GameStop: os meios certos, para os fins errados

Foram feitas comparações infundadas entre o movimento ativista Occupy Wall Street e um conjunto de indivíduos (insiders e outsiders) a tentar lucrar, rapidamente, via investimentos financeiros. Porém, o GameStop-gate traz poucas ou nenhumas novidades sobre a organização económico-social em que vivemos.

 
O recente caso financeiro em torno da empresa GameStop puxou Wall Street para o debate público, como não era visto desde 2009. À primeira vista é nos apresentada uma batalha espontânea entre David e Golias. Um grupo de classes populares organizadas num fórum online (wallstreetbets, subgrupo da rede social Reddit), que derrotou Wall Street no seu próprio terreno. Rapidamente foram feitas comparações infundadas entre o movimento ativista Occupy Wall Street e um conjunto de indivíduos (insiders e outsiders) a tentar lucrar, rapidamente, via investimentos financeiros. Porém, o GameStop-gate traz poucas ou nenhumas novidades sobre a organização económico-social em que vivemos. Nos últimos anos, milhões de indivíduos têm começado a investir a título pessoal, a partir dos seus computadores e smartphones. As criptomoedas, como a Bitcoin, e ações da Tesla, são exemplos emblemáticos desse fenómeno. O próprio wallstrettbets foi fundado em 2012. Para além disso, o poder de pequenos investidores em “manipular” o preço de ações, também já era conhecido. Em maio de 2020, a empresa Hertz declarou falência, causando uma queda abrupta na sua cotação em bolsa. Semanas depois, a ação da Hertz valorizou cerca de 900%, movimento maioritariamente justificado pela compra de investidores individuais, através da plataforma de trading Robinhood. Por fim, os riscos sociais associados à desregulação e “democratização dos mercados financeiros”, não são uma novidade do caso GameStop. Em junho de 2020, o trágico suicídio de um jovem investidor, alegadamente por incompreensão das suas aplicações financeiras, intensificou o debate sobre a regulação e perigos das plataformas de trading não profissional. Do ponto de vista estrutural, a disputa entre Redditors e Wall Street, apenas traz à tona as consequências de décadas de financeirização na organização das sociedades em que vivemos. Uma sociedade de microcapitalistas Contrariamente ao início do período capitalista, a organização produtiva deixou, gradualmente, de ser dividida entre detentores de capital e trabalhadores. Atualmente, existe um grupo de trabalhadores-microcapitalistas (detentores de pequenos fundos de pensões privados, investimentos em plataformas onlines, microsócios da entidade empregadora para contornar legislação laboral, etc) e capitalistas-assalariados (acionista-CEO como Bezos, Zuckerberg, a família Amorim, etc). Este fenómeno foi recentemente definido como Homoploutia.
Homoploutia: classe social que está simultaneamente no topo dos assalariados (topo 1%) e dos detentores de riqueza (topo 1%).
A sobreposição entre investidores e trabalhadores, que aparenta ser um processo de convergência social, é apenas uma nova forma de extrativismo entre classes sociais. Os capitalistas-assalariados, reduzem o risco de perder a sua riqueza, caso o capital investido se torne obsoleto, ao receberem altíssimos salários e bónus como gestores, ao longo da sua carreira. Simultaneamente, os trabalhadores-microcapitalistas são frequentemente forçados, legalmente ou pela entidade patronal, a investir em fundos de pensões privados. O processo extrativo, que ocorre através dos fundos de pensões, é composto por duas partes. Por um lado, são cobradas altas comissões, mesmo que os aforradores percam dinheiro com as suas aplicações. As maiores gestoras de fundos investimentos, praticamente duplicaram as suas comissões de gestão entre 1951 e 2015; apesar de décadas de inovação tecnológica aplicada ao sector, combinada a um crescimento exponencial do número de clientes. Evidenciando um comportamento extractivista, de quem detêm um monopólio, sobre uma parte significativa das poupanças de milhões de trabalhadores por todo o mundo. Por outro lado, as mesmas gestoras de investimentos, utilizam as poupanças dos trabalhadores, para capitalizar empresas que operam contra os interesses dos mesmos. Um exemplo paradigmático desse fenómeno, é a prestadora de serviços norte-americana Aramark. A empresa tem como objetivo comercial competir com funcionários públicos pelos seus empregos, por meio de contratos de outsourcing. No entanto, esta corporação é parcialmente financiada por funcionários públicos norte-americanos, via fundos de pensões. Milhões de microcapitalistas detêm participações da empresa. Contudo, o controlo destas está fora do seu alcance. Controlar ou não controlar, eis a questão Peter Drucker, pai da gestão moderna, afirmou em 1976, no contexto de crescimento dos fundos de pensões, que se o socialismo é definido pela propriedade dos meios de produção por parte dos trabalhadores, os Estados Unidos seriam o primeiro país verdadeiramente socialista. Apesar da realidade contrariar Drucker, o seu pensamento revela uma linha ténue que separa o rentismo financeiro do controlo efetivo dos meios de produção. Estratégias financeiras coordenadas, como as utilizadas pelos investidores de GameStop, podem vir a ter um papel fundamental na luta contra as desigualdades laborais e sociais. No entanto, é necessário que sejam usadas com objetivos coletivos, e não para enriquecimento individual rápido. Nas últimas duas décadas, a coordenação financeira dos principais sindicatos norte-americanos tem trazido várias conquistas ao mundo laboral, utilizando os seus fundos de pensões. Ao criar-se um gigante sindicato de microcapitalistas, os trabalhadores conseguem ganhar poder efetivo em decisões de diversas empresas.  O sindicalismo financeiro norte-americano, já conseguiu retirar membros de conselhos de administração em plena greve (Safeway, 2003); escrutinar e evitar duvidosos bónus milionários a CEOs (United Health, 2006); e exigir, como acionista, 8 mil empregos sindicalizados na reconstrução de um terminal aeroportuário (JFK, 2019). Táticas de “manipulação” financeira, inspiradas nos usuários de Reddit/Wallstreetbets, podem ser acrescentadas às atuais ferramentas negociais dos sindicatos. O ativismo financeiro, por parte da classe microcapitalista, tem conseguido promover progresso social muito para além das negociações sindicais. A cidade inglesa de Preston é um claro exemplo disso. O governo local (2012-presente), inspirado nas experiências das cidades de Cleveland (Ohio) e Manchester, implementou um programa económico-social baseado no localismo económico. O principal objetivo era contrariar o declínio económico regional, num contexto de austeridade imposta pelo governo central. Parte fulcral do modelo de Preston, baseia-se no reinvestimento do seu fundo de pensões localmente (ex: construção de habitação universitária), em detrimento da compra de ações em multinacionais e outros instrumentos especulativos. A evolução na cidade é notória: em 2016, Preston foi considerada a melhor cidade para se viver na região noroeste; e dois anos mais tarde, a cidade apresentou a maior melhoria de qualidade de vida em todo o Reino Unido.  Por mais prazeiroso que seja ver milionários de Wall Street a queixarem-se de pequenos acionistas, os acontecimentos em torno da empresa GameStop, não causaram nenhuma mudança estrutural às desigualdades vigentes na sociedade. Ainda assim, os utilizadores do Reddit vieram mostrar-nos que, coletivamente, os trabalhadores-microcapitalistas detêm uma poderosa arma a seu dispor.

Guilherme Rodrigues

Um socialista, formado na capital portuguesa do neoliberalismo económico (Nova SBE), que tenta contar uma história escondida @zerohoursworker / https://medium.com/zinc-tank
 

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