‘Bitte Orca’ dos Dirty Projectors e a definição de hipster

Dez Anos É Muito Tempo

A dificuldade de definir o termo “hipster” cria problemas a quem o usa recorrentemente para caracterizar um fenómeno ou um individuo. Nem sempre será bem empregue e há ali um momento, na segunda metade da década de 2000 e início da de 2010, em que, generalizando-o, muita gente o banalizou, pelo menos no que à escala musical diz respeito. Em 2009, com a folk a confirmar-se como “a próxima grande cena”, quase tudo o que saía era classificado de hipster, mas filtremos um das colheitas mais ricas dessa decada em três discos essenciais para recordar esse ano: o dos Animal Collective, o dos Grizzly Bear e este dos Dirty Projectors.

Essenciais por terem sido realmente importantes e por possuírem um conjunto de canções suficientemente desalinhado para criar essa ideia de alternativa que, por definição, o hipster procura. Mas esse corpo de canções estranho também tinha canções magnificas e é essa a questão que leva a toda esta reflexão: “My Girls”, “Two Weeks” e “Stillness is the Move” são canções inatacáveis e, a partir de certa altura, globais e, portanto, em certa medida, anti-hipster. A própria publicação que os colocou na posição #1, #2 e #6 na lista de melhores do ano, a Pitchfork claro, passava por hipster quando já era a mais influente webzine do mundo.

Esta introdução serve para situar a edição de Bitte Orca dos Dirty Projectors, eventualmente, o melhor e mais bem conservado dos três discos enumerados. E como arrancar um texto sobre pseudo-hipsters sem mencionar Brooklyn? Os Dirty Projectors, à imagem de tantas outras coisas que ajudaram a reforçar o mais populoso Borough de Nova Iorque como a capital mundial do “hipster”, são de Brooklyn. E à distância de 10 anos já é possível dizer que a música de Brooklyn não terá tido um “hype” assim tão exagerado quanto na altura se imaginou e propagou. Talvez um bocadinho, vá. Mas se pegarmos nestas bandas e discos que entre 2007 e 2010 vieram dali, são vários os que se mantém relevantes e envelheceram bem. Basta pensar na forma como os Vampire Weekend têm sido celebrados em 2019, só para dar um exemplo.

Bitte Orca acaba por ser único e irrepetível na discografia dos Dirty Projectors por dois motivos: a surpresa de incluir e dar protagonismo a Amber Coffman e Angel Deradoorian, isto sem retirar os méritos a Dave Longstreth que no fundo será o cérebro disto tudo. Mas é feliz que tenham sido elas a ficar imortalizadas na capa do álbum pois são elas que o tornam imprescindível. Entre as harmonias na maior parte das canções e o protagonismo nas outras, a influências delas é decisiva naquilo que será o melhor disco de 2009. Eu, hipster me confesso.