RADAR #6: o mundo infectado que continua a girar

Na edição #6 do RADAR, acompanhamos o processo de desconfinamento em vários países do mundo, vemos como estão as comunidades mais pobres e esquecidas a reagir a esta nova fase da pandemia, e deixámos um último parágrafo, dedicado a notícias que não têm a ver com o vírus, porque o mundo não pára.

 
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Na nossa edição #5, reconhecemos um mundo parado pelo coronavírus. Dedicámo-la a acompanhar e perceber como estava o mundo a viver a pandemia de Covid-19, focando os Estados que estão a reagir com experiências sociais, abusos de poder ou faltas de responsabilidade, incerteza económica, entre outros. Agora, o mundo infectado continua a girar. Numa altura em que os números gerais da pandemia contam já perto de 5 milhões de pessoas infectadas em todo o mundo, e em que vários países começam a aligeirar as suas medidas de confinamento, importa entender como estão os estados a adaptar-se ao chamado “novo normal”.

Nesta edição #6, acompanhamos os casos específicos do Brasil e Estados Unidos, países que têm desvalorizado o impacto da pandemia e têm visto o reflexo dessa desvalorização no número de vítimas, olhamos para a Rússia e a Índia como novos focos (mediáticos) do vírus, falamos do processo de desconfinamento pelo mundo, com populações ansiosas por sair do isolamento, vemos como estão as comunidades mais pobres e esquecidas a reagir a esta nova fase da pandemia, e deixámos um último parágrafo, dedicado a notícias que não têm a ver com o vírus, porque o mundo não pára.

Entre o medo do vírus e o medo da crise

Trump, Bolsonaro e OMS

Desde o início a desvalorizar a pandemia de Covid-19, Donald Trump e Jair Bolsonaro ocupam leads de jornais em todo o mundo, pelas razões menos felizes.

O presidente dos EUA mostra-se mais uma vez incapaz de lidar com a responsabilidade cívica que detém em si. Donald Trump reagiu à pandemia com pouca prudência, desvalorizando aquilo que vinha a passos largos a caminho do ocidente e que, pelo caminho, deixava milhares de infectados e centenas de mortos. A pandemia – que brevemente chegará aos 5 milhões de infectados e já provocou mais de 300.000 mortes – foi classificada por diversas vezes como uma “simples gripe” que passaria mais tarde ao mais cedo. Trump  desde os primeiros casos que afirmava confiante que iria ficar tudo bem, e que não havia especial gravidade na situação americana. Há medida que os números iam crescendo, as respostas não foram muito diferentes, ficando-se por alguns apelos aos comportamentos de segurança individual que, em todo o mundo, são práticas comum desde meados de março. Pelo meio, Trump foi protagonista das afirmações mais surreais sobre o vírus, especulando sem qualquer base cientifica sobre possíveis terapias.

Com a gravidade da situação a crescer a uma velocidade vertiginosa nos EUA, com fortes impactos sociais, económicos e, principalmente, de saúde pública, as políticas aplicadas iam sendo questionadas pelo povo americano e pela classe jornalística. Sem demoras, Trump voltou-se contra alguns jornalistas com acusações de mau jornalismo, quando questionado sobre o receio do povo americano, ou sobre as posições de alguns governadores perante as suas medidas. Como já tem sido habitual noutras matérias, a China foi também visada pelo 45º presidente americano, que culpou o país mais populoso do mundo por ter lançado este vírus propositadamente — outra afirmação sem qualquer fundamento científico. A OMS também não escapou a esta distribuição de culpa, e foi alvo de acusações de má gestão e ocultação de dados importantes.

Donald Trump num briefing com os jornalistas a partir da Casa Branca (foto de The White House via Flickr, domínio público)

O modo de gestão de Trump inspira outros governantes pelo mundo fora. No Brasil, Jair Bolsonaro lidera um país com 200M de pessoas como lhe apetece. A equipa de Bolsonaro tem sido criticada desde o início, mas detém sobre si os votos de mais de 55% dos brasileiros.

