RADAR #5: como está o mundo a reagir à pandemia de Covid-19?

Na edição #5 do RADAR, organizamos as reações e atitudes dos países e continentes perante a pandemia de Covid-19, focando os Estados que estão a reagir com experiências sociais, abusos de poder ou faltas de responsabilidade, incerteza económica, entre outros.

Imagem via Shifter
 
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Na nossa edição #4, estávamos longe de imaginar a dimensão que o Covid-19 teria em Portugal e no mundo. Chegámos a abrir a rubrica com uma passagem, ainda superficial, sobre o impacto social e económico que o chamado Coronavírus estava a ter no mundo a 5 de março. Mas ainda houve espaço para acompanhar eventos políticos como as primárias democratas nos EUA, o julgamento sobre a extradição de Julian Assange ou as eleições legislativas no Irão, na Irlanda e na Eslováquia, sem a noção de que, na semana seguinte, o Coronavírus pararia o mundo e tomaria conta da actualidade.

Agora, cerca de um mês depois, há quase dois milhões de infectados, mais de 100 mil mortos, e perto de 450 mil recuperados em todo o mundo. Portugal ocupa o 16º lugar da tabela que contabiliza o número de casos de infecções por Covid-19 no mundo, com quase 17 mil infectados, mais de 530 mortes e mais de 270 recuperados.

Foto de Anastasiia Chepinska via Unsplash

Porque se trata de um momento global sem precedentes, no Shifter temos tentado filtrar a informação mais pertinente e interessante, numa altura em que as notícias são constantemente actualizadas, os dados ficam rapidamente datados, e os Estados e a comunidade científica rescrevem um novo capítulo na história, na tentativa de compreender melhor o novo vírus e os consequentes fenómenos sociais e económicos.

Aqui podes consultar toda a cobertura que temos feito do assunto, que vai desde dicas sobre como lidar com o trabalho remoto à ansiedade, a colectâneas das melhores leituras sobre o Covid-19, ou entrevistas esclarecedoras sobre o momento que vivemos e o que ainda está por vir. Alguns desses conteúdos têm estado a ser anexados ao separador do RADAR no site do Shifter, consoante a sua importância para compreender “o que se passa no mundo”, mas chegado agora o momento de uma nova edição, quisemos pensá-la com uma organização oportuna, para que não acabássemos só a replicar dados que podes consultar noutros media, mas que ao mesmo tempo pudesse servir para ficares informado de forma completa sobre o estado actual da pandemia de Covid-19.

Partimos da pergunta “Como está o mundo a reagir à pandemia?” e, daí, organizámos as atitudes e reacções de países e continentes em cinco grandes grupos, que esperamos que te dêem uma visão geral de como o mundo tem respondido a uma das maiores crises sociais e económicas de sempre.

Com Estado de Emergência ou experiências sociais

O surto pandémico de Coronavírus que, segundo se sabe até ao dia de hoje, terá começado na China, apanhou todos os países de surpresa. O vírus fora desprezado por líderes de quase todos os países para onde ainda não havia migrado, obrigou a medidas rápidas e, como situação de urgência que é, trouxe ao de cima o verdadeiro espírito de cada liderança – com alguns avanços e recuos pelo meio. A complexidade do fenómeno ainda está por perceber e no meio das causas da sua expansão há quem aponte jogos de futebol e manifestações como importantes focos de propagação. Melhor parecem estar os países que optaram por medidas mais restritivas mais rapidamente, com tudo o que isso possa implicar sobre a percepção dos governos e da sua autoridade.

No meio de toda a confusão gerada pelo novo Coronavírus é difícil descortinar, para já, as verdades mais relevantes. Tal como variam os dados, variam as ações dos governos que, em grande parte dos casos, gozam do estado de emergência para poder agilizar a sua acção. Se Itália foi o primeiro país do ocidente a vivenciar o perigo do vírus e onde as medidas se foram experimentando – segundo se percebe – de modo tardio e que não preveniu o descontrolo do número de infectados, Alemanha, Espanha e Reino Unido parecem ter seguido a mesma norma por trâmites diferentes mas com resultados semelhantes – apenas no número de mortos a Alemanha continua uma excepção por explicar a fundo.

