A crise da Huawei explicada

Trump baniu a chinesa Huawei. Como assim? Afinal, o que é que aconteceu?

Ilustração de Shifter

A seguir à Samsung, a Huawei é a empresa a nível global que mais smartphones vende – sim, à frente da Apple. Mas o negócio da Huawei vai muito além de telemóveis e do mercado de consumo, apesar de este já representar 45% das receitas da tecnológica chinesa. A Huawei também vende soluções de armazenamento, segurança e inteligência para uma variedade de indústrias e, no mercado de telecomunicações, está a apostar em força no lançamento da tecnologia 5G à escala mundial e em parceria com operadoras de cada país.

As coisas pareciam estar a correr bem para a Huawei; em pouco tempo, conseguiu posicionar-se no segundo lugar do top de vendas smartphones, tornando-se uma marca amplamente conhecida entre as “pessoas comuns”. China, Europa e Médio Oriente continuam a ser os mercados mais importantes para a tecnológica, com a América, em particular os Estados Unidos, a terem uma relevância residual.

Um dos melhores smartphones da Huawei (foto Shifter)

Um contexto político

O braço de ferro político existente (e cada vez mais ardente) entre EUA e China não ajuda nada a Huawei; a Administração de Trump tem vindo a usar a Huawei – pelo menos na narrativa que tem sido contada pela imprensa internacional – como peão num jogo de estratégia audaz: Trump quer salvaguardar a tecnologia “da casa” e restringir o crescente poder económico chinês, e nesse sentido tem levantado o pânico de que a China poderia estar a espiar os EUA através da Huawei e da sua tecnologia.

Os EUA começaram por, em Fevereiro de 2018, desaconselhar os norte-americanos da compra de produtos de tecnologia chineses, com os directores da CIA, FBI e NSA a mostrarem desconfiança em relação à Huawei e à ZTE.  “Estamos profundamente preocupados com os riscos de permitir que uma empresa ou entidade comprometida com governos estrangeiros e que não partilhe os nossos valores ganhe uma posição de poder nas nossas redes de telecomunicações”, declarou na altura o director do FBI, Chris Wray. Na altura, Huawei e ZTE vieram prontamente a público dizer que não representam qualquer risco de segurança tecnológica, nem para os EUA, nem para outra nação.

Agora, depois de esta semana Trump ter proibido as empresas norte-americanas, como a Google, de recorrer a tecnologias de informação e comunicação chinesas,  a mesma defesa foi apresentada pela Huawei. O Governo norte-americano baniu a Huawei, empresa que foi posta numa espécie de “lista negra”. A manter-se esta restrição, a Huawei não pode, por exemplo, comercializar smartphones com os serviços da Google, como a Play Store, e as actualizações de segurança, o que poderá ter consequências para o normal funcionamento da empresa e para os consumidores.

As restrições não terão como efeitos unicamente na relação entre Huawei e Google, mas também com outras empresas como a Qualcomm, que fabrica processadores para a marca. (Em 2016, a ZTE também foi impedida pelo Governo dos EUA de comprar tecnologia a companhias norte-americanas, mas a justificação foi outra: a chinesa terá violado as sanções americanas ao Irão ao comercializar produtos feitos nos EUA àquele país.)

Mas o assunto EUA-China não se resume à tecnologia. As relações entre os dois países ao longo dos anos são difíceis de explicar e de resumir em poucas linhas. Se Trump decidiu declarar publicamente a China como um adversário forte e preparar uma resposta agressiva, os esforços para conter a economia chinesa vêm de trás, pelo menos do tempo de Barack Obama, quando Hillary Clinton era Secretária de Estado. Foi, aliás, em 2010 que a China superou o Japão e se tornou a segunda maior potência económica do mundo, a seguir aos EUA. Obama tentou simultaneamente manter boas relações com a China e deixar o país com rédea curta, numa estratégia discreta e com muita diplomacia de bastidores. Por um lado, Obama visitou a China e o Presidente chinês, Xi Jinping, visitou a Casa Branca – encontros para mostrar que as duas potências se davam e estavam dispostas à cooperação em temáticas como direitos humanos, anti-terrorismo e alterações climáticas –; por outro, Obama e Clinton tentaram, por exemplo, aproveitar os conflitos e disputas da China com os países vizinhos para jogar a favor da economia americana e no sentido de conter a chinesa.