Possivelmente inspirada em Trump, a gestão desta crise tem sido contestada mundialmente, acima de tudo pela leviandade com que o presidente Bolsonaro a tem conduzido. Muitas personalidades afirmavam que quando o vírus chegasse ao Brasil, se não fosse estrategicamente contida, poderia ter impactos abissais em números de infectados, mortos e economicamente falando, ser devastador. A indiferença de Jair Bolsonaro perante o crescente número de mortes, demonstrado na primeira pessoa com declarações como “eu não sou coveiro” ou “e daí?”, é arrepiante.

Bolsonaro nega as evidências científicas, e, assim como Trump, passa uma mensagem de despreocupação, displicente e simplória, sobre o vírus. O antigo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, demitiu-se por discordar de Bolsonaro nas medidas de resposta ao vírus. Nelson Teich assumiu o cargo a 17 de abril e, pouco antes de celebrar um mês, demitiu-se após saber em plena conferência de imprensa que o presidente tinha determinado que barbeiros, cabeleireiros e ginásios eram atividades essenciais e podiam funcionar durante o isolamento social decretado. Num momento crucial para a saúde pública no Brasil, dois ministros da Saúde abandonam o cargo por desalinhamento com o Presidente, que tende em tomar decisões questionáveis e de dúbio fundamento.

Tomada de possa de Nelson Teich como Ministro de Estado da Saúde do Brasil a 17 de Abril (foto de Marcos Corrêa/Palácio do Planalto via Flickr, CC BY 2.0)

Ao dia de hoje, o continente americano já ultrapassou a Europa e número de casos, com os EUA e o Brasil em destaque, pela negativa. Falamos de dois países que representam mais de 500 milhões de pessoas e que são geridos como se de um jogo se tratasse. Os truques de Monopólio de Trump ou as estratégias de Bolsonaro que parecem saídas do Age of Empires, conduzem os destinos destes dois países, para o bem ou para o mal. Esperemos que nenhum dos dois tenha conhecimento do Plague Inc…

Rússia e Índia. Novos focos (mediáticos) de Covid-19

Foi em poucos dias que a Rússia subiu para o pódio de segunda nação a registar o maior número de infetados pelo novo coronavírus. Segundo os números oficiais, a Rússia conta com mais de 299 mil casos positivos e  apenas 3000 mortes.

Diariamente, tem sido reportada uma média de 10 mil novos infectados em solo russo. Entre os casos positivos, estão o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, o primeiro-ministro, Mikhail Mishustin, a ministra da Cultura, Olga Lyubimoya, e vários deputados.

Foto de Mehrnaz Taghavishavazi via Unsplash

O número total de mortes contabilizadas pelas autoridades da Rússia tem sido questionado por várias instituições e meios de comunicação, que dizem duvidar da certeza dos dados oficiais e garantem que os números são significativamente superiores. O Financial Times chegou mesmo a assumir que a Rússia deveria ter mais 70% de casos mortais do que os que têm apresentado.

Em sua defesa, o Ministério da Saúde russo explicou que a contagem das mortes por Covid-19 tem sido feita tendo apenas em conta se o vírus foi a causa principal da morte dos pacientes, independentemente de terem sido indicados como positivos ao Covid-19. O Ministério da Saúde reitera, ainda, que os números de infectados não tem subido devido a uma maior propagação do vírus. Os números devem-se, diz, ao grande aumento de testes feitos nas últimas semanas. O Governo indica ainda que o facto de o novo coronavírus ter aparecido mais tarde na Rússia, comparativamente a outros países, ajudou a preparar e capacitar as instalações hospitalares, justificando assim o reduzido número de mortes.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo acusou, na passada quinta-feira, o Financial times e o New York Times de “desinformação” e “infodemia”, após ambos teres publicado artigos que desmentem os dados emitidos pelas autoridades russas não correspondem à realidade. Após a declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, o deputado Vasily Pskaryov ordenou às autoridades de Moscovo a retirada de acreditação dos correspondentes dos dois jornais na Rússia, o que põe imediatamente termo ao seu trabalho no país.

