma aposta dos músicos independentes. Porquê?

Essencialmente por dois aspectos, na minha opinião: a comunidade à volta; e o facto de ser um sistema direto, sem intermediários e all-in-one (podes vender, podes colocar para download gratuito, podes vender produto físico, podes vender merch, tudo num único sítio, com basicamente o mesmo formato visual, seja para ti seja para o Drake). E podemos acrescentar o 3º aspecto: a parte da percentagem retirada ser a mais baixa.

O que, na tua opinião, falta à plataforma para se tornar mais mainstream?

Honestamente, gosto do Bandcamp conforme está. Talvez como utilizador da parte criativa, gostava de mais algumas integrações – por exemplo, share para as stories de Instagram. A questão da possibilidade de criares playlists como utilizador também é um tópico levantado muitas vezes, mas eu não utilizo o Bandcamp como plataforma de streaming, mas sim de descoberta/compra de música.

Achas que o modelo do Bandcamp pode ser replicado ou que, mais importante que isso, é importante mudar o paradigma da forma como se ouve música dando mais ênfase ao artista?

O consumo de música é cada vez mais sinónimo de comodidade. Queres o mínimo de esforço para ouvires música. Daí a explosão da cultura de single em detrimento da cultura de álbum. Ao mesmo tempo, a tua comodidade enquanto ouvinte leva a que os artistas – que tu agora consegues consumir por uma mensalidade minimalista – sejam mal pagos. Isto, numa esfera de pequeno artista, é brutal, para não dizer fatal, para quem quer conseguir o sonho de viver da música. Houve um tweet em tempos, do J-Live, produtor/baterista norte-americano, onde ele dizia que 500 7” vendidos eram equivalentes a 1 milhão de plays no Spotify a nível monetário. O modelo do Bandcamp pode obviamente ser replicado, porque neste momento é essencial que quem consome música saiba que a forma mais directa de apoiar qualquer artista é comprar a sua música. 1€ dado por uma faixa no Bandcamp vai, na sua grande percentagem, para o artista. 1 play no Spotify, para um artista independente sem acordos por detrás das cortinas, equivale a cerca de 0,006€. É uma conta fácil.

A ideia de comunidade, o foco em projetos que não singles, a venda direta, tudo isso são peças fundamentais para termos uma comunidade musical diversificada e forte. O Bandcamp representa isso desde 2007 e, espero, que o represente por mais anos.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!