Kiko is Hot: “É bizarro a tua personalidade durante tantos anos ser construída com base em opiniões alheias.”

O Shifter falou com Francisco Soares, mais conhecido como Kiko is Hot, a propósito da sua participação no podcast Movimento Self-Love da The Body Shop Portugal sobre a forma como se refugiou no mundo digital e sobre como a persona online que foi criando ao longo dos anos acabou por influenciar a sua vida no mundo real, a sua auto-estima, vulnerabilidade e as causas que defende.

Foto cedida por Kiko is Hot
 

Este artigo teve o apoio da The Body Shop Portugal. A marca desafiou o Shifter a fazer parte do Movimento Self-Love, a olhar para o seu estudo The Body Shop Global Self Love Index e a dar espaço a este tema tão importante.
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Na publicação em que anunciou ao mundo que era um dos embaixadores do Movimento Self-Love da The Body Shop em Portugal, Kiko is Hot escreve que quando soube o nome da campanha se sentiu dividido. “Por um lado SELF-LOVE é tudo aquilo que prezo e tento inspirar toda a gente a ter: não importa o que os outros pensam de nós, temos de estar felizes na nossa própria pele. Por outro lado… SELF-LOVE é tudo o que me tem faltado este ano. Este ano que passou, apesar de, felizmente, ter tido saúde (que faltou a muita gente)… perdi grande parte da minha vida social, estabilidade financeira e auto estima. Esta última é muito importante porque confesso que afectou a minha vida a um nível muito grande.” Esta gestão da confiança que sente em si próprio é algo que está habituado a fazer quase desde que se lembra, não só na sua vida pessoal mas também por causa da sua vida pública.

Francisco Soares tornou-se Kiko is Hot há 10 anos quando, aos 16, decidiu criar um canal de YouTube. Foi dos primeiros youtubers em Portugal e o primeiro da comunidade LGBTQ+ no país.O meu youtube é criado numa altura em que precisava de exteriorizar os meus pensamentos e reflexões. E em que sentia que ninguém me entendia. Acho que por ter passado por sentimentos de solidão e sofrimento tão grandes, quase que automaticamente achei que a minha mensagem e objectivo seria fazer com que outras pessoas não tivessem que passar por isso.”, conta ao Shifter. 

Lembro-me super bem, no verão de 2011, quando todos os meus amigos estavam na praia e a fazer planos, eu passava os dias agarrado ao computador, e a namorar a ideia de criar um canal meu. Achei que o verão seria a altura ideal porque caso algo corresse mal e as pessoas da minha escola descobrissem, tinham o verão todo para se esquecer, antes das aulas começarem. Ora, 10 anos depois, agora entendo o poder e a importância desse momento, e o quanto definiu a década que se avizinhava.

Kiko virou-se para o mundo digital numa altura em que sentia que o mundo real não lhe dava o lugar que precisava para ser igual a si próprio. Como conta no podcast da The Body Shop Portugal, onde falou sobre a sua jornada de auto-estima, “eu não tinha muito Self-love, ou seja, eu comecei a fazer vídeos numa altura em que eu não tinha propriamente muitos amigos na escola, era assim ‘o rapaz estranho’, meio emo. (…) E eu comecei no YouTube porque senti que poderia ser um espaço onde eu poderia expressar-me.” E esse empurrão que o levou a encontrar o seu lugar na Internet, foi dado pela falta de representatividade que sentiu ao crescer. “Durante quase todo o meu período escolar, até ao secundário, senti-me um completo estranho, o patinho feio. A falta de representatividade LGBTQ nas séries, nas novelas, nas publicidades, nos jornais, etc, era assustadora. Tive de me virar para o mundo digital, onde consegui encontrar pessoas mais parecidas comigo e com as quais tive, depois, o prazer de me encontrar e formar amizades.” 

Não é fácil seres um rapaz que usa maquilhagem, numa escola nos arredores de Cascais, e viveres a tua vida sem acreditares que existe algo de errado contigo, porque os jovens nessas idades garantem que tu ouves vários insultos, todos os dias.