No início da semana passada , o Presidente do país, Vladimir Putin, anunciou o levantamento gradual das medidas restritivas e o fim do pagamento dos dias em que os russos não podiam trabalhar, medidas que estão a preocupar a população.

A Índia é também um dos países que está, neste momento, no centro das atenções devido ao elevado número de infetados pelo novo coronavírus, que supera já os registos da China. O Ministério da Saúde indiano anunciou, neste sábado, um total de 85 940 casos positivos e mais de 2700 mortes. Os estados indianos mais atingidos são Maharashtra, Tamil Nadu, Gujarat e Nova Deli, respectivamente. O país está, neste momento, a sofrer uma segunda vaga de novos casos, depois de ter passado por um período de estabilidade. Diariamente, estão a ser reportados 4000 novos casos.

Foto de Sreehari Devadas via Unsplash

No início deste mês, o primeiro-ministro, Narendra Modi, começou a diminuir gradualmente as restrições e o confinamento, procurando a retoma da atividade económica, permitindo a reabertura do comércio local, o funcionamento da indústria e o regresso dos trabalhadores à agricultura. Contudo, o regresso da classe de trabalhadores é apontado como a principal causa do aumento de casos positivos registado nos últimos dias.

Para além dos números registarem um aumento significativo nos últimos dias, existem outras consequências que o vírus está a causar no país. Por ordem do Governo, há hospitais que têm dividido os utentes por religião, separando hindus de muçulmanos. Os meios de comunicação indianos têm sido acusados de promover a “islamofobia”, por culpabilizarem a comunidade de muçulmanos pela propagação do vírus. Na economia, algumas leis trabalhistas estão a ser postas de parte, o que representa uma regressão nos direitos dos trabalhadores.

Populações impacientes

Já começamos a ver, um pouco por todo o mundo, várias manifestações contra as medidas de confinamento em vigor aplicadas pelas autoridades, como por exemplo na Europa – Suíça e Alemanha – e em El Salvador, na América Central. Para além dos movimentos negacionistas que desde o princípio da pandemia negaram a necessidade confinamento, surgem agora novos focos de contestação.

Na Suíça, as manifestações denunciavam as restrições impostas que violam os seus direitos fundamentais, na Alemanha exigia-se o direito à manifestação. Centenas de pessoas, em Berna, protestaram à frente do Parlamento, bem como noutras cidades suíças, contra as restrições impostas pelas autoridades. Na Alemanha, o protesto aconteceu em Berlim e também juntou centenas de pessoas, mesmo que as manifestações estejam limitadas a 50. Os manifestantes reivindicavam o direito à manifestação.

Protestos numa das principais praças de Berlim (screenshot via Ruptly/YouTube)

Os manifestantes em El Salvador denunciaram as más condições dos centros de detenção e querem saber os resultados dos testes feitos aos quase 4 mil detidos em quarentena forçada. O presidente deste país criou, em março, 91 centros de detenção para pessoas que supostamente tenham violado o confinamento obrigatório ou que sejam suspeitas de terem contraído o vírus fora do país. Os detidos alegam que as instalações são minúsculas e que tem más condições de higiene, alguns estão detidos há mais de um mês. Por isso, em dois destes centros, houve perto de 300 pessoas que protestaram no início do mês de maio, que para além de reivindicarem a sua libertação, querem saber os resultados dos exames à covid-19.

O desconfinamento na Europa

O surto pandémico começou na China mas muito rapidamente o foco da atenção passou a ser a Europa. Nos primeiros meses o vírus migrou, discretamente, até ao velho continente e Itália tornou-se no novo epicentro. Jogos de futebol lotados, movimentos entre países com baixo controlo e uma certa inércia em agir criaram o caos, especialmente em Itália e Espanha, que só agora começa a voltar a ordem.

