Uma democracia falhada

Os contrastes entre maiorias sociais e eleitorais não são a causa, mas apenas o sintoma mais visível de uma total falência do sistema político norte-americano.

Jonathan Simcoe / Unsplash (alterada)
 
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Os resultados provisórios sugerem que Joe Biden venceu a eleição presidencial contra Donald Trump, como a grande maioria das sondagens apontavam, num contexto de pandemia, recessão e tumultos sociais. Biden tornou-se o terceiro challenger a derrotar um presidente com um mandato completo (numa eleição “de dois candidatos”), desde 1932. No entanto, ao contrário de Franklin Roosevelt e Ronald Reagan, não assistimos a uma total reviravolta política em que um candidato venceu mais de 40 estados. Este fenómeno resulta essencialmente de um sistema político completamente falido, e naturalmente de erros e acertos de ambas as campanhas.

Resultado oposto, a mesma doença

Principalmente a partir da derrota de Hillary Clinton em 2016, o colégio eleitoral tem sido frequentemente apontado como um dos principais problemas do sistema eleitoral norte-americano. Apesar das imperfeições de um mecanismo criado para manter o equilíbrio de poder entre estados do Norte e do Sul (esclavagistas), este replicou maiorias sociais por mais de 100 anos. Os contrastes entre maiorias sociais e eleitorais não são a causa, mas apenas o sintoma mais visível de uma total falência do sistema político norte-americano.

Numa época de alta abstenção, as eleições presidenciais têm-se tornado gradualmente numa competição de mobilizar de bases eleitorais existentes em detrimento de convencer comunidades, sendo especialmente notório nos resultados da Georgia. O Partido Democrata provavelmente irá vencer este estado pela primeira vez em 30 anos. Biden inverteu uma vantagem de 5 pontos de Trump em 2016, ganhando exatamente os mesmos counties que Hillary Clinton (vencendo menos counties que Obama). Uma vitória histórica que se deveu essencialmente ao reforço do voto democrata em centros urbanos.

Atualmente, existe evidência suficiente para garantir que não há estados predominantemente Republicanos/Democratas, mas sim estados maioritariamente rurais (Republicanos) ou urbanos (Democratas). É bastante fácil e tentador argumentar que tais discrepâncias são essencialmente reflexo de diferenças ideológicas, mas a realidade aparenta ser mais complexa: a Flórida aprovou em referendo (maioria de 60%) um salário mínimo de 15 dólares/hora enquanto rejeitou Biden que incluía tal proposta no seu programa; embora maioritariamente democratas, os eleitores da Califórnia decidiram manter o trabalhadores da Uber e de outras plataformas na precariedade. Para além disso, uma recente sondagem mostra que a esmagadora maioria dos norte-americanos são a favor de um serviço universal de saúde, bandeira política de Bernie Sanders. A escolha do candidato presidencial tem-se tornado num exercício extra-ideológico, fazendo parte da identidade de uma comunidade.

Figura 1: Resultado eleitoral (2016) áreas urbanas vs. rurais. Fonte: The Economist

There is no such thing as a group called minorities

Para surpresa de muitos, Trump possivelmente será o candidato Republicano com a maior percentagem de votos de eleitores “não brancos” desde 1960, tendo sido decisivo para as suas vitórias na Flórida e Texas em particular. Campanhas eleitorais e analistas insistem em agregar várias comunidades dispersas geograficamente num monogrupo, assumindo que detêm uma visão semelhante sobre o estado da nação. Geralmente, os eleitores decidem (em quem) votar com base em experiências e expectativas concretas, sejam estas segurança publica ou desemprego; as várias comunidades hispânicas e negras não são exceção. No Sudoeste norte-americano, Trump venceu apenas um de três estados em que mais de 30% da população é hispânica (Texas), estado que teve uma performance económica significativamente melhor que os restantes desde da crise de 2008.

Figura 2: Crescimento económico 2019 vs. 2008 nos estados do Sudoeste mais disputados.

Mesmo não sendo responsabilidade de Trump, vários grupos historicamente desfavorecidos beneficiaram de um período de relativa prosperidade económica nos últimos anos, até ao surgimento da pandemia. Por mais abjetos que sejam os comentários do presidente, grande parte dos norte-americanos receberam de forma inédita 1,200 dólares, em resposta ao covid-19. Ignorar a conjuntura, o impacto de tais medidas e focar-se essencialmente do racismo e xenofobia verbais do presidente um privilégio de classe de uma pequena minoria.

Lições de um demagogo em tempos de pandemia

Dada a pequena margem entre os dois candidatos, parece evidente que a pandemia e suas consequências negaram a reeleição a Trump. Contudo, a eleição esteve longe de ter sido um referendo sobre a competência do presidente em controlar o vírus. De acordo com uma sondagem à boca da urna, apenas 17% dos eleitores classificaram o coronavírus como o principal motivo de decisão do seu voto, atrás de igualdade racial (20%) e da economia (35%). Ao desvalorizar a pandemia desde o primeiro dia e passar o ónus do seu controlo para governadores e vice-presidente, Trump criou uma narrativa que o protegeu politicamente das mais de 240 mil mortes ocorridas. Ao contrário da maioria dos líderes europeus, o presidente norte-americano não se propôs a salvar vidas a qualquer custo económico, sendo mais difícil imputar-lhe tal responsabilidade.

Figura 3: Tema principal na decisão de voto. Fonte: Edison Research e New York Times.

Num país com um estado social frágil e sem um segundo estímulo económico emergencial à vista, Trump criou um ambiente em que uma boa parte da população vê um eventual confinamento como algo ainda mais letal que o vírus. O executivo legitima(va) constantemente o comum desejo individual de ignorar riscos de saúde pública e retomar à normalidade social. O sucesso desta tática vai além-fronteiras: parte da população brasileira ignorou o vírus durante meses e Bolsonaro continua firme nos estudos de opinião. Simultaneamente, o país passou três meses consecutivos com uma média superior a 900 mortes diárias, registando um total de mortes quatro vezes superior ao total de homicídios em 2019.

Anos de imobilismo

Ao contrário das eleições posteriores a grandes crises económicas (1929 e 2008), o Partido Democrata não consegue tomar controlo do Senado. As primeiras reações mostram Wall Street satisfeito com a vitória de Biden, com o partido Republicano a limitar a sua ação política. Esta combinação parece agradar ao establishment de ambos os partidos e talvez justifique estes não terem chegado a um acordo para um segundo programa de assistência económica em setembro.

Por um lado, os Republicanos deixam de ter o incomodo de apoiar um presidente protecionista; passam a responsabilidade de gestão de uma recessão e pandemia para a oposição durante quatro anos; enquanto alimentam a narrativa de uma eleição roubada, desviando a atenção para o facto de serem o partido mais beneficiado com o sistema eleitoral atual (colégio eleitoral). Por outro lado, a administração Democrata tem no Senado a justificação para não cumprir as propostas mais radicais do seu programa eleitoral como subir o salário mínimo para 15 dólares/hora; 2 triliões de dólares em investimentos verdes; e tornar o ensino superior gratuito para grupos sociais específicos. No discurso de vitória, o presidente-eleito Biden prometeu restaurar a alma da nação, um espiritualismo político que faz lembrar o lema do príncipe de Falconeri: “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.

Texto de Guilherme Rodrigues

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