Influencers e futebol metem Arábia Saudita nas bocas do mundo

O mediatismo pode ser comprado a um preço bastante elevado.

Elsa Hosk via Instagram
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Desde que Mohammed bin Salman se tornou no chefe máximo da Arábia Saudita e desencadeou o projecto Vision 2030, o perfil público daquele reino do Médio Oriente tem mudado a olhos vistos. Em 2017, o Príncipe anunciou que queria diluir a importância da indústria petrolífera no tecido económico do país e apostar noutros sectores como o turismo; essa mudança estratégica conduziu a política nos anos seguintes e, entre o final de 2019 e o início de 2020, os resultados são mais do que visíveis.

Embora o modelo político da Arábia Saudita permaneça o mesmo e a sua intervenção armada no Yemen não dê sinais de desacelaração, e mesmo depois da ONU, num relatório, associar directamente o Príncipe ao assassinato de Jamal Kashoggi, não é isso que tem trazido o reinado para as bocas do mundo. A nova estratégia de relações públicas da Arábia Saudita tem dado frutos em duas áreas onde a mediatização é maior e a aceitação acrítica acompanha: o futebol e o mundo das celebridades.

Apesar de todas as acções terem sido alvo de críticas pontuais e de manifestações de repudio, a verdade é que no mainstream a imagem que se vai forjando daquele reinado é diferente e, se quisermos, normalizante.

Futebol só para mulheres acompanhadas por homens

A primeira grande notícia fruto desta estratégia surgiu em 2018, quando a entidade responsável pelo futebol profissional italiano, a Lega Serie A, anunciou que a troco de 7 milhões de euros, as próximas edições da Supercopa italiana se disputariam naquele país. Se no historial de países por onde viaja a competição – habitualmente itinerante – a Arábia Saudita não destoa propriamente (Líbia, Catar, China), o acordo não deixa de ser de assinalar.

Até Matteo Salvini, o ex-número dois do governo italiano, proveniente da extrema-direita, aproveitou a ocasião para se virar numa generalização contra o Islão, considerando os trâmites da partida ‘nojentos’, sublinhando a acusação à Arábia de desrespeito pelos direitos das mulheres – o estádio onde o jogou decorreu tinha espaços reservados a homens, e as mulheres que quisessem ver o jogo tinham de ir acompanhadas por alguém do sexo masculino.

Em reacção, Gaetano Micciche, responsável pela organização da partida – que decorreu há sensivelmente um ano –, preferiu, como em toda esta estratégia ver o copo meio cheio sublinhando que há bem pouco tempo as mulheres não podiam entrar em qualquer recinto desportivo.

Influencers e um festival de música

O segundo grande momento desta estratégia virada para o Ocidente, ocorreu já no final de 2019 sob a forma de um festival de música electrónica, para o qual foram convidados grandes influencers, como Scott Disick (23 milhões de seguidores no Instagram) ou Irina Shayk (13 milhões).

À semelhança do que acontecera, por exemplo, com o Fyre Festival, os influencers foram contratados para de modo coordenado promoverem o festival MDL Beast que decorreu em Riade, passando assim para o exterior a aparência de um país aberto e cosmopolita. Neste particular, quem destoou foi Emily Ratajkowski, que em declarações à Diet Prada, revelou ter negado o convite que lhe fora endereçado e sublinhou o seu apoio à causa LGBT, pelo direito das mulheres, pela liberdade de expressão e o direito a uma imprensa livre.

Depois dessa revelação, o caso ainda gerou algumas críticas que chegaram até à imprensa internacional, mas sobretudo a circuitos mais fechados e alerta para a defesa dos direitos humanos.

Bola espanhola

Já o terceiro momento desta estratégia, tem mais uma vez a ver com futebol e começou sobretudo a dar nas vistas esta semana. Desta feita, é a Supertaça espanhola – disputada em meias-finais e final –, que está marcada, tal como a italiana, para a Cidade dos Desportos do Rei Abdullah, perto da cidade de Jitá. Notícias publicadas recentemente pelo El Mundo dão conta que apenas 9% dos bilhetes disponíveis foram vendidos a adeptos dos clubes, acentuando a ideia de que o jogo se realiza além-fronteiras para ‘o Ocidente ver’.

O número mais sonante vem mesmo do Valência, um dos participantes do torneio que conseguiu apenas vender 26 ingressos, ao passo que o Real Madrid, clube com maior registo de vendas, terá vendido cerca de 1000. De resto, tal como no caso Italiano está em causa um acordo para que as três próximas Supertaças espanholas sejam disputadas em solo árabe.

Este caso, também não ficou isento de críticas com diversas figuras espanholas e adeptos dos clubes a revelarem-se contra e a Amnistia Internacional Espanhola a marcar uma acção de protesto para o dia do início da competição, 8 de Janeiro.

Para além destes três momentos de alto perfil, outros eventos têm sido levados a cabo naquele país do Médio Oriente, nomeadamente a edição de 2020 do Dakar, um combate de boxe entre Anthony Joshua e Andy Ruiz Jr, um amigável entre Brasil e Argentina, ou a ida de treinadores e jogadores europeus para o campeonato de futebol daquele país. O Ministro dos Desportos saudita diz que estes momentos são prova de que o país está diferente e que mudou muita coisa nos últimos 10 anos; contudo, as mudanças não tem alterado os principais parâmetros por que o regime é alvo de críticas, nomeadamente no que toca à democratização, à liberdade de expressão e imprensa, e à igualdade entre minorias.

As somas envolvidas em troco da organização dos eventos são uma pista sobre como no mundo dos influencers e da publicidade, o mediatismo se pode comprar, a um preço bastante elevado.

Actualização a 8 de Janeiro: Adicionada referência ao Dakar 2020.

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