Foto de Kobu Agency via Unsplash

Sobre o Reino Unido, pesam as declarações no princípio do surto em que se apostava na imunidade de grupo; sobre os restantes países recaem dúvidas sem explicações – como dizíamos, até jogos de futebol das competições europeias, como o Atalanta–Valência foi apelidado pelo presidente de Bergamo (cidade onde foi disputado e onde se verificou um dos maiores surtos do vírus a nível mundial) como uma “bomba biológica”.

Neste contexto e, no comparativo de medidas tomadas pelos países na Europa, Portugal alinha-se com aqueles que mais medidas tomaram e mais cedo o fizeram, a par da Chéquia, ainda que com resultados bastante diferentes: Portugal regista cerca de 16 mil infectados enquanto a Chéquia se fica pelos 6 mil – dado que ajuda a compreender a dificuldade de se tirarem conclusões sobre a eficácia de determinada estratégia e empurra para depois qualquer veredicto.

As duas mais badaladas excepções ao recurso às proibições, no quadro europeu, são a Suécia e a Holanda, embora outros exemplos pudessem ser mencionados. Em sentido inverso situa-se a Hungria com o Fidesz, partido no poder, a arriscar a expulsão do Partido Popular Europeu por agravar as preocupações sobre violação de regras democráticas no seu país – assunto que parece ter sido deixado para depois da pandemia. No contexto global, outros protagonistas surgem, como reflexo das políticas e dos políticos que os gerem. Brasil e Estados Unidos são notícia pela politização da resposta à crise e as divergências entre os seus decisores, tal como o Irão ou a Rússia de onde chega pouca informação mas controversa. Neste capítulo também não falta a Ásia; apesar de o primeiro surto já ter passado e, de certa forma, gerado uma onda de legitimação sobre os meios de actuação dos países, o susto estar longe de ter passado e na Singapura depois de declarado o fim do surto, foi declarado o lockdown depois de novo aumento inesperado no número de casos.

Suécia

Globalmente, os governos estão a aplicar medidas restritivas aos cidadãos, fechando locais públicos como cafés e restaurantes, escolas e proibindo ajuntamentos de pessoas. No entanto, a Suécia coloca-se ao lado, usando uma estratégia diferente. Os suecos fazem hoje uma vida – quase – normal. Apenas encerraram escolas e universidades, tudo o resto mantém-se em actividade. Os alertas sobre regras de higiene foram reforçados pelo Governo, mas esta estratégia é vista com alguma desconfiança pelos países vizinhos. E é com algum receio e estranheza que estes (e a generalidade dos países que optou por uma estratégia de confinamento obrigatório) vêem nos noticiários reportagens sobre o país sueco com esplanadas e ruas repletas de gente, quando ao mesmo tempo reportam cada vez mais casos de Covid-19.

Mas, se milhões de pessoas em todo o mundo estão em casa, fechados, com a circulação altamente restringida, com as suas liberdades limitadas àquilo que o governo decreta, porque a Suécia não o faz também? É demasiado cedo para afirmar que estratégia é a correta, até porque nada do que estamos a viver é linear, e nenhuma estratégia é perfeitamente replicável. Esta assenta naquilo que é a cultura sueca e também no peso que a Constituição detém. O Governo e as autoridades afirmam que depositam e partilham responsabilidades com a população, e permitem ainda que sejam os cidadãos a decidir aquilo que é melhor para si. Ainda assim, apesar de, num inquérito, a maioria dos suecos concordar com as medidas, há uma minoria de 14% que põe em causa estas medidas de saúde, considerando que estão a ser tomadas em benefício da economia e não da população. Também a constituição limita o governo em determinadas matérias, sendo a Saúde Pública um deles.

Contudo, assistindo à propagação do vírus, o governo manifestou a vontade de introduzir medidas de emergência – como o confinamento ou as restrições no espaço público. Algo que foi rapidamente barrado pelo parlamento que está a analisar todas as medidas legais dos procedimentos de emergência. Questiona-se aqui a liberdade em tempos de pandemia. Um dilema globalmente actual.

Holanda (Países Baixos)

Como a maioria dos países, a Holanda reforçou as recomendações para os comportamentos sociais e de higiene pessoal. A vida social ficou restrita a uma distância de 1.5m entre pessoas e as saídas condicionadas a trabalho, mercearias, a cuidar de outrem ou para “apanhar ar fresco” – semelhante àquilo que se pratica no nosso país. Até ao fim do mês de Abril, todos os serviços e lojas que envolvam contacto físico estarão encerrados por força das medidas impostas. Os restantes serviços encontram-se a funcionar com as medidas de segurança necessárias. Esta estratégia tem sido chamada de “confinamento inteligente” pela imprensa estrangeira, que procura conter os impactos do isolamento para facilitar o caminho para normalidade. De acordo com o, por cá mal amado primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, a Holanda é um país de adultos, e as pessoas gostam de ser tratadas como tal, por isso, não é necessária uma quarentena geral obrigatória.

