Porque se vandalizam e pilham lojas no meio de protestos pacíficos? A lógica do looting

O looting, ou em português, a pilhagem, tem sido foco dos media no retrato dos protestos mas o seu fundamento pode ser muito mais abrangente.

via Unsplash/Donovan Valdivia
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No meio das dezenas de imagens e vídeos que nos chegam dos protestos que ocorrem na ruas de dezenas de cidades dos Estados Unidos da América, alguns mostram montras partidas, pessoas a invadir e pilhar lojas, ou simplesmente a vandalizar propriedade privada. E por mais que este género de acções não seja o mais frequente, a sua carga simbólica tende a modelar o discurso extremando-se numa perversa comparação entre a propriedade privada e a vida humana. As pilhagens não são o principal acontecimento de uma manifestação mas a tendência é para que surjam contra argumento à narrativa que leva as pessoas à rua, ignorando a colateralidade de um fenómeno de massas como aquele a que assistimos. 

Desde que os protestos começaram a ganhar alguma dimensão e se viram imagens como as que acima descrevemos, Trump foi um dos primeiros a desviar para lá a atenção. No tweet que se tornaria marcante por ter sido assinalado pelo Twitter como uma glorificação da violência, podia ler-se “Qualquer dificuldade e assumiremos o controlo, mas, quando a pilhagem começar, o tiroteio começará. Obrigado!” – a frase incendiária, “when the looting starts, the shooting starts”, é conhecida por ter sido dita numa conferência de imprensa de 1967 por um um chefe de polícia de Miami acusado de usar táticas racistas e excesso de força em patrulhas a bairros negros. A partir do tweet de Trump, a mensagem em torno dos protestos dissipou-se, abandonando parcialmente ideia de justiça pela morte de George Floyd e focando os desacatos como expressão mais significante dos protestos. A sequência dos acontecimentos está longe de ser inovadora, a diferença está nos protagonistas.

Em 2014, aquando da morte de Michael Brown, alvejado com 6 tiros disparados por um polícia que pretendia detê-lo por um roubo de baixo valor, os Estados Únicos da América viram na cidade de Ferguson, no estado do Missouri, um esboço daquilo a que se hoje assiste. Foi nesse momento que o movimento Black Lives Matters, na altura recentemente criado, ganhou pela primeira vez notoriedade. Apesar disso, mais uma vez o vandalismo e os confrontos violentos impuseram-se no debate público. Barack Obama condenou-os mas num tom completamente diferente, com um distanciamento que contribui para um melhor entendimento do fenómeno – denunciando o aproveitamento dos protestos para actos de vandalismo, rejeitando explicitamente uma correlação entre ambos os fenómenos.

“There is never an excuse for violence against police, or for those who would use this tragedy as a cover for vandalism or looting.  There’s also no excuse for police to use excessive force against peaceful protests, or to throw protestors in jail for lawfully exercising their First Amendment rights.”

Se é claro que os momentos de looting surgem sempre associados aos grandes protestos, a relação entre os fenómenos é impossível de assegurar. Pelas suspeitas dos oficiais da polícia das cidades atingidas que denunciam a possibilidade de outsiders estarem a infiltrar os protestos para gerar mais desacatos, e as histórias a que vamos tendo acesso pela imprensa norte-americana, ficamos com a ideia de que este recurso à violência contra a propriedade privada não é uma consequência absolutamente natural dos protestos. Algumas ideias ajudam-nos a compreender melhor a sua complexidade:

“I don’t think this has anything to do with Black Lives Matter,” said a 24-year-old man at the corner of Houston and Broadway, some time after midnight. “It’s just chaos. People are just using this as an excuse to act crazy, do stuff they never dreamed of doing before.”

Por altura dos protestos de 2014, Vicky Osterweil, publicou na revista The New Inquiry um ensaio denominado “In Defense of Looting” — que se pode traduzir como “Em defesa da pilhagem”. Nesse longo texto, Osterweil estabelece um argumento não só sobre como estes actos de violência mais extrema acabam por dominar parte do discurso em torno dos protestos mas, também, como, à luz da história, este exercício de violência brusco pode ter uma carga simbólica muitas vezes ignorada, profundamente anti-racista. Osterweil começa por abordar a questão dos media denunciando como de forma tácita acabam por legitimar comportamentos mais destrutivos. Recorrendo a exemplos concretos, lembra-nos que foi a vandalização de uma farmácia que captou atenção para a vigília pelo assassinato de Kimani Gray, em Nova Iorque, e incita-nos a reflectir sobre aquilo que vemos nas televisões. Osterweil sustenta que, como a violência se torna rapidamente motivo de notícia, acaba por ser vista como uma forma de luta que mais instantaneamente chama à atenção, ao contrário de demonstrações violentas que muitas vezes são silenciadas.

