Militares usam fotografia de Corbyn como alvo: estão a disparar contra a democracia

Meia dúzia de soldados não formam o exército e não se deve partir deste caso para uma generalização, contudo a permeabilidade um sector tão importante a este tipo de comportamento e, no fundo, pensamento, deve ser motivo para reflexão.

Todas as ondas populistas cumprem sensivelmente os mesmos critérios. Em cada uma das narrativas triunfantes temos o protagonista — pensemos, por exemplo, em Bolsonaro — e para lhe conferir crédito, em sucessivas comparações, algumas delas à margem da verdade, um antagonista — neste exemplo, Lula da Silva. É a partir desta dicotomia simplista, em que se reduz a política a dois polos e os dois polos a duas pessoas, que se constrói o discurso e se sublinham as diferenças.

Na base da estratégia está a lógica de que quanto menos se gostar do antagonista, mais o protagonista se tornará relevante. Na operacionalização estão as técnicas retóricas, o whataboutism e alguma desfaçatez de discurso que vão cavando o fosso e tornando uma discussão que se esperava racional cada vez mais emocional. Isto quando a onda começa numa corrida eleitoral e com um candidato a protagonista.

Todavia, a radicalização da política não se dá só pela boca dos candidatos; outros sectores são determinantes na sua relação com as figuras de poder e servem para acalmar ou agudizar a violência dos sentimentos em relação aos políticos. É um desses casos que nos leva a este artigo.

Num vídeo de Snapchat amplamente partilhado vêem-se soldados britânicos a praticar tiro usando como alvo a fotografia do líder dos trabalhistas britânicos, Jeremy Corbyn. A veracidade das imagens já foi confirmada pelo Ministério da Defesa britânico que considerou inaceitável o comportamento dos destacados em Cabul, no Afeganistão. A simbologia das imagens é simples: o sector militar, ou parte dele — uma das instituições chave na manutenção da cultura democrática — revela uma tendência para, como acontece por todo o mundo, optar por um discurso violento sobre figuras políticas das quais discorda.

Claro que meia dúzia de soldados não formam o exército e não se deve partir deste caso para uma generalização, contudo a permeabilidade um sector tão importante a este tipo de comportamento e, no fundo, pensamento, deve ser motivo para reflexão. Afinal de contas apesar da estratégia ser quase sempre a mesma na subida de populistas ao poder, os contornos dependem sempre do momento histórico e social que cada país atravessa.