Uma rua vazia em Amesterdão (foto de Victor He via Unsplash)

Enquanto os números continuam a subir, a Holanda centra atenções na diminuição da propagação do vírus e, em simultâneo, numa estratégia de imunidade de grupo. Uma ideia que também Boris Johnson tentou pôr em prática no Reino Unido, mas que em poucos dias reverteu. A Holanda, por si, acredita que pode ser uma alternativa à vacina que ainda não existe. No entanto, a Agência de Saúde Pública holandesa concentra-se ainda nos estudos da produção natural de anticorpos pelo corpo humano.

Assim como em muitos outros países, a Holanda procura reajustar a sua capacidade hospitalar e abastecer os seus profissionais de saúde com os recursos necessários. As dificuldades são genéricas e procura-se aumentar o número de testes, profissionais de primeira linha, camas e equipamentos de protecção individual.

Com abuso de poder ou pouca responsabilidade

Há quem decrete estado de emergência, que carece de revalidação constante, como é o caso de Portugal, ou até quem decrete estado de emergência por dois anos, como o Reino Unido. Mas é na atribuição de poderes excepcionais que a preocupação das nações e organizações democratas se concentra nas últimas semanas.

Brasil

No Brasil, o chefe de Estado, Jair Bolsonaro, é acusado de falta de liderança. Depois de instigar ao fim do isolamento, por acreditar que o vírus é apenas uma “gripezinha”, é Bolsonaro quem agora se vê isolado mas politicamente. As duas primeiras mortes por Coronavírus no país foram confirmadas há três semanas. Hoje, o Brasil conta com mais de 1200 óbitos e vive uma autentica guerra política. A negação do Bolsonaro face à pandemia contrasta com a atuação e medidas levadas a cabo pelo Ministério da Saúde que até já ameaçou demitir e com os governadores de diversos estados que decretaram o isolamento social contra as suas ordens.

Jair Bolsonaro em conferência de imprensa, 18 de Março (foto de Marcos Corrêa/Palácio do Planalto via Flickr, CC BY 2.0)

Bolsonaro tem sido severamente criticado pela imprensa, não só pelo que não faz como pelo que decide fazer, nomeadamente: as intervenções em rádio e em televisão, onde foi apanhado a distorcer as declarações do porta-voz da OMS, ou em que decidiu avançar, sem evidência cientifica nem autoridade para o efeito, com a recomendação da cloroquina enquanto remédio milagroso para o vírus.

A situação no país onde mais de 30 milhões cidadãos não têm acesso ao saneamento básico é, para já, uma das mais preocupantes não só pelos efeitos imediatos como pelo que será necessário para evitar os efeitos de perdas económicas num futuro próximo.

Hungria

A concessão de poderes especiais ao Primeiro-Ministro húngaro, Viktor Orbán, está a agitar a União Europeia. O estado de emergência foi decretado dia 11 de Março, mas foi na passada semana que a estratégia política do país mudou. Orbán conta agora com o poder de suspensão de qualquer lei por decreto e a introdução de novas medidas, que promovam “a saúde, a segurança pessoal e material dos cidadãos, bem como a economia”. As acções do governo húngaro deixam agora de depender de qualquer validação por parte do Parlamento. Uma das primeiras leis a ser proposta pelo governo, após a concessão de poderes extraordinários, foca-se no fim de reconhecimento de género, em termos legais, a cidadãos transgénero.

Viktor Orbán numa visita recente à Moldávia (foto de Parlamentul Republicii Moldova via Flickr, Domínio Público)

A “legislação Coronavírus” é apelidada pelos opositores de Órban como a “lei omnipotente” e estabelece que os cidadãos que contribuírem para a desinformação em matéria sobre o Covid-19 serão punidos com uma pena de até cinco anos de prisão.