Depois de dois meses com políticas apertadas de confinamento, Espanha e Itália ensaiam agora um regresso à normalidade, a um ritmo ligeiramente mais lento do de outros países menos afectados. De forma faseada, dando primazia a espaços pequenos e essenciais — quer objectiva, quer culturalmente — vão sendo levantadas as restrições que impediam a vida normal. Num movimento quase sincronizado mas sem uma liderança única. Cada país pode e deve assim gerir as suas políticas segundo as normas mínimas estabelecidas pela União Europeia.

Na Alemanha, um país importante pela sua centralidade, por exemplo, desde 20 de Abril que os espaços comerciais mais pequenos tinham carta verde para abrir, agora, a meio de Maio, todos os outros têm a mesma permissão. No fim de semana de 14 e 15 de Maio arrancou também a Bundesliga, ainda que à porta fechada, num dos primeiros pontapés de saída em solo europeu no pós-Covid. A fronteira com a Áustria também foi reaberta a 15 de Maio, já as restantes fronteiras terrestres deverão sê-lo em Junho. Quanto a escolas, abrem primeiro para os mais novos e para aqueles que têm a fazer exames importantes.

Foto de Bennett Tobias via Unsplash

Em Itália, mantém-se as restrições a viagens entre regiões e a abertura de espaços públicos só vai começar agora. A incidência da pandemia faz com que a probabilidade de contágio possa ser superior e os serviços de saúde estejam mais perto da saturação pelo que atrasam o processo de retoma. O mesmo sucede em parte em Espanha, que por ter níveis de incidência díspares entre regiões adopta diferente estratégias. Em ambos os casos a abertura das escolas foi apontada para Setembro.

Um pouco por toda a Europa são várias as políticas adoptadas pelos governos de regresso à normalidade. À imagem da Alemanha, os países menos afectados fazem-no mais rapidamente, à imagem de Itália os que mais sofreram evitam um regresso precipitado. Essencialmente continuam a desaconselhar-se as viagens entre países, por tempo indeterminado, e por toda a Europa foram cancelados eventos de larga escala como festivais, em sequência da proibição de ajuntamentos que se podiam tornar focos de contaminação descontrolados. De resto, as estratégias de desconfinamento são controladas a um ritmo diário e dentro dos enquadramentos legais previstos podem ser ajustadas em resposta aos valores conhecidos.

Já a Suécia, o caso dado como particular pela aposta na cidadania voluntária, as restrições severas nunca foram impostas pelo que não têm de ser levantadas. O Governo parece continuar a apostar na mesma estratégia, estando proibido, apenas, qualquer tipo de ajuntamento com mais de 50 pessoas.

Os mais pobres e os esquecidos

O vírus a “descer” para África

Desde que começou a pandemia de Covid-19 que uma coisa se tornou certa, se o vírus ataca todos por igual e não escolhe classe, etnia ou outra categoria que seja, o acesso aos cuidados e as condições de cada sistema nacional de saúde são factores determinantes para o sucesso, sempre relativo, no combate. Nesse sentido, África continua a representar um foco de preocupação para as organizações de saúde. Num continente dividido em dezenas de países onde nem todos têm condições de higiene e saneamento básico e onde as desigualdades sociais já fazem com que os números da saúde sejam muitas vezes sombrios, o novo coronavírus torna a equação ainda mais díficil de fazer.

Até ao dia 19 de Maio foram detectados 86 mil casos, resultantes em 2,7 mil mortes e 33 mil recuperados, contudo a falta de coordenação na prestação dos cuidados de saúde e a marginalização de algumas comunidades, e povoações, em diversos países da região, deixam latente a dúvida sobre a capacidade de testes, uma dimensão que se tem revelado fundamental na compreensão da incidência do vírus em cada zona. O próprio relatório da Organização Mundial de Saúde incide sobre os dados verificados e apresentados oficialmente que, segundo consta, em alguns países têm alguns dias de atraso.

Para além do perigo que o vírus em si representa, a região africana é sensível pelas várias batalhas que é sujeita a travar em simultâneo. Como referiu a doutora Matshidiso Moeti, responsável da OMS em África, mencionando os importantes avanços no combate ao Polio, a região não pode esquecer as suas prioridades e deitar tudo a perder.