Apesar de nos irmos habituando cada vez mais à imagem da internet como espaço de intolerância e preconceitos, de haters e trolls, a confiança que Kiko tem na comunidade online é a de alguém que defende a casa que o acolheu, é o que o faz aconselhar o mundo web a crianças que sintam a solidão que sentiu durante a sua infância e é o que faz com que, hoje em dia, consiga sentir que, apesar de tudo, as redes sociais lhe deram mais coisas boas que más. “Tenho que pensar assim, caso contrário não estaria aqui ainda 10 anos depois. O início foi difícil, e agora olhando para trás percebo que tive uma clássica resposta a uma altura traumática: fingi que não estava a acontecer. Não exagero quando digo que durante, os dois primeiros anos do meu canal, 50% dos comentários eram ofensas. Ao mesmo tempo que isto estava a acontecer, adoptei uma postura de ‘i’m the best, fuck the rest’. Era adolescente também, e acho que isso me ajudou. Hoje em dia penso que sou muito mais sensível do que antigamente.” E como é que se lida com essa falta de empatia, quando ela também não existe entre as pessoas de carne e osso que nos rodeiam? “Eu vesti uma máscara, ergui a cabeça e continuei a fazer aquilo que bem me apetecia, talvez até a provocar. A criança rebelde dentro de mim quase que se alimentava desses ‘haters’, ou assim achava eu. Agora, anos mais tarde, reflito sobre o peso que essa altura teve na pessoa que sou hoje. Sobre quão difícil é para mim entregar-me a alguém emocionalmente, a rapidez com que saboto qualquer coisa por receio que vejam o meu ‘verdadeiro eu’”, conta ao Shifter, acrescentando: “É uma posição peculiar teres parte da tua adolescência e vida adulta documentada na internet.” 

É bizarro a tua personalidade durante tantos anos ser construída com base em opiniões alheias de pessoas que não conheces.

Kiko não só cresceu na internet, como cresceu em simultâneo com a cultura de influência digital que praticamente viu nascer em Portugal. Numa entrevista dada à Vice em 2019, falou sobre as transformações que aconteceram no mundo do YouTube, referindo a importância da mudança mas destacando que agora “é tudo menos genuíno” e que os youtubers de hoje em dia são marketizados de uma forma que os da sua altura, “miúdos que iam à escola (…) exatamente iguais às pessoas” que os viam, não eram. Ao Shifter, explicou como, para si, essa mudança que aconteceu a nível social, teve de ser acompanhada de um processo pessoal, tantas vezes doloroso, de aceitação da sua persona online: “Numa cultura de ‘cancelamento’ cada vez mais forte, é importante para mim fazer este processo de auto-aceitação e perceber de onde veio a minha raiva, a minha futilidade, a minha necessidade de criar esta persona tão ‘confiante’. Acho que só assim faz sentido, acho que só assim é que consigo estar orgulhoso daquilo que faço.”

O seu percurso pessoal pelo digital acabou por estar na base da mensagem que comunica hoje em dia: uma mensagem de ativismo, empoderamento, tolerância e aceitação, mas também de vulnerabilidade e verdade. “Eu acabei por ganhar imenso following online, de pessoas que de alguma forma se identificavam comigo ou gostavam do que eu dizia e, ao mesmo tempo que isso foi bom, parece que foi perigoso, porque quando tu começas numa idade tão jovem, com 16 anos, e principalmente quando vens de uma vida onde não tens muitos amigos ou pessoas com quem falar e de repente vais online e toda a gente te adora ou faz imensos comentários, manda-te cartas, pedem-te fotos… (…) A cena perigosa disto – e é algo que eu ando a aprender com o tempo – é que eu acabei a construir o meu self-love, o meu amor próprio, através das opiniões dos outros.” No 4º episódio do podcast Movimento Self-Love da The Body Shop, Kiko sublinha que apesar de este ser o seu caso, este “perigo” não é exclusivo dos influencers ou das pessoas com uma presença marcadamente online: “Eu acho que todos nós, hoje em dia, valorizamo-nos tanto pelas redes sociais e focamo-nos tanto nas redes sociais. O que é curioso porque eu nasci nas redes sociais mas ao mesmo tempo parece que é quase uma besta que eu tenho de domar ao longo do tempo. (…) Lá está, o meu self-love e a minha auto-estima não podem ser construídos na base de pessoas que eu não conheço. E isso tem sido um trabalho que eu tenho tentado fazer.”

Como é que eu continuo a ser eu próprio e a mostrar-me ao mundo e ao mesmo tempo a ter uma parte só minha? Quem é que sou eu se não tiver nas redes sociais? Quem é que sou eu se não estiver a filmar um vídeo? Eu vou estar comigo próprio até eu morrer, portanto não posso só existir quando publico algo.