EUA

Muitas são as críticas que têm sido apontadas à Organização Mundial de Saúde relativamente à falta de atuação contra o novo vírus. E Donald Trump não poupou palavras nesse sentido. “A OMS realmente estragou tudo”, escreveu o presidente dos EUA no Twitter. Trump ameaçou ainda cortar o financiamento à organização. Para o Presidente norte-americano, este é um “vírus chinês” que foi “semeado” nos EUA por viajantes da Europa.

Foto de Charles Deluvio via Unsplash

Os Estados Unidos são o país com o maior número de infectados e de mortes provocadas pelo Covid-19. A taxa de mortalidade tem vindo a subir, sobretudo no estado de Nova Iorque. A postura de Trump face a esta crise fez já descer os ratings de aprovação do republicano, ao contrário daquilo que aconteceu com George W. Bush aquando do 11 de Setembro. A falta de regularização direcionada para os sem-abrigo e a suspensão das leis de estado contra a poluição são duas das razões que vão pesar nas legislativas contra a administração Trump.

Donald Trump agudiza neste momento de emergência o seu estilo de política unipessoal e pró-viral. Confrontado com um especialista em doenças infecciosas que contradiz as suas decisões face ao surto que se expande nos EUA, Trump chegou ao cumulo de partilhar um tweet em que se pede a sua demissão. Os EUA são já o país com valores de infectados mais elevado mas nem por isso o sentido de emergência se sobrepõe ao contraste bi-partidarizado que habitualmente governa o país – como exploramos mais à frente.

Com pouca solidariedade entre os estados

União Europeia

Desde que a crise despoletou à séria na China que se percebeu que dificilmente todos os estados europeus estariam preparados para agir à mesma velocidade e com os mesmos recursos. Quando o problema se agravou na Europa, tornaram-se claras as falências dos sistemas de saúde que, até então, eram vistos como alguns dos melhores do mundo. A falta de material como máscaras cirúrgicas, factos de protecção ou até válvulas para ventiladores, bem como de capacidade estabelecida de as produzir, foi um dos primeiros vértices da crise. Foi então que entraram em cenas as notícias sobre a solidariedade entre países que colmatava aquilo que os estados e as sociedades nacionais – empenhados em projectos de fabricação autónoma ou na reconversão de unidades de produção – não conseguiam produzir.

Durante os primeiros tempos, as críticas à União Europeu eram reflexo de uma aparente falta de solidariedade entre os estados, que deixava China e Rússia como parceiros improváveis de algumas comunidades em momento de urgência. Mais tarde, foi notícia o transporte de doentes entre Itália e Alemanha (para que fossem curados neste país onde a capacidade hospital estava menos saturada), mas foi do ponto de vista económico –  explorado mais à frente – que as relações União mais foram questionadas.

No início de Março, a intenção do Eurogrupo era ainda, de acordo com o seu presidente Mário Centeno, conter as medidas nacionais de combate à crise do Covid-19 no quadro da “flexibilidade” aplicável ao Pacto de Estabilidade e Crescimento. Duas semanas depois, o que muitos Estados-membros pediam aconteceu, e a Presidente da Comissão Europeia comunicou a inédita suspensão das regras orçamentais e uma ampla flexibilização das regras das “ajudas de Estado” (que têm inibido a intervenção pública directa nas empresas nacionais).

Mário Centeno na conferência de imprensa do Eurogrupo, 9 de Abril (foto de Eurogrupo/divulgação)

No resto, as muitas promessas de protecção da economia e do emprego não aconteceram de imediato, para além da referência a um plano de investimento de 37 mil milhões de euros destinado aos serviços de saúde, às empresas e à protecção dos postos de trabalho. Para termos noção da dimensão real deste valor, basta mencionar que a Espanha, sozinha, lançou um plano de combate aos impactos do Covid-19 de 200 mil milhões de euros. A Alemanha concedeu garantias para 500 mil milhões em empréstimos.

Toda a acção da Comissão Europeia foi centrada na eliminação de instrumentos de intervenção estatal na economia. A solidariedade europeia foi particularmente criticada depois da cimeira extraordinária de finais de Março, dedicada à crise do novo Coronavírus. Os líderes europeus prometeram cooperação, mas não chegaram a acordo sobre a emissão de títulos de dívida europeia para apoiar os países mais afectados pela pandemia – já se chegou a novo acordo mas mantém-se a incerteza sobre o futuro da economia da zona euro. 