Refugiados rohingya à deriva

Centenas de refugiados rohingya estão à deriva no mar há semanas, em centenas de barcos de madeira e sem condições. Oriundos dos campos de refugiados no Bangladesh, onde se abrigavam depois de fugirem da limpeza étnica de Myanmar, têm como objetivo chegar à Malásia e, em condições normais teriam conseguido desembarcar no país, como já aconteceu antes, mas a situação mudou por causa do coronavírus. O medo de contaminação tem sido invocado para não os deixarem desembarcar e, rejeitados em vários portos, a sua situação é cada vez mais desesperada.

O receio das organizações de direitos humanos é que morram de fome e de sede, como terá acontecido com dezenas a bordo de um barco que, em abril, conseguiu regressar ao Bangladesh com 390 refugiados em estado de extrema fraqueza, e outros 70 mortos, depois de dois meses no mar. Várias embarcações recusadas pela Malásia têm ainda sido reencaminhadas para uma ilha de lodo no estuário do rio Meghna, no Bangladesh, remota e desabitada.

As Nações Unidas avisam agora para a possibilidade de “uma tragédia humana de proporções terríveis”, e organizações como a Human Rights Watch reforçam os apelos para que a Malásia cumpra a sua obrigação de recolher os refugiados.

Refugiados na Turquia usados como jogada política

No início de março, milhares de refugiados reuniram-se em Pazarkule, na fronteira turca com a Grécia, depois de o presidente da Turquia Recep Tayyip Erdoğan ter dito que iria abrir “os portões” para a Europa.

A medida foi uma reação à morte de 33 soldados turcos na província de Idlib a 28 de fevereiro por um bombardeamento das tropas sírias, e uma jogada política para pressionar os líderes europeus a apoiar a intervenção militar turca na Síria – Erdogan quebrou assim o seu polémico acordo de 2016 com a União Europeia, no qual a Turquia se comprometia a reter o fluxo de refugiados vindos de conflitos do Médio Oriente, a troco de financiamento europeu, seis mil milhões de euros para manter cerca de 3,5 milhões de refugiados sírios em território turco.

Desde então, as fronteiras ainda não foram oficialmente abertas e, segundo pessoas no local, a Turquia terá dito aos refugiados que as forçassem, porque não abririam de outra forma. Relatos de refugiados em Pazarkule ao The Guardian, contam que, com o aparecimento do Coronavírus, a Turquia queimou os acampamentos junto à fronteira e obrigou milhares de pessoas a ir para campos de quarentena. Depois da quarentena terminada, muitos foram parar às ruas de Izmir, outros levados para centros de detenção em Ancara, e outros ameaçados de que seriam enviados para as chamadas “zonas seguras” na Síria. A maioria destas pessoas tinha gasto todas as suas poupanças para conseguir chegar à fronteira de Pazarkule.

Grécia prolonga confinamento a refugiados no país

Do outro lado, na Grécia, as autoridades estenderam o período de quarentena imposto desde março em campos para migrantes e refugiados. “As medidas de confinamento de coronavírus para aqueles que vivem em campos de imigrantes e em centros de acolhimento na Grécia vão ser prolongadas até 21 de maio”, disse o ministério de migração e asilo em comunicado, ainda que não tenha sido explicado o porquê do prolongamento.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, o número total de requerentes de asilo na Grécia é de aproximadamente 120.000 pessoas.

Junto à fronteira com a Turquia, mesmo após o período de quarentena, os milhares de refugiados que lá se encontram continuam a ser peças do jogo político entre Grécia e Turquia. Histórias não confirmadas têm aparecido na imprensa grega desde o início do abril, sugerindo que a Turquia planeava enviar refugiados infectados com Covid-19 para a Europa. Uma reportagem do jornal grego Kathimerini chegou à capa com o título: “A Turquia está a empurrar migrantes infectados com Covid para atravessar a Grécia, dizem as autoridades”.

