Uma história sobre software proprietário à boleia de um Tesla

Alec comprou um Tesla em 2ª mão com a funcionalidade de piloto automático. Mas como só comprou o carro (hardware), a fabricante desligou-lhe o software.

Foto de Bram Van Oost via Unsplash
 
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Quando aqui publicámos o texto escrito em colaboração com o Jornal Mapa sobre software livre, um dos exemplos dados por Marcos Marado, presidente da Associação Nacional de Software Livre, sobre software proprietário foi o da centralina dos automóveis. Como explicou Marcos, a centralina é uma espécie de motherboard do carro que, através de software, conecta todos os componentes electrónicos do carro e faz com que funcionem em pleno, e um exemplo prático de software proprietário que se revela sobretudo quando avaria.

Desenhada de forma proprietária, o software da centralina é de difícil acesso pelo que o mais comum é que a troca seja a única solução viável para o carro voltar a andar. Isto sucede porque por muito à vontade que um mecânico esteja com programação, geralmente, mexer na centralina não é fácil, nem permitido – o seu código fonte não está acessível, nem passível de alterações sob pena de se perder a garantia do automóvel. E pode suceder cada vez mais com o advento do software a chegar aos automóveis de forma cada vez mais significativa – como sugere o exemplo que nos chega da América por estes dias. 

A história chega-nos através do The Verge e narra a aventura de Alec com o seu Tesla. Alec comprou um Model S da companhia de Elon Musk a um vendedor que não a própria marca e os alertas soaram quando se apercebeu de que a empresa teria remotamente desligado uma das suas principais funcionalidades – o piloto automático. Depois de contactar a marca, Alec recebeu como resposta a confirmação de que por não ter pago especificamente por essa funcionalidade ela ficaria desactivada. Assim, sem intervenção directa e grande hipótese de solução para além da reivindicação, o comprador de um Tesla ficara sem acesso a uma das funções que provavelmente o levara a comprar o carro.

O caso rapidamente ganhou tracção e se tornou viral nas redes sociais, o que fez com a marca voltasse atrás com a decisão que tomara e restaurasse a funcionalidade ao automóvel alegando que tudo não passara de um mal entendido, um “erro de comunicação”. Ainda assim, este caso serve de exemplo para o que pode acontecer num cenário onde o software proprietário seja indispensável para tornar o hardware útil – neste caso, um carro. Sem qualquer explicação, a Tesla achou que por alguém comprar um dos seus automóveis a terceiros perderia o direito a utilizar uma das suas principais funções, que muito dificilmente poderia ser restabelecida sem ser através da ordem central da marca.

Este caso está resolvido mas nem por isso deve deixar de servir como alerta para o ambiente que se pode viver dentro de uns anos quando fabricantes continuarem a seguir a linha da Tesla, fazendo funcionalidades dos automóveis depender de actualizações e autorizações centralizadas pela marca.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!