E se um computador coubesse dentro de um teclado?

E se o teclado fosse tudo aquilo que precisarias de transportar de um lado para o outro? Apresentamos-te o Raspberry Pi 400.

Foto via Raspberry Pi
 
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Ainda esta semana, a Apple apresentou uma nova versão do seu Mac Mini, a pequena caixa que tem um computador lá dentro e que apenas precisa de ser ligada a um monitor, rato e teclado para ganhar utilidade. Quando foi apresentado originalmente, em 2005, o Mac Mini foi inovador pelo seu formato; os desktop da altura vinham sempre acompanhados de uma torre alta que era tudo menos compactos.

Todavia, se a Apple, principalmente na era de Jobs, apresentou uma variedade de produtos disruptivos, nos últimos anos tem-se focado em amadurecer o seu actual portfólio. Aliás, no contexto geral da indústria, parece que todas as empresas perderam a sua capacidade de inovar, dando a ideia de que tudo o que era possível criar em tecnologia já foi inventado. Mas essa inovação continua a existir; precisamos é de procurá-la fora deste mundo universo de desenvolvimento que tem como grande objectivo o lucro, no caso da Apple, daquela que já é a empresa mais valiosa de todo o mundo.

Um exemplo alternativo é a Raspberry Pi Foundation é uma organização sem fins lucrativos britânica cujo objectivo é “colocar o poder da computação e da fabricação digital nas mãos das pessoas por todos o mundo”. Esta fundação olha para a tecnologia como uma ferramenta e não como um meio para fazer dinheiro. O produto mais popular da Raspberry Pi é o seu módulo composto por um processador, uma RAM e algumas portas que, visto de fora, não será aquilo que associamos a um computador, apesar de ter todos os componentes básicos que definem um. Com o Raspberry Pi 4, a quarta geração desse módulo, é possível ter um verdadeiro computador por cerca de 40 euros, capaz de funcionar com um monitor 4K externo, um teclado e um rato (a Raspberry Pi tem os seus próprios teclados e ratos, mas permite utilizar qualquer um). Para operar a máquina, o utilizador pode recorrer ao próprio Raspberry Pi OS como ao popular Ubuntu, ou um outro sistema operativo livre.

O Raspberry Pi 4 (imagem via Raspberry Pi)

Para além dos módulos acima referidos, a Raspberry Pi dedica-se a vender separadamente outros componentes para que possas criar e personalizar o teu próprio computador – como camaras ou antenas wireless – de modo a, cooperativamente, incitar a uma subversão da tradição sobre o que é um computador.

O último produto desenvolvido pela Fundação é disso um exemplo paradigmático. O Raspberry Pi 4 é um computador  dentro de um teclado. O Raspberry Pi 400é um pequeno teclado com as portas que habitualmente um computador tem, e que se apresenta como uma solução ultra-versátil e ultra-portátil de um computador. Para o utilizar, tal como aos outros modelos, basta ligar a um monitor de qualquer tipo.

Com um processador 64-bit de quatro núcleos, 4 GB de memória RAM, portas USB e micro HDMI, suporte para dois monitores 4K externos, entrada para cartões MicroSD, ligação sem fios à internet, Bluetooth 5.0 e é capaz de reproduzir vídeo 4K, este computador não serve para as tarefas mais exigentes em termos de processamento e memória mas permite uma utilização básica, por exemplo de aplicações web, capaz de surprir as necessidades de muitos utilizadores. Outro ponto importante é o preço. A versão mais simples do kit custa cerca de 70 euros. Já o kit completo, que inclui um rato, um cabo micro HDMI, um cartão MicroSD e ainda um guia para iniciantes do universo Raspberry Pi, fica a pouco mais que 100 euros, podendo ser encomendado em Portugal unicamente através desta loja.

O Raspberry Pi 400 (imagem via Raspberry Pi)

O Raspberry Pi 400 é um produto inovador e bem interessante. Mais: tem um preço acessível e a promessa de não se tornar obsoleto tão cedo. A Raspberry Pi Foundation escreve que irá continuar a produzir este teclado até Janeiro de 2026 – isso significa seis anos de vida útil. É curioso notar que apesar do carácter único deste Raspberry Pi 400, o produto não teve a atenção mediática que um produto da Apple ou de outra fabricante captaria – no YouTube, existem vários vídeos sobre este teclado mas nenhum nos principais canais de unboxing e análise de tecnologia. O Raspberry Pi 400 é uma ferramenta de tecnologia inovadora, acessível e contra os ciclos de obsolescência programada.

A fundação é bastante conhecida de quem se dedica à experimentação tecnológica, de hackers, de interessantes ou defensores dos direitos digitais ou até de quem usa como plataforma de streaming ligada a uma tv, mas, provavelmente pelo seu mais baixo investimento em marketing e a ausência das espectaculares apresentações continua de fora do radar dos habituais boletins tecnológicos, um sinal claro da força das narrativas dominantes neste sector.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!