Este lado violento e de “agressão” ao sistema preenche os critérios dos media e, ao dar por esta via palco aos looters, alimenta este ciclo vicioso. Uma montra de uma loja partida é interesse público mas uma manifestação não o é se não corroborar as linhas editoriais dos media, que muitas vezes recorrem a informações veiculadas pela polícia e outras instituições organizadas que acabam por dominar o discurso em torno da demonstração. 

No mesmo ensaio, Vicky debruça-se ainda sobre a carga simbólica da pilhagem e recorre às subversões provocadas pelo espírito da internet para explicar outro ponto. Conta-nos que, em resposta à hashtag #suspectedlooters, que pretendia servir para identificar online pessoas que pudessem estar envolvidas em desacatos do género, centenas de internautas publicaram imagens de europeus colonialistas, donos de escravos, cowboys e outros “brancos apropriadores culturais”. Com este ponto, Vicky pretende re-estabelecer uma certa ligação histórica entre os fenómenos, afirmando que se África não tivesse sido looted não haveria uma expressão tão grande de afro-americanos.

Noutro ponto explora a ideia de propriedade colectiva e como nos tempos do capitalismo essa ideia está dissoluta. Recorrendo a um vídeo de Instagram sobre os protestos em Ferguson, Vicky decorre sobre o expresso no vídeo. Um jovem looter explica que, ao contrário do que as pessoas dizem, que estão a “destruir os seus próprios bairros”, a realidade é que a maioria desses bairros não lhes pertence – Vicky lembra ainda que os chamados black-neighborhoods têm uma maior concentração de cadeias de fast food e chain-stores, um ponto que sustenta a ideia de que as propriedades do bairro não pertencem necessariamente aos seus habitantes e que, correlacionado com o facto de, em média, as populações negras terem um salário mais baixo, desmonta o argumento de que essas lojas são também sua propriedade. Vicky questiona “como pode uma cadeia de lojas de conveniência ou um restaurante de uma corporação ser parte do bairro de alguém? Os mesmos liberais brancos que investiram nas empresas e acabaram por destruir as comunidades locais ficam horrorizados quando os manifestantes levam a sua crítica à sua conclusão material”.

Para analisar este argumento é preciso algum distanciamento sobre as lógicas de propriedade e comunidade, em correlação com a visão do que é um bem comum ou público; em suma, o espaço público cada vez mais corporativista e detido por grandes empresas – pensemos nas cadeias de fast food, por exemplo – corroem a ideia de um espaço detido ou, pelo menos, gerido por uma comunidade, diluindo o sentimento de pertença com o próprio local que facilmente se torna num movimento de vingança e reconquista do espaço assim que há uma oportunidade na lei.

Para concluir, Vicky propõe uma leitura política e ideológica sobre os actos violentos, sugerindo que é uma mistificação não reconhecer o simbolismo político do movimento apenas pela sua violência. Como explica – e é preciso distanciarmo-nos das ideias e imagens de violência mais expressas – o looting é uma atitude que surge num contexto extremo, relembrando a sociedade de que a ideia de propriedade privada é apenas uma ideia, e como tal assenta num consentimento estrutural definido em sociedade e suportado pela força do estado.

Assim, o vandalismo não é mais do que a expressão da reinvenção da estrutura social de um sítio, um sintoma da sua ebulição permanente, a literalização violenta de uma crítica, não é a anarquia, mas antes uma saturação da democracia capitalista, onde a lei impede pela força os indivíduos de acederem aos seus desejos à distância da ideia da propriedade privada. Neste sentido podemos quase afirmar que se o vandalismo surge paralelamente aos protestos, ele é mais uma expressão do próprio sistema em que se desenrolam os protestos do que a sua própria expressão. Como diz Vicky, é o resultado da inexistência da força da lei, na forma de policias, num dado momento e local – não é necessariamente a ausência das regras mas de alguém que force o seu cumprimento. 