Artigos semelhantes foram publicados noutros meios de comunicação gregos que usaram frames de vídeos filmados por refugiados sem contexto, e para reforçar as alegações de que refugiados com coronavírus estavam a reunir-se na fronteira. O vídeo, visto pelo The Guardian, confirmava, no entanto, que todos os intervenientes acabavam de ser libertados de 15 dias de quarentena e ninguém estava infectado.

O mundo continua a girar

Chile de volta às ruas

O Chile já atravessava há vários meses um período de agitação social e violência, iniciados em outubro do ano passado, com a subida do preço dos bilhetes de metro, em Santiago. Essa agitação foi sendo agravada pela crise provocada pela pandemia, que aumentou o desemprego e a pobreza. Na semana passada, uma centena de manifestantes em El Bosque, nos arredores de Santiago do Chile, desafiaram o confinamento decretado pelo governo para protestar contra a pobreza e a escassez de alimentos provocada pela quarentena obrigatória na zona metropolitana, uma ação que acabou em confrontos com a Polícia.

Este episódio foi o primeiro episódio de confronto desde que o Governo de Sebastian Piñera decretou o confinamento de toda a população na região da capital, que concentra 80% dos casos da Covid-19 no país, após um elevado número de infeções, que já ultrapassam os 46 mil casos.

O Chile tem decretado quarentenas “selectivas e estratégicas” por região, e esta é a primeira vez, desde o início da pandemia no país, que a chamada zona da “Grande Santiago”, composta por 32 comunas (bairros), entra em quarentena ao mesmo tempo, já que as áreas orientais foram inicialmente confinadas.

O Chile está em estado de emergência, com um toque de recolher obrigatório a partir das 22h, desde meados de março, com escolas, universidades e fronteiras fechadas, bem como a maioria das empresas não essenciais. O Presidente chileno anunciou entretanto cinco medidas de apoio para as pessoas “mais vulneráveis”, incluindo a entrega de 2,5 milhões de cabazes de alimentos às famílias mais pobres do país.

Protestos em Hong Kong continuam

Várias centenas de pessoas responderam ao apelo feito nas redes sociais para que se voltasse para os centros comerciais, neste caso no dia da Mãe, para exigir a independência do território e renúncia da governante local, Carrie Lam. Perto de 250 pessoas foram detidas e 18 feridas. É também de salientar a crítica feita à repressão contra os jornalistas que fizeram cobertura deste protesto. A governadora da região culpa o sistema educativo, diz que “envenena os jovens com informação falsa e enviesada” e propõe uma revisão mais conservadora.

Situação de Venezuela e Maduro

Pela América do Sul, os usuais jogos de politiquice voltam às luzes da ribalta. Em largos meses de instabilidade institucional, a Venezuela anunciou ter capturado 13 americanos em plena tentativa de derrubar o regime do presidente Nicolás Maduro. Segundo as autoridades, a equipa foi apanhada enquanto tentava entrar pela costa, 8 elementos abatidos e o resto detido para interrogatório policial. Aparentemente, os indivíduos pertenciam a uma empresa de segurança privada – Silvercorp – chefiada por Jordan Goudreau, um ex-veterano do exército americano. Goudreau falou abertamente sobre o ataque e afirmou, horas depois, que a operação conta com 60 tropas e que as suas atividades continuarāo para derrubar Maduro. Até ao momento, não houve qualquer sinal de outros confrontos.

O ataque levanta questões de motivações ulteriores. Para o regime de Maduro, este foi um ataque orquestrado por Washington, algo prontamente desmentido pelos EUA. O regime também aponta o dedo a Juan Guaidó, líder da oposição e suposto presidente interino da Venezuela aos olhos de várias organizações internacionais e estados que não validam os moldes das eleições presidenciais de 2018 que reelegeram Maduro. Para o Presidente, Guaidó está a conspirar para que suba ao poder e o derrube por golpe. Guaidó não só prontamente desmentiu as alegações como mostrou ceticismo na versão oficial.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!