Farhot: um artista em busca das suas origens

'Kabul Fire Vol.2' é um olhar sobre o Afeganistão, uma viagem pelo passado, presente e futuro do país de origem do produtor que hoje vive em Hamburgo.

Fotografia de Firas Colin
 

Bale Bale? Bale? Sorkeh Sorkeh? Sindeeh? Ooooh e jaon sayeb’oy jaon.

Assim começa o segundo projeto de Farhot, Kabul Fire Vol.2, uma viagem pelo passado, presente e futuro do seu país de origem, o Afeganistão. Nascido em Cabul, Farhot é um produtor musical baseado em Hamburgo, cidade que o acolheu depois da sua família ter sido forçada a fugir do seu próprio país durante a invasão soviética nos anos 70, quando o artista tinha poucas semanas. “Eu nasci em Cabul, mas fui levado do país. Nós, a minha família, tivemos de sair. Agora a [minha] terra natal não é um lugar para mim.”

Esta invasão foi a primeira parte de uma série de conflitos que desde então colheu as vidas de cerca de 1 milhão e meio de pessoas. No entanto, a dor e a violência que o Afeganistão atravessou – e continua a atravessar – não está puramente relacionada com fatores internos: durante mais de 40 anos de conflitos, potências mundiais como a União Soviética (nos anos 70) e os Estados Unidos da América (nos anos 2000) estiveram diretamente envolvidos em ataques e repressão do povo afegão. “Aparentemente as pessoas e os media estão mais interessados em mostrar o lado terrível do país, sem explicarem toda a dor que o país sofreu que foi trazida de fora”.

Se lá tivesse ficado, Farhot nunca teria sido músico. “Se houvesse paz, provavelmente ter-me-ia tornado num médico ou num arquiteto. Pelo menos era isso que os meus pais queriam que eu me tornasse. Músicos nunca tiveram boa reputação no Afeganistão.” Mas, a viver em Hamburgo, foi na música que encontrou uma forma de se exprimir, de se relacionar com esse lugar distante a que já não chama casa, mas para o qual olha com carinho, e de afirmar a sua identidade para além de preconceitos e rótulos. Farhot não é um homem de muitas palavras por isso descarrega na produção o que lhe vai na alma: “Tenho sorte porque o hip hop e o sampling me ajudaram a ter acesso à produção musical como forma de me exprimir. Sem palavras.”

Em 2013 fundou a sua própria label, Kabul Fire Records, especializada na arte do beat-making, que espera que possa ser um sucesso não só em termos musicais mas em ser um exemplo para os demais. No mesmo ano, lançou também o seu primeiro álbum, Kabul Fire Vol.1, que conta com a participação de Kano & Giggs, Ms. Dynamite e Talib Kweli. O projeto é uma coleção de beats crus e interessantes num estilo que mistura elementos de música tradicional afegã e Reggae. Fora dos seus projetos pessoais, ao longo da sua carreira, Farhot já produziu para artistas como Giggs, Kano, Isaiah Rashad e Talib Kweli, deixando sempre para trás um cunho único nas suas peças.

O seu álbum mais recente, Kabul Fire Vol.2, é uma homenagem a Cabul e marca o regresso às suas raízes, numa tentativa de procurar a musicalidade que preencheu a sua infância e de a trazer de volta ao presente, sob um manto musical inspirado em músicas do Hip-Hop dos anos 90.

É através de gravações do passado do seu país que Farhot consegue pintar um quadro vívido de uma cultura que desde a década de 70 que procura a paz e um fim aos conflitos armados. Farhot revela que dadas as circunstâncias do país, a conexão com artistas contemporâneos não é fácil, e o que eles produzem nem sempre está sintonizado com o que o produtor procura: “Eu tentei conectar-me com músicos afegãos, mas não funcionou por várias razões. A maioria da música nova é irrelevante para mim.”. Assim, vira-se para a história e as referências de outrora que redescobre e reinterpreta nos seus trabalhos, “as gravações antigas sempre foram uma grande inspiração para mim.” Artistas como Nashenas, um dos músicos mais velhos do Afeganistão, Sarban, um dos principais músicos por detrás da sónica tão característica do país, e Ahmad Zahir, visto como o melhor cantor Afegão de sempre, foram as suas maiores fontes de inspiração musical. 

O artista sampla partes de músicas de outros tempos para contar a sua própria história e é precisamente na arte do sampling que vê uma forma de juntar de novo elementos que estavam outrora fragmentados e deslocados. Não para mostrar união, mas para mostrar que existem muitas versões desses elementos que não conhecemos, como explica recorrendo à voz de Moshtari em “Sampling Watana / Biya Bachem”.

Farhot explica ainda que uma das fontes de inspiração mais relevantes para o projeto foi o documentário de 2008 Opium War, realizado por Siddiq Barmak. No filme, um helicóptero do exército americano cai no deserto afegão e os dois soldados que o pilotavam deparam-se com uma família de produtores de ópio que vive no interior de um carro de combate russo.  

“Yak Sher”, o primeiro single do álbum, é uma explosão de energia, de nostalgia e de esperança, com uma batida muito familiar, mas com uma musicalidade exótica para os nossos ouvidos. A música termina com algumas palavras do ícone da resistência Afegã na década de 80 Ahmad Shah Masoud, lembrando o seu povo de nunca se esquecer da sua dignidade, um toque que confere realidade ao tema, mostrando-nos também que os conflitos que assombram este povo não existem só na televisão, mas sim numa vida real não tão distante da nossa.

Apesar de ser um tema recorrente, a guerra não é a única dimensão deste álbum. “Feel Ugly” é um hino sobre algo que todos nós conhecemos, com que muitos de nós lutamos, a auto-estima. Num instrumental espaçoso, com a voz melancólica de Maverick Sabre e o verso de Tiggs Da Author, Farhot faz a ponte entre uma cultura aparentemente distante e complexa e a cultura humana, mostrando que não somos tão distantes quanto isso.

 

Em Kabul Fire Vol.2, Farhot não profere uma única palavra, facto que se mantém válido em toda a sua discografia. No entanto, através da sua genialidade instrumental, o artista consegue, em primeiro lugar, compreender a sua cultura e, em segundo, mostrá-la ao mundo. Como se lê na descrição que acompanha o álbum: “É uma colagem de Cabul, mas a Cabul no coração de Farhot em 2021. É a sua resistência musical, a sua tecelagem pessoal de um país que ama, mas com o qual não faz ideia se algum dia vai reunir-se.”

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