EUA

Embora os Estados Unidos sejam um país com um fortíssimo governo federal, a sua resposta tem sido o oposto. Com situações e necessidades locais diferentes, a administração de Trump tem vivido jogos de tensão com muitos governadores e políticos locais, maioritariamente de estados urbanos. Nova Iorque, a cidade mais fustigada pelo vírus, rapidamente chegou ao nível de saturação de recursos e, quando o seu governador, Andrew Cuomo, informou a Administração que seriam necessários entre 30 a 40 mil ventiladores urgentemente, Trump desacreditou os números e, no seu habitual estilo, respondeu que a culpa pela falta dos meios vem da má gestão local e que não compete ao governo federal assegurar tais recursos. Para Trump, Gretchen Whitmer, governadora do Michigan, que se vê numa situação particularmente caótica e que apelou desde cedo à intervenção intensa de Washingon, é “aquela mulher do Michigan”. A seu mando, Mike Pence, o vice-presidente, não deverá telefonar ao governador de Washington e “perder o seu tempo” com pessoas que não apreciam a sua gestão da crise. O que têm estes políticos em comum? Todos eles são democratas. Nunca a gestão de uma crise, suposta ser baseada em princípios científicos, se sentiu tão polarizada e sem sentido de união.

Conferência de imprensa de Donald Trump e Mike Pence com os jornalistas, 8 de Abril (foto de Shealah Craighead/The White House via Flickr, Domínio Público)

Para os EUA, o Covid-19 é também usado no seu jogo geopolítico. Numa situação de descontrolo extremo e economia desnutrida, o Irão, num ato de desespero, pediu alívio das fortes sanções impostas pelos Americanos. Para Trump, a pressão contra o Irão manter-se-á “máxima”.

No seu habitual estilo nacionalista, e para conseguir pontos políticos, a sua administração tentou comprar os direitos de utilização exclusiva de uma potencial vacina em desenvolvimento por uma empresa alemã. O governo alemão entrou numa disputa para que a vacina e o seu desenvolvimento decorra em território europeu e em moldes de comercialização diferentes.

Turquia

A falta de recursos em geral leva também a situações caricatas. Fustigada pela segunda pior situação na Europa, a Espanha viu-se forçada a comprar material médico à China, numa compra de emergência quase a totalizar meio milhar de milhões de euros. A Turquia, outro país numa crise profunda de recursos, decidiu confiscar os ventiladores, máscaras e outro material que eram transportado no avião militar que fazia escala em Ancara, alegando irregularidades alfandegárias.

A relação entre a Turquia e a Síria não tem sido fácil desde o rebentar da guerra na região e crises deste calibre não aliviam a tensão. Na frente militar na Síria, os Turcos foram obrigados a operar em modo mínimo para evitar mais polos de infeção. Na frente económica, existe uma certa indignação geral pelo valor que o Governo tem assegurado para que pequenas e médias empresas e a população com menos recursos, tenha acesso a financiamento para moderar os efeitos do vírus numa economia já em si em mau estado. Como solução, o governo de Ancara propõe um plano de custo equivalente a 15 mil milhões de dólares. Muita gente vê-o com desdém, visto ser pouco mais que um terço dos fundos já usados pelo país para lidar com a sua recente onda migratória de 3.5 milhões de sírios. Os sírios estão portanto a ser usados como arremesso político, uma perspetiva que em nada ajuda o frágil balanço étnico e social vivido na região.

Com incerteza económica

Entretanto nos EUA, no inicio desta semana tornou-se viral uma animação que mostra a evolução do número de reivindicações de desemprego semanais desde 1960 até hoje. Nela, o mais chocante é que a variação habitual ao longo dos anos entre 300.000 e 700.000 (valor máximo na crise financeira de 2008), no final, parece quase uma linha horizontal quando comparada com a subida a pique dos mais 6 milhões de novas reivindicações só na penúltima semana do mês de Março.

A verdade é que o departamento norte-americano do trabalho já veio atirar mais achas à fogueira e anunciou que nas últimas três semanas, cerca de 16.78 milhões de americanos fizeram entrar nos escritórios deste departamento pedidos de subsídios ou formulários em como estavam à procura de emprego – valor que, estimam alguns economistas, possa chegar aos 20 milhões até ao final do mês, ou seja 15% da população trabalhadora, um valor que só encontra precedente na Grande Depressão, quando o desemprego bateu os 22.5% em 1931.