Obama e o Presidente chinês em 2014 (foto de White House via Flickr)

Trump apenas fez mais barulho – ao bom estilo de Trump — numa estratégia que Obama ou mesmo Bush tentaram aplicar à sua maneira. A disputa comercial entre os dois países, que Trump lançou, tem como argumentos do lado americano práticas comerciais desleais por parte dos chineses e roubo de propriedade intelectual. “Não estamos em disputa comercial com a China, essa guerra foi perdida há muitos anos por pessoas parvas e incompetentes que representaram os EUA. Temos agora um défice comercial de 500 mil milhões de dólares por ano, com roubo de propriedade intelectual de 300 mil milhões. Não podemos permitir que isto continue!”, tweetou o Presidente dos EUA em Abril de 2018. Ao longo do ano passado, os Estados Unidos colocaram restrições à importação de produtos chineses; a China foi respondendo também com taxas sob produtos norte-americanos importados.

No que toca a tecnologia e ciência, a China mais avançada que os EUA. Para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos, a potência asiática foi a que mais patentes registou; especificamente no mercado de smartphones, há inúmeras empresas chinesas a concorrer com a Apple, a única grande tecnológica americana – além da Huawei, é possível numerar a OnePlus ou a Xiaomi, por exemplo. A Samsung, que também tem uma presença muito forte no mundo tecnológica, é da Coreia do Sul, histórica aliada dos EUA. Já de acordo com o Nature Index, um índice montado pela revista científica Nature, as contribuições totais da China para a ciência de alto nível fez do país o segundo maior do mundo, sendo ultrapassado apenas pelos EUA.

Também no 5G – que se acredita ser a próxima grande revolução em comunicações móveis – os EUA estão atrasados face ao concorrente. Dado que não existem alternativas americanas ao fornecimento de infra-estruturas 5G; é precisamente a Huawei quem lidera a corrida e tendo conseguido assinar contratos em vários países e com diversas operadoras para fornecer as componentes para a próxima geração de internet móvel. Neste domínio, autoridades norte-americanas têm pressionado os aliados do país, como Portugal (também bem relacionado da China), para não recorrerem à tecnologia da Huawei, com o mesmo argumento de espionagem, e Trump já disse às empresas nacionais para acelerarem e começarem a competir com as homologas chinesas.

Trump no Capitólio norte-americano (foto de White House via Flickr)

Percebe-se agora melhor a “zanga” dos EUA com a Huawei. A Administração de Donald Trump tudo tem feito para colar a tecnológica chinesa a um sentimento de desconfiança em termos de segurança cibernética, alimentando a narrativa de que o Governo chinês pode estar a espiar através dos produtos da Huawei. Essa é, claro, uma possibilidade mas, dada a inexistência de qualquer prova, não deixa de ser apenas isso: uma hipótese. Até prova em contrário, a Huawei é inocente, tal como uma Google ou uma Apple o são na perspectiva oposta – que se saiba, o Governo norte-americano não está a fazer espionagem através dos produtos destas empresas embora essa possibilidade exista, como sucessivos leaks sugerem. A Huawei tem repetidamente negado as acusações de que tem sido alvo. “Apesar dos esforços para criar medo em relação à Huawei e de usar política para interferir com o crescimento da indústria, é com orgulho que dizemos que os nossos consumidores continuam a confiar em nós”, comentou um representante da tecnológica chinesa, Ken Hu, em Dezembro passado a jornalistas.

Huawei e EUA têm já um historial vasto e conturbado, que, ainda assim, não tem impedido a empresa de crescer globalmente. No final de 2018, as autoridades canadianas detiveram Meng Wanzhou, directora financeira da Huawei, e a filha do fundador da firma a pedido do Departamento de Justiça norte-americano; acusaram Wanzhou e a Huawei de crimes de duas dezenas de crimes, incluindo fraude bancária, fraude aos EUA, obstrução de justiça e roubo de segredos comerciais.

