Quando o controlo matrimonial saudita chega ao smartphone

A Absher é uma aplicação criada e gerida pelo Governo da Arábia Saudita que, em traços largos, permite aos homens controlar as suas mulheres.

A globalização da internet e dos serviços em rede parece estar seu ponto mais alto da história da Humanidade, acessíveis em quase todos os países do mundo, porque, mesmo que não haja direitos humanos, há uma economia de mercado. Surgem, assim, em diferentes pontos do globo diferentes utilizações para as infinitas capacidades dos pequenos smartphones. Se no eixo EUA-Europa o desenvolvimento se foca numa possibilidade de controlar tudo e mais alguma coisa (pagando, por isso, um preço em privacidade), de outras geografias surgem notícias de utilizações distópicas.

Ainda há bem pouco tempo te demos conta da aplicação desenvolvida por um tribunal chinês para que, através do WeChat, os populares da província de Heibei possam monitorizar entre si os devedores, fiscalizando se estes têm visíveis capacidades de saldar as suas dívidas. Agora é da Arábia Saudita que surge outro exemplo de uma utilização perversa de semelhante tecnologia.

Chama-se Absher (iOS e Android) e, segundo as reportagens internacionais, iniciadas por uma extensa peça no Business Insider, não é uma aplicação propriamente nova. Ainda assim, só agora surgiu no radar dos media ocidentais e, escusado será dizer, pelos piores motivos.

A Absher é uma aplicação criada e gerida pelo Governo da Arábia Saudita que, em traços largos, permite aos homens controlar as suas mulheres. Ou, em novi-lingua do reino, permite aos guardiões monitorizar as suas protegidas.

Esta aplicação surge como uma substituição para o documento, estilo passaporte, que cada mulher tinha de obter do seu marido para que pudesse viajar. Basicamente, serve-se das potencialidades digitais para tornar ainda mais rígidas as leis do país, deixando mulheres que queiram fugir de cenários de violência sem qualquer possibilidade de o fazer sem dar conhecimento ao seu marido – a aplicação envia um SMS automático ao “responsável”.

Em síntese, a aplicação permite ao homem que esteja registado na mesma conta que a mulher controlar alguns dos pontos em que esta teve de se identificar com os seus documentos oficiais através dos registos que vão sendo guardados.

Face às debilidades políticas daquele país, onde as redes sociais chegaram antes da Democracia, tem valido muitas críticas e esta nova aplicação é só mais um exemplo. A levar por tabela estão igualmente Google e Apple por disponibilizarem nas suas lojas de aplicações a famigerada Absher.