Para Kiko is Hot, há uma responsabilidade acrescida em viver as suas inseguranças de forma pública. “Durante muitos anos, odiei a ideia de que tinha que ser um role model. Hoje em dia, percebendo que o sou, vejo-o com alguma responsabilidade e tento informar-me ao máximo antes de dar a minha opinião, porque entendo o perigo que pode ser, quando espalho falsa informação, mesmo que sem querer.” Assim, tem-se tornado uma voz cada vez mais ativa no ativismo pela comunidade LGBTQ+, a que pertence. Foi um dos criadores e atores da série Casa do Cais, a primeira série LGBT feita em Portugal, com o marco acrescido de ter sido emitida pela RTP, e faz os possíveis por garantir que a sua existência é política. “Penso sempre que é importante eu ir [às marchas pride] e é importante nós todos irmos porque os direitos que temos hoje em dia não são uma coisa garantida e nós vemos isso acontecer em vários pontos do mundo, onde as coisas já andaram para trás. Por isso é necessário, todos os anos, relembrarmos onde é que já tivemos, o que é que já fizemos e o que é que ainda há para fazer.” Mas as redes sociais aumentam o sentimento de necessidade de pertença e ampliam fenómenos como o FOMO (fear of missing out), e isto estende-se às causas sociais. Como é que se olha para um mundo onde somos todos cada vez mais ativistas? “Um perigo desse ‘ativismo de redes sociais’ é quando achamos que estamos a mudar muitas mentalidades, quando, muitas vezes, estamos apenas a falar para pessoas que nos seguem, e que já pensam da forma que nós pensamos: por outras palavras, estamos todos a dizer o mesmo. Porque as pessoas que realmente ainda precisam de mudar a mentalidade, muitas vezes estão noutra bolha nas redes sociais e este tipo de conteúdo nem lhes chega.”

“Às vezes as pessoas perguntam – e eu entendo porque é que o fazem -, mas existe muito aquela coisa de ‘porque é que é preciso agora estar sempre a falar disso?’ ou ‘porque é que há uma marcha LGBT?’. E eu acho que o que as pessoas não entendem é que durante muitos anos não houve qualquer representatividade e isso cria imensos problemas. (…) Eu entendo que as pessoas achem que agora está a haver um boom. Mas em todas as histórias de luta por direitos civis tem sempre que haver um boom para depois estabilizarmos. Ou seja, agora é importante haver esse boom para uma criança que nasça agora entender que existem pessoas como ela.”

Aos 26 anos, e assumindo que “mudou tudo” desde que criou Kiko is Hot até aos dias de hoje, Francisco Soares é um dos poucos youtubers da sua geração que permanece activo na rede social dos vídeos. O seu trabalho na plataforma abriu-lhe caminho para outras áreas artísticas — atua como DJ e além do seu trabalho como ator na série Casa do Cais, já está a preparar outra, da criação do realizador Justin Amorim –, mas continua a concentrar grande parte do seu trabalho no meio digital. Continua a fazer vlogs para o YouTube, a quebrar tabus nas suas páginas pessoais de Twitter e Instagram e tem o seu próprio podcast, “O HotCast”, onde publica quase semanalmente os “devaneios & pensamentos de um rapaz que usa mais maquilhagem que a tua mãe e irmã juntas.” “Hoje em dia tento cada vez mais aproximar a minha persona online de quem eu sou (apesar de ainda me estar a descobrir). (…) Acho que se o meu conteúdo ‘choca’ alguém, isso diz muito mais sobre a pessoa do que sobre mim. Perguntem-se porque é que alguém que mostra exactamente aquilo que é, é considerado ‘um choque’. E perguntem-se também porque é que os papéis de género são coisas tão definidas. Porque é que é chocante um rapaz usar maquilhagem ou ser feminino? E porque é que temos medo e repulsa daquilo que não conhecemos, em vez de termos curiosidade?”

Kiko is Hot é uma das caras do Movimento Self-Love da The Body Shop. A marca lançou um relatório global no passado dia 8 de Março, Dia da Mulher, onde identifica uma crise de auto-estima em todo o mundo, constatando que a maioria dxs inquiridxs sente mais inseguranças do que amor próprio. Através dos resultados do estudo, a marca lançou o objetivo global de concretizar 1 milhão de atos de Self-Love em todo o mundo. Para Kiko, que este ano viveu momentos particularmente difíceis como aqui partilhou, o convite chegou como um voto de confiança de uma marca da qual é fã mas, mais que isso, como uma lembrança para “se conhecer a si próprio como nunca tinha feito”. No vídeo onde partilhou com os seus fãs que este “tem sido um ano lixado e é OK sentirmo-nos perdidos e sem direção”, Kiko relembra-nos a essência que o tornou quem é para o público português: a normalização da vulnerabilidade, a celebração da vida com humor e a genuinidade acima de tudo de alguém que nasceu no online mas se reinventa constantemente no real, com tudo o que isso tem de bom e de mau: “Há coisas fúteis como o Tinder, onde gostava de dar um match sem 80% das pessoas saberem logo à partida quem sou. Desde que criei a minha persona online, são poucas as pessoas que me conhecem pela primeira vez, e isso, por vezes, é triste. Mas um dia que me farte realmente disto tudo, mudo de país e começo de novo.”

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