Mais: em 2014, os EUA já tinham proibido a aquisição de produtos da Huawei por parte de entidades governamentais (algo que o Japão também fez) e, no ano passado, essa restrição foi alargada às bases militares. Os EUA não estão sozinhos – Canadá e Reino Unido também já expressaram preocupações em relação à Huawei.

O que se passou ao certo?

A Vox explica os acontecimentos mais recentes em relação à Huawei. Na quarta-feira da semana passada, Donald Trump publicou uma ordem executiva que impede as empresas dos EUA de usar tecnologia de entidades que sejam consideradas ameaças à segurança nacional e declarou ser um assunto de emergência nacional.

Nesse mesmo dia, o Departamento de Comércio norte-americano colocou a Huawei e 70 dos seus afiliados na sua “Entity List”, uma espécie de ‘lista negra’ de firmas que não podem comprar produtos norte-americanos sem aprovação governamental prévia. Ou seja, tudo junto significa que a Huawei deixa de poder fazer negócio com a Google, que comercializa o sistema operativo Android, ou a Intel e a Qualcomm, que vendem processadores. (A britânica ARM, que fabrica processadores, também já disse não querer continuar a negociar com a tecnológica chinesa.)

Já nesta segunda-feira, o mesmo Departamento anunciou que, por 90 dias, irá suspender  as restrições para dar um período de transição à Huawei. Esta vai poder comprar componentes americanas para manter as redes de telecomunicações existentes e oferecer actualizações de software aos telemóveis da marca que as pessoas já compraram.

A Google foi a primeira empresa a reagir às notícias sobre o ‘ban’ da Huawei, referindo que iria cumprir a ordem do Governo. A empresa – que dada a relevância da Huawei no mercado tem trabalhado com esta em diversas ocasiões (aparecendo, inclusive, em palco nos eventos de lançamentos dos seus flagships) – acrescentou que os telemóveis Huawei já no mercado vão continuar a receber actualizações de segurança da Google e a ter os serviços desta, como a loja Play Store. Contudo, a partir de agora, a Huawei passará a poder apenas usar a versão de código aberto do Android – ou seja, o Android Open Source Project (AOSP) – e não a versão comercial da Google, a que os consumidores fora da China estão habituados. Na China, onde os serviços da Google como o motor de busca Google Search e o Gmail estão bloqueados, a Huawei já usa o AOSP.

Foto de Pawel Czerwinski via Unsplash

Uma solução global em que a Huawei pode trabalhar é no desenvolvimento de um sistema operativo próprio, ao seu gosto, com uma loja de aplicações sua. A empresa já está, aliás, a fazê-lo e a testá-lo na China, podendo agora simplesmente acelerar esse investimento. O sistema operativo que a Huawei está a criar é baseado no AOSP, pelo que os programadores não vão ter de refazer as suas aplicações como teriam de fazer se a fabricante chegasse com uma proposta distinta como é o iOS da Apple.

Quanto à loja de apps da Huawei, foi lançada no início do ano passado globalmente com o nome App Gallery – os utilizadores de smartphones da marca já podem encontrar essa aplicação nos seus equipamentos como uma alternativa à Google Play Store. De acordo com a Bloomberg, a Huawei já tem falado com programadores para adaptarem as suas apps Android actuais para a loja App Gallery. Notícias dão também conta de que a Huawei está a avaliar outras alternativas, como a loja portuguesa Aptoide.

Um caso bicudo

O assunto é demasiado complexo para poder ser resumido em sentenças como “a Huawei vai deixar de vender smartphones”, até porque isso é uma falácia. É uma batalha política entre as duas maiores potências económicas do mundo. É também um caso que nos lembra da dependência europeia desses países e da sua influência em tecnologia que usamos diariamente.

É, ainda, uma chamada de atenção para o software livre e/ou em código aberto, que, esse sim, ao contrário do software proprietário – detido por uma empresa e controlado indirectamente pelo país de onde essa companhia é originária –, nos liberta da dependência de estados; é software no qual as pessoas mandam.