É também por isso que não é justo afirmar a correlação entre a anarquia e o vandalismo. Uma vez que o ideal anarquista parte de uma ideia à priori onde são diluídas ou repensadas as ideias de propriedade privadas; pelo contrário, o vandalismo ocorre num contexto onde essa estrutura de propriedade é mantida pela força da lei e da ordem. Dizer que o vandalismo expressa a anarquia ignora a mensagem da violência – não se trata de não ter regras, trata-se de poder quebrá-las como forma de atingir o sistema no seu âmago, como forma de vingança por um sistema que se sustenta numa lógica de crescimento infinito baseado na criação de desejos, através do marketing, em todas as franjas da população.

Por outro lado, se existe esta visão, digamos, política dos looters, não é certo que todos os que se juntam ao fenómeno alinhem pelo mesmo ideário, como acima escrevemos. Darnell Hunt, reitor da Faculdade de Ciências Sociais da UCLA, e investigador sobre os protestos após a morte de Rodney King, partilhou com a Vox a sua visão sobre o fenómeno. Para ele é claro que embora haja um trigger, como a morte de King ou de Floyd, o movimento de participação em massa é muito mais disperso, sendo aproveitado para materializar diversas críticas ao sistema. Assim, não é de ignorar a escalada no desemprego que tem marcado os últimos meses nos Estados Unidos da América, são agora 40 milhões de desempregado, e a precariedade laboral, que vieram muito por conta do coronavírus. Apesar de a expressão superior ser sobre a morte de George Floyd todos estes fenómenos se articulam num contexto particular, uma América com um tecido social cada vez mais corroído e um tecido económico cada vez mais precário. 

Para Darnell, os lootings são uma forma de expressão violenta da perda de legitimidade de um sistema. Embora as pessoas reconheçam as regras – não reina a anarquia – as pessoas rejeitam a sua legitimidade por considerarem que a sua aplicação injusta é a causa de parte dos problemas. Aqui importa relacionar outro ponto. Os actos de vandalismo são não só condenáveis, como perigosos, para quem os pratica, e nesse sentido exprimem também as condições de vida dos seus autores. Assim existem duas possibilidades: ou a sensação de impunidade – que por exemplo foi tema quando o youtuber Jake Paul andou recentemente a filmar as acções de looting no Arizona – ou a sensação de que não há nada a perder. Para Darnell, a segunda desempenha um importante peso neste fenómeno. Para o investigador é preciso conceber uma sociedade com condições dignas de vida para que este ímpeto seja controlado, e a legitimidade das ideias de lei e propriedade privada não seja vista como algo tão violento.

Se esta é uma leitura do actos de pilhagem, dezenas de outras podem ser trazidas para cima da mesa. O seu carácter quase pornográfico suscita reações quase sempre superficiais mas o assunto é muito mais complexo e paradigmático do sistema em que vivemos do que se possa pensar. De resto, noutros contextos, o looting tem outras leituras que também são interessantes de cruzar neste raciocínio.

Por exemplo, em 2003, quando questionado sobre os actos de vandalismo perpetrados em Bagdade depois de os norte-americanos invadiram a cidade, Donald Rumsfeld, antigo Secretário de Defesa norte-americano, foi peremptório, afirmando a compreensão daqueles actos como um efeito colateral de uma causa justa. Na altura, Rumsfeld criticou que se desse tanta importância aos actos de pilhagem, dizendo ironicamente que era “notável” que de repente esse fosse o maior problema, dizendo que era normal “pessoas livres cometerem erros” e que estas atitudes diminuiriam com o tempo e eram um resultado normal de uma transição para a liberdade.

Embora em todo o caso a acção seja condenável pelo seu carácter violento, a diferença na retórica com que se discute é diametralmente oposta. Se neste caso se opõe ao loot, a ideia de Lei e Ordem, num caso em que o trigger é uma invasão norte-americana, o responsável do pentágono pedia que se voltasse o foco para o que é importante. Não se deveria fazer o mesmo neste caso? De resto, desde o irmão de George Floyd até dezenas de outros africanos que têm posto publicações nas redes, vemos uma condenação do looting vinda de quase todos os quadrantes. Tão dispersa quanto o seu apoio. Se é certo que esta forma de violência é condenável, ainda é mais importante que seja analisada, não como reivindicação deste protesto mas como movimento orgânico deste sistema, que se repete cada vez que é possível.

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