A somar às alarmantes estatísticas do desemprego está previsto um encolhimento da economia no primeiro trimestre deste ano entre 30-35%. Para contrariar os efeitos deste buraco negro em que a economia norte-americana, e já agora a europeia, parecem ter mergulhado, a Reserva Federal veio ontem anunciar aquilo que o Politico chamou de… “bazuca”. Com efeito, são cerca de 2.3 mil milhões de dólares para atacar esta crise: com um bilião destinado a garantias e linhas de crédito a pequenas e médias empresas; meio bilião directamente para comprar dívidas dos estados e o restante para comprar dívidas a bancos. Um anúncio que entusiasmou as bolsas.

Nova Iorque deserta (foto de Alec Favale via Unsplash)

Deste lado do Atlântico, os números do desemprego não são, de momento, tão assustadores como no outro lado. Em parte, muito em virtude das medidas de proteção social e laboral postas em prática de maneira algo transversal na zona euro – o governo alemão assume 2/3 dos salários dos trabalhadores em lay-off, como o governo português fez cá, e o francês a sua totalidade, mas é incerto por quanto tempo governos e empresas vão conseguir manter estas medidas. Já no plano económico, a situação é igualmente preocupante: a França registou no primeiro trimestre uma queda de 6% e, para o segundo trimestre, prevê-se que as outras três maiores economias da zona euro: Alemanha, Itália e Espanha vejam a sua economia retrair 10%, 9.6% e 8.9%, respectivamente. No global, em 2020, a União Europeia cairá 13%, mais do dobro quando comparado com o pior ano da crise em 2009, 4.5%.

Os Ministros das Finanças da zona euro, numa tentativa de encontrar uma solução conjunta para aplicar esta crise, reuniram-se já por duas vezes por longas horas esbarrando sempre na inflexibilidade da Holanda e da Alemanha na questão da mutualização da dívida.

No entanto, na noite de quinta-feira, 9 de Abril, algum fumo branco, ainda que translúcido, parece ter saído da terceira reunião: o Banco Europeu de Investimento disponibilizará 200 mil milhões em empréstimos às empresas; cada país pode recorrer até 2% do seu PIB sem grandes condicionalismos de rigor orçamental ao Mecanismo de Estabilidade Europeu (250 mil milhões) para apoiar gastos em despesas com saúde; e finalmente 100 mil milhões de apoio serão disponibilizados para custos com subsídios de desemprego. Totalizando pouco mais de 500 mil milhões de euros. Um sinal de que se conseguiu chegar a algum consenso mas muito longe de ser capaz de suprir as reais necessidades orçamentais de toda a zona euro estimadas em 2,3 biliões de euros.

Com esquecimento

É extenuante acompanhar os desenvolvimentos da pandemia em todos os países mundiais, e há países como a Rússia, onde os números não apresentam fiabilidade oficial e o seu patriarca percorre as ruas da capital para libertar os cidadãos da doença, que agradecem estar fora dos holofotes.

Antes da declaração de pandemia e da evolução catastrófica da situação italiana que colocou todos os países europeus centrados em controlar o contágio exponencial que colocaria em cheque os seus sistemas de saúde, a principal preocupação era com países com estruturas de serviços públicos pouco desenvolvidas, como por exemplo alguns países da África, principalmente a África Subsariana. Sendo a África um continente com países com realidades completamente diferentes, é redutor fazer uma análise transversal a todo o continente. Mas com as dificuldades que todos estão a sentir em lidar com o vírus é de esperar que muitos apoios importantes para o continente fiquem para segundo plano, e isso, aliado à pouca capacidade para testar os cidadãos para descobrir cadeias de transmissão, pode levar a que esta doença se torne um problema crónico para vários países.

O caso do Irão, que ainda alimentou uma dúzia de notícias por causa da moralidade das sanções económicas, e por ter sido um dos primeiros países a ver explodir o seu número de infectados e mortos, está neste momento fora do radar, com a situação a merecer algumas reservas pelas suspeitas desses mesmos dados estarem a ser manipulados. Apesar de algumas pressões internacionais para o alívio das sanções, e de a União Europeia tentar contorná-las enviado medicamentos e comida ao abrigo do mecanismo INSTEX, os Estados Unidos continuam irredutíveis, não deixando que este momento de crise amoleça a sua postura dura diplomática contra Teerão, insurgindo-se contra o pedido de financiamento ao FMI para lidar